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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Ângelo Rodrigues

rabiscado pela Gaffe, em 03.09.19

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Just don’t tell me what to do.

 

A nudez foi durante séculos - sobretudo os amarfanhados pelo judaico-cristão - o último reduto da privacidade e talvez por isso, exactamente como o seu contrário, um latente factor de domínio sobre os outros.

A perturbação no equilíbrio entre o privado e o público, desencadeia anomalias que podem dar origem a eras, a épocas, a períodos e, numa escala mais caseirinha, a alterações comportamentais, a conceitos, a preconceitos e a distúrbios aparentemente incompreensíveis.

 

Dizem que um dos sustentáculos da Idade Média, um dos que escorou a sua origem, foi a usurpação do que era público pela esfera do privado. Os feudos são disso prova. O retalhar da terra e a inclusão das porções resultantes no círculo adstrito à propriedade privada, tornou possível o exacerbar do domínio sobre o Outro que foi engolido, como parte do usurpado, pelo poder de quem detinha a capacidade de chamar seu ao até ali de muitos.

 

A anulação do privado em favor do público, abala e destrói as monarquias e os impérios anteriores e sustenta ideologias que acabam por não produzir o equilíbrio frágil e absolutamente necessário entre meu e nosso.   

    

Esta mecânica, aqui referida de forma insipiente e torpe - incapacidade minha -, é observável nos jogos e nas guerras travados nas redes sociais, na publicidade, na comunicação social mais fútil – eventualmente quase toda -, e que reverberam nos modos de se olhar o Outro.

 

O corpo torna-se público. A nudez deixa de possuir o seu carácter reservado, de índole privada, pertença exclusiva do indivíduo, e é exigida com voracidade pela multidão que a torna sua e que nela se reflecte escolhendo os indícios que ali cumprem o sabor do gosto que se impõe. Ignora-se, apaga-se ou subvaloriza-se o restante com a velocidade do relâmpado de um olhar. A visão da nudez do Outro é toldada e contaminada por conceitos estéticos mutáveis que exigem um imediatismo destruidor na resposta e no estímulo. Somos nus públicos, dependendo das multidões que se tornam ferozes quando o que lhes é fornecido não obedece ao almejado pela quimera da perfeição. A multidão que se une sem ter consciência racional do elemento que a aglutina é quase sempre um anseio de superação de cada indivíduo que a enforma.

 

O domínio descontrolado exercido pelo público é tão devastador como aquele que é exercido pelo privado quando desarvorado.

 

O corpo público obedece então a todas as exigências daqueles que o devoram, acabando única moeda de troca. Fornece a ilusão de todas as quimeras, de todas as perfeições, recebendo das multidões a ilusão de uma espécie de existir dentro de uma espécie de verdade que é consequência da tremenda ilusão de reconhecimento, de aceitação e do aplauso.

É nessa variante, nesse desvio da nudez que de súbito é exigida despudoradamente pública, que o corpo é imolado.

Tornamo-nos implacáveis. Clamamos contra a perpetuação desta anomalia, carpimos a nossa vítima, depois de lhe termos exigido a pele e os músculos, e dentro de uma preguiça soberba e quase patológica, doentia, maníaca, subversiva, disforme e coberta com os lençóis da nossa conspurcada e mentirosa inocência, continuamos a insinuar o que o Outro tem de fazer para que o possamos aplaudir.

 

Somos agora, paradoxalmente, uma multidão medonha e animalesca quando em privado, numa espantosa normalidade, lambemos a ilusão da perfeição do corpo e da nudez dos bonecos que injectamos com o reflexo da imagem que nunca será a nossa, como se tivéssemos um espelho capaz de nos mentir, omitindo a queda inexorável que é a vida.  

 

Somos todos - carrascos e vítimas -, de cartão e todos temos pés de argila. Debruçados na margem do rio, procuramos na água uma jangada que nos faça chegar ao outro lado, mesmo que no outro lado não se encontre nada.    

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24 rabiscos

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De Luísa de Sousa a 03.09.2019 às 12:32

Oh Gaffe ... que delícia ler este texto!!!
Tive de o ler duas vezes tal a riqueza de vocabulário!!

Senti-me "culpada", mesmo "carrasco" por exigir tanta perfeição dos outros!!!

Um texto para reflectir!!
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De Gaffe a 03.09.2019 às 12:51

:)
Obrigada.

Seria interessante repensar estas questões.
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De Cecília a 03.09.2019 às 12:44

ui ... então e o pacto de silêncio?
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De Gaffe a 03.09.2019 às 12:50

Não entendi!
Que pacto de silêncio?
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De Cecília a 03.09.2019 às 12:54

quando surgiu a notícia, falava-se mais do que não se sabia - porque haveria um pacto de silêncio entre família, amigos - do que aquilo que realmente se podia saber. pelo menos foi o que li, por alto.
o rapaz nunca me interessou - nem o mundo em que gira.
no final, dá sempre nisto: rebentam de tanto vazio insuflado.

lamento profundamente tudo isto, acredite. aquele lamento que nos provoca distanciamento, entende?
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De Gaffe a 03.09.2019 às 13:26

Sim, entendo.
Os pactos de silêncio nestes casos são bastante hipócritas.

