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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nas Europeias

rabiscado pela Gaffe, em 28.05.19

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A Gaffe está intrigada.

A abstenção, em Portugal, referente às eleições europeias 2019, aproximou-se dos chocantes 70%.

Alvitra-se que foi o tempo que, para além de aproximar os turistas das paisagens marítimas portuguesas, consegue de igual modo convencer os eleitores a trocar as voltas ao voto. Sugere-se também que a bola fintou a baliza do eleitor e preencheu-lhe outras redes.

Outras preguiças e outras manigâncias de igual valor se acrescentam aos fios descarnados que interromperam o fluxo directo à cabina de voto e electrocutaram o resultado.

Seja.

As contas foram feitas e já toda a gente de boas famílias votantes sabe que os abstencionistas são a escória da humanidade e provavelmente têm sífilis.

 

Os restantes 30% - arredondemos que fica sempre bem -, votou, cumprindo o seu dever cívico e provando que recebeu uma educação para a cidadania digna de registo.   

 

Posto que os párias, os escroques, a escumalha, os badamecos dos abstencionistas já estão natural e devidamente caracterizados, convém baixar os olhos e o decote para os honrados 30%, analisando-os depois de lhes entregar imenso beijinhos de parabéns.

 

Parte significativa desta percentagem, teve a hombridade de olhar para as listas de candidatos e, por certo, verificou que o Partido Socialista a mimoseava com um senhor, que encabeçava o rol, com um nome de difícil memorização - pois que nem um dos seus apoiantes de rua e de t-shirt era capaz de o anunciar, gaguejando uma bandeirinha corada e embaraçada quando lho perguntaram -, e que, mesmo ali ao lado, surgia um querubim de Sócrates, Pedro Silva Pereira, escapulido de parte incerta e agora mui discreto, aliado a Manuel Pizarro, lá mais ao fundo. O Partido mandava, pois, umas bocas à Europa.    

 

Logo a seguir surge um candidato que pese embora a vozinha de desenho animado, conseguiu ser um dos maiores arruaceiros da campanha. Paulo Rangel, apesar de, como não se cansou de sublinhar, ter jantado com uma data de gente chique lá na Europa, não tem maneiras à mesa - redonda, ou do tipo púlpito.

 

Marisa Matias, apesar de ter sido eleita a mais jeitosa das taradas do Bloco de Esquerda, não se conseguiu ouvir no meio dos televisivos debates de estalada e pontapé. Lamentável não ter o Bloco incluído o Robles. Reforçava o cunho urbano do Partido.

 

Surge então Nuno Melo que também diz ter jantado com imensa gente importante - ministros estrangeiros, pois que até - que tem na cabeça uma Europa igual ao penteado. Aliás, o cabelo de Nuno Melo é a Europa idealizada pelo CDS. Não há que enganar. Acompanhava-o Pedro Mota Soares que coloca. Pontos. Finais. Em. Cada. Palavra. De. Uma. Frase.

 

Segue-se a força do PC. Toda a gente - incluindo os sifilíticos da abstenção - reconhece que o candidato era bem giro. O resto passou em branco, ou vermelho, ou assim-assim.

 

Finalmente o PAN. A Gaffe achou-o amoroso, apesar de tudo e da camisa aos quadradinhos rosinha que não tem nada a ver com umas eleições que exigem blazer azul, calça beje e camisa branca.  

 

Dos piquenos a Gaffe só se lembra do carisma do PURP.

 

Após esta brevíssima e deficientííííííísssssima - como diria Maria Cavaco Silva -, abordagem aos partidos que elegeram coisas, ou seja, estes candidatos, é possível concluir que pelo menos 10% dos eleitores votou sem que ninguém lhe ter dito o que quer que seja relativamente ao que interessava. A Gaffe espera que descubram.

Pelo menos uma percentagem igual votou depois de ter anunciado, escrito, alardeado, sublinhado e repetido, pequenas pérolas que convém exemplificar, não se vá esquecer que ainda há gente que raramente sai das cavernas:

 

- O Bloco de Esquerda tem líderes jeitosas.

 

- O PAN é gente extremista, com capitães Tofu e doutores Javali dispostos a ocupar lugares de decisão.

Ou, para gáudio troglodita:

- Como é que se designam os apoiantes do PAN? Panascas? Panilhas? Paneleiros?

 

 Esta gente, meus amores, também votou.

 

O estoumecagandismo atingiu 7% representado, também pelo voto branco, mas sobretudo pelo voto nulo.

 

A Gaffe concluiu maldosamente que pelo menos 27% dos eleitores que exerceram o seu direito de voto, o fez apenas porque os Centros Comerciais estavam a abarrotar, o sol é ainda fracote, o Sporting é campeão e não vale a pena perder tempo, ou porque é fixe esbardalhar um boletim catita.

 

O que resta - os que se preocuparam em consultar as páginas dos candidatos e recolher a miséria que por lá constava, mas que pelo menos aludia ao cargo e às funções que vão exercer -, não chega para os foguetes.

 

A Gaffe votou, como é da praxe.

Seria interessante que se adivinhasse qual a percentagem que esta rapariga repleta de cidadania coloriu. Nunca se sabe do que uma rapariga esperta é capaz.

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Gavetas:


2 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 28.05.2019 às 18:48

Tinha saudades tuas. Dito isto,informo que também votei. Foi aliás o único motivo que me levou a sair de casa no domingo já que estava com febre e a garganta feita num oito.
Não concebo as pessoas que se demitem de exercer essa obrigação que tanto custou às gerações antecessoras.

Mas o contrário também se verifica.
Tenho brigas gigantescas com a minha mãe por causa disso.
A sua descrença é de tal ordem que há anos que não vota. Já desisti de a demover. É teimosa que nem uma mula.
: /
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De Gaffe a 28.05.2019 às 19:34

É extraordinariamente difícil demover um desiludido que acaba por perceber que tem razão em desacreditar.
Deram-lhe argumentos inabaláveis.

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