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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do Outro

rabiscado pela Gaffe, em 08.01.15

G. Haderer.jpgNão há muitas formas de olhar os outros e de lhes sentir o olhar.

Viver é encontrar constantemente a diferença e esta é reportada e lida de acordo com os alicerces que nos suportam. Os sufixos que usamos indicam que somos avessos ao que vemos (-fobia), seguidores do que encontramos (-filia) ou iguais na indiferença ou no respeito. Creio que um linguista explicaria bem melhor do que eu estas variantes, porque sou inepta nessa área.

O encontro como o Outro é sempre um encontro connosco. Lemos o que vemos com as palavras que são nossas. Raramente usamos a linguagem que nos afronta o hábito e a leitura que fazemos é normalmente contaminada pela nossa história, pelas nossas vivências, pelos nossos medos, pelos nossos anseios, esperanças, sonhos, conceitos, tragédias e por toda a paisagem humana que nos aculturou irremediavelmente. Olhamos o Outro e é uma multidão que conhecemos que o perscruta. Nunca estamos sós, lavados e nus, perante aquilo que vemos e que nos é estranho ou inabitual.

Lembro-me do episódio do soldado americano que na frente de um prisioneiro afegão que se debatia de mãos atadas, lhe perguntou a rir se o homem queria rezar ou mijar.  

O analfabetismo cultural, a cegueira cultural, se for possível chamar assim a este exemplo de ignorância do Outro, talvez seja menos chocante aqui do que aquele que nos escandalizaria se alguém decidisse publicar uma caricatura de mulheres violentadas ou desenhasse humor usando crianças vítimas de pedófilos. Estamos enraizadamente proibidos de aceitar estes danos que consideramos de lesa-humanidade. São malditos.

Os exemplos dados são perigosos, porque aprendemos que há um abismo sem fim entre a pergunta do soldado e a abominação dos crimes referidos. No entanto, o pretenso humor do americano talvez seja lido pelo prisioneiro afegão como uma agressão grave, no mínimo cultural.

A velhíssima máxima que afirma que a nossa Liberdade finda quando começa a do outro, não conta com os inúmeros territórios que disputamos demasiadas vezes de forma selvagem e que há liberdades, como a de expressão, que são usadas para impor um olhar que nos pertence ao que nos é alheio ou que são desvirtuadas, usadas e abusadas para rentabilizar e promover os nossos óculos. A violência mais abjecta encontra nestes desvios um campo de pasto desumano.

 

Acredito piamente na Liberdade, mas não gosto dos que a cegam transformando o seu nome em estilete. Gosto muito, isso sim, de quem me disse uma vez que a Liberdade se pode definir como uma falsa questão de geografia. Há lugares onde se respira por sítios diferentes, mas o certo é que está sempre um frio de rachar.  

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5 rabiscos

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De Quarentona a 08.01.2015 às 14:32

Vais me perdoar, minha querida, mas desta vez não posso concordar contigo... penso que é notório que o alvo da sátira feita nos referidos cartoons não é a religião e cultura muçulmana em si próprias, mas o fanatismo e as barbáries que são perpétuadas em seu nome! O exemplo que dás de cartoons de mulheres e crianças violentadas é algo que seria completamente impossível de surgir do "outro lado", porque esses atos são, como bem sabes, o "pão nosso de cada dia" por aqueles lados, ou seja, uma normalidade... e normalidades muito raramente são caricaturadas.
Tenho todo o respeito por todas as religiões e culturas, desde que as mesmas respeitem o próximo e não lhes causem algum dano, caso contrário serão sempre dignas de serem apontadas e denunciadas, nem que seja através de um simples cartoon!
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De Gaffe a 08.01.2015 às 14:51

Longe de mim discordar contigo.

Apenas refiro que sempre me pareceu que o alvo da sátira dos cartoons de Charlie Hebdo não era o fanatismo, e a barbárie em nome da religião e cultura muçulmana. Sempre me pareceu que o alvo era a promoção do próprio periódico. O fanatismo e as barbáries foram caricaturados de forma muitíssimo mais acutilante através de outros meios.

Depois penso que existe realmente uma espécie de analfabetismo cultural tipicamente ocidental que tende a esmagar o que é diferente, impondo conceitos que não são compreendidos pelos visados. Pode não ser este o caso, mas também nunca digo que é.

O post pode perfeitamente ser lido sem sequer estar ligado ao que aconteceu em Paris.

Os crimes dados como exemplos não os imputo exactamente a uma entidade específica. Falo apenas nos "outros" como elemento alheio, estranho, estrangeiro.
A "normalidade" poder ser claramente uma anormalidade a caricaturar!
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De Quarentona a 08.01.2015 às 15:28

A divergência de opiniões é salutar :)))
Pois com certeza que antes da polémica dos cartoons poucos seriam os que conheciam o Charlie Hebdo (contra mim falo) e com certeza que a mesma polémica foi altamente rentável ao periódico, mas é como tudo na vida, se até a própria morte sempre foi, é e será rentável para alguém...
Existe um analfabetismo cultural, sem dúvida que é coisa própria da natureza humana, a questão é que ele não se restringe ao ocidente, é comum a todas as culturas do mundo, sendo que mesmo assim, ainda considero a cultura ocidental muito mais aberta e tolerante às diferenças do que as restantes... por cá ainda é permitido o uso de Burka nas ruas... vai lá experimentar andar com os teus belos cabelos ruivos a esvoaçar pelas ruas muçulmanas (não digo em todos os países, mas na maioria)!

Os crimes que deste como exemplo são, infelizmente, também comuns a todas as culturas, também não os imputo apenas aos muçulmanos, a questão que eu quis realçar é que na cultura ocidental são altamente condenáveis... já noutras...

Seja como for, nada, mas mesmo nada, justifica e fundamenta a ceifa de vidas humanas!

Li hoje uma frase que dizia mais ou menos isto: "Se sentes a tua Fé abalada por um simples cartoon, é porque essa Fé não está consolidada em ti!"
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De Gaffe a 08.01.2015 às 15:35

Claro.Claro que sim.

Mas é importante que o post seja lido sem a luz negra dos acontecimentos de ontem em Paris a incidir sobre ele. Só faz sentido assim.

:)
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De Quarentona a 08.01.2015 às 15:39

Não querendo tornar-me chata, mas é difícil, minha querida, por causa do timing
Mas sim, eu entendi-te e em muitos pontos estamos totalmente de acordo

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