O senhor - não o conhecia - encarnou aqui apenas o motor que me permitiu dizer o que penso há muito. Existem demasiados como ele. Lamentavelmente.

A fasciíte necrosante - segundo li, é o que atinge o caso em apreço - é devastadora. Absolutamente tenebrosa. O corpo é "comido" com uma velocidade inacreditável pela bactéria. Não imagina o terror.
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De Cecília a 03.09.2019 às 13:41

imagino o terror, sim. daí que, do ponto de vista filosófico, seja um exemplo belo de tão salomónico, tendo em conta o personagem e o mundo cenário em que pretende viver.
uma beleza que lamento com uma certa compaixão e dor.
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De Gaffe a 03.09.2019 às 14:43

Em princípio a beleza é exultante. É uma razão de júbilo.
Aquela que pode ser aliada à dor e à compaixão, penso não poder ser tida como se quer fazer crer.
Nenhum simulacro é belo.
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De Maria Araújo a 03.09.2019 às 22:18

Lamentável.
São jovens, procuram a perfeição.
Vive-se de mais dela.
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De Gaffe a 03.09.2019 às 23:35

Suspeito que a juventude não os iliba. A perfeição é tão imperfeita!
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De Maria Araújo a 04.09.2019 às 00:00

E eu não sei que é imperfeita?
Há uns anos, tentei encher o meu lábio superior, muito fino e porque talvez um dia lhe conte o motivo.
A primeira experiência foi tão desoladora que nunca mais quis.
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De Gaffe a 04.09.2019 às 14:37

Nem todas as experiências são nefastas.
A cirurgia plástica é importantíssima em casos que não são exclusivamente de ordem estética/caprichosa. São imensos e podem estar ligados a motivos e a factores, por exemplo, de índole mais íntima ou psicológica.
Não sou contra as intervenções a cirurgia estética. Depende imenso dos casos que surgem.
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De Maria Araújo a 04.09.2019 às 16:48

Óbvio que não, Gaffe.
Já fiz várias, desde criança na idade adulta, mas nenhuma por capricho.
Tudo porque precisava e queria melhorar.
Beijinho
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De Gaffe a 04.09.2019 às 19:40

Claro. Perfeitamente compreensível. Ainda bem que tudo correu bem.
***
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De Maria a 03.09.2019 às 22:40

Como sempre um excelente texto.

O ser escravo da beleza , leva a atitudes extremas. É quase uma obsessão para muitos, que não olham a meios para se transformarem nuns seres completamente artificiais.

"Tornamo-nos implacáveis. Clamamos contra a perpetuação desta anomalia, carpimos a nossa vítima, depois de lhe termos exigido a pele e os músculos, e dentro de uma preguiça soberba e quase patológica, doentia, maníaca, subversiva, disforme e coberta com os lençóis da nossa conspurcada e mentirosa inocência, continuamos a insinuar o que o Outro tem de fazer para que o possamos aplaudir."

Fabuloso este excerto .
Deviamo todos refletir e repensar as nossas altitudes, muitas vezes nem temos a noção , recorrendo novamente ao texto, "Somos todos - carrascos e vítimas "
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De Gaffe a 03.09.2019 às 23:34

E não paramos. A obsessão começa em nós e exige ser aplacada pelos outros.
É um círculo de vício e mesmo de humilhação.
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De Rui Pereira a 03.09.2019 às 23:04

Nem todos os fins justificam os meios...
Haja, acima de tudo, saúde!
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De Gaffe a 03.09.2019 às 23:31

Neste caso deixou de haver. Os meios destruíram os fins.
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De JLynce a 04.09.2019 às 00:28

Nunca experimentei testosterona, mas já usei anabolizantes...
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De Gaffe a 04.09.2019 às 14:33

Podemos saber porque desistiu de os usar?
Torna-se bastante importante o seu testemunho.
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De JLynce a 04.09.2019 às 17:29

Na altura tinha trazido do Brasil e ao fim de algumas tomas, comecei com falta de libido. Deixei de tomar e meses depois a libido voltou.
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De Gaffe a 04.09.2019 às 19:38

Sim. É um efeito secundário bastante desagradável para muita gente ... suponho...
;)

A pilita e seus apensos também ficam atrofiados, a médio prazo.

(Tento afastar de mim a imagem de um halterofilista anabolizado e todo nu...)
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De JLynce a 04.09.2019 às 19:58

Sim, a falta de libido é uma sensação bastante desagradável... e traumatizante até. Parei a tempo. Actualmente faço exercício de manutenção e perdi a obsessão pelo culto do corpo.
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De Gaffe a 04.09.2019 às 20:05

Saudável. Em todos os aspectos.
Parabéns.

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