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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Genghis Khan

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.19

Huang Yang Chih.jpg

 

O almoço tagarela decorre num barulhento restaurante que serve comida caseira e que visito pela primeira vez a convite de duas amigas que se cansaram de manobras groumet.

 

As palavras à deriva não cativam e procuro distracções nas mesas ocupadas.

Na minha frente um homenzarrão de costas gesticula animado e galhofeiro. Um dos interlocutores está tapado pelo corpanzil da discussão que parece estar relacionada com as comendas de um comendador a quem permitiram ser um trapaceiro.  

Ao lado, ainda mais risonho, um homem de pouco menos de quarenta anos torna-se o foco de toda a minha atenção.

É magro, seco, relativamente baixo, sem indícios de ginásios tresloucados, de mão pequenas - um homem não pode ter mãos pequenas! -, com um cabelo desmanchado, castanho, com madeixas soltas claras, quase ondulado, de barba de três ou quatro dias desleixados, sem plano e sem controlo e um sorriso deslumbrante. Traz um pólo azul com um logo branco, de trabalho, desconcertado e bambo, aberto, permitindo breves aparições das clavículas bonitas. Um homem banal, muito bonito, mas aparentemente sem nota capaz de me atrair.

 

No entanto, vejo-me incapaz de não olhar para ele, de me sentir presa, de me sentir cativada, de me sentir seduzida e de considerar que aquele trintão desleixado à minha frente é um dos mais sensuais rapagões da história das minhas histórias.

Espreito-lhe os gestos, masculinos e sinceros. Observo-lhe a atenção divertida com que ouve os companheiros. Vejo-o responder, sorrindo sempre luminoso e franco, sempre atento e irrequieto e nem as mãos pequenas e brandas são capazes de me desviar o olhar.

 

Não entendo.

 

O homem não tem qualquer uma das características que me levam a cometer indiscrições ou que me atraem de forma tão física. Esta constatação obriga - ainda mais - a que o observe, o espie e o deseje. O homem apetece-me e eu não sei porquê.

 

Depois de acabar de beber o copo com vinho, levanta-se. Traz umas miseráveis calças de ganga largas e desbotadas, velhas e coçadas. Vira-se, de repente, e volta a sorrir à laia de despedida.

 

Descubro então.

 

Os olhos, que fazem lembrar mogóis, estepes, tundras e guerreiros - Genghis Khan a cavalgar pelas mesas de um restaurante caseirinho -, quase se fecham quando ele sorri.

Foi esse extraordinário pormenor que me atraiu, que o tornou atraente, que fez com que eu o desejasse, que subitamente o tornou único.

 

A beleza, a mais subtil, imperceptível e tímida beleza, é como um guerreiro escondido nas frestas ou ameias da nossa desatenção. Dispara, mesmo já vencido. Podemos conquistar todos os campos de batalha, que tombamos perdedores se esquecermos que há lâminas que demoram tempo e silêncio a chegar ao coração.  

 

Imagem de Huang Yang Chih

 photo man_zps989a72a6.png

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Gavetas:


19 rabiscos

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De Sarin a 17.05.2019 às 13:46

Invejo-te a atenção que permitiu a fresta à lâmina.
Invejo-ta, mas sem pretensão de a ter - desatento-me dos vizinhos de mesa olhando o longe. Talvez por isso, onde Genghis Khan a cavalo, veja centauros.

... e Mlle não tinha o lencinho na pochette?
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De Gaffe a 17.05.2019 às 14:07

Só estou atenta a mesas alheias quando o se diz na minha não me prende.

Centauros e minotauros nunca os vi, que sou míope.
;)

Não tinha o lencinho! Fosse como fosse, seria necessário um lençol ...
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De Sarin a 17.05.2019 às 14:18

Percebi que Genghis foi consequência da conversa subnutrida - mas quando assim, procuro alimento longe, além até do horizonte (o que se torna bastante desagradável para quem está pois que nem sou Nicole Kidman nem tenho carta de patrão local)


Do melhor algodão do Nilo, certamente...
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De Gaffe a 17.05.2019 às 14:32

Sou muito mais grosseira, como se prova.
:)

De algodão do Nilo, mas sem crocodilo que não seja um Lacoste.
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De Sarin a 17.05.2019 às 14:43

Pelo contrário, ficando perto respondes quando te chamam; já eu... chegaram a supor-me catatónica. O que seria melhor do que meter-lhes a desconsideração pelos olhos dentro...


Uma vez tive umas botas em pele desse lençol, adquiridas numa muito emergência de salto partido :)))
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De Gaffe a 17.05.2019 às 15:30

Uma menina muito pouco ecológico e "biodiversa", portanto.
Eu só mato visons.
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De Sarin a 17.05.2019 às 15:45

Pelo contrário, foi uma horrível emergência incompatível com o estar descalça em pleno Inverno!

Eu, peles, é mais carne.
(Por falar nisso, ontem tentei debater sobre uma casa de carne com uma pessoa que disse que esperava que um dia todos sentissem que os animais não são comida, e que quando se irritou porque "não estava a querer impor nada a ninguém" me pediu para sair - por uma porta que tinha um postal a dizer qualquer coisa como "sim à proibição de animais em restaurantes, a começar pelas arcas congeladoras". Apeteceu-me comer meia vaca grelhada e um cachaço de porco! Vês? Melhor divagar longe...)
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De Gaffe a 17.05.2019 às 16:00

Eu mato visons e só uso os casacos. Não os como.

Em contrapartida, como cozido à portuguesa e tripas à moda do Porto e não uso os enchidos, nem as que se enchem.
Não sei o que te diga, mas penso que equilibro os massacres.

Que chatas, essas criaturas.
Que rezem. Que rezem mais.

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De Sarin a 17.05.2019 às 16:17

Não é que eu goste da Junot, mas como bife menos vezes do que o médico queria, e nem sempre preguiça de grelhar um bife às 23h :)))

Da roda alimentar faço cubo, trocava tudo por queijo e frutos se me deixassem! E umas morcelas grelhadas.
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De Gaffe a 17.05.2019 às 16:37

Da roda alimentar, sorvo tudo.
Um descalabro.
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De Sarin a 17.05.2019 às 16:42

Não gosto de leite nem de couves. E não posso comer camarão - mas nunca vi nenhum a espreitar na roda, devem preferir balancé.
Como a roda em dentadas largas, assim não me falhem os "maxilásios" - mas aguento meia vida com o cubo. Sem desgraça :)
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De Gaffe a 17.05.2019 às 16:57

:)
É verdade, sim senhora.
Também não gosto de leite e odeio marisco.
A roda dos alimentos afinal saiu quadrada.
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De imsilva a 17.05.2019 às 14:17

Tão bom e tão fácil, encontrar algo que nos prende e encanta quando menos se espera.
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De Gaffe a 17.05.2019 às 14:31

E muito intrigante.
:)
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De Luísa de Sousa a 17.05.2019 às 14:45

Oh ... que descrição maravilhosa, gaffe!!!
É verdade ... encontramos pessoas do nada .... que nos cativam com um pequeno pormenor!!
Gostei muito do post.
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De Gaffe a 17.05.2019 às 15:30

Merci!
O demo está nos detalhes.
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De Pequeno caso sério a 17.05.2019 às 22:04

Como te entendo minha amiga...
Sou absolutamente fascinada por olhos rasgados.Talvez tenha sido isso que captou a minha atenção quando conheci o meu marido.
É por isso também que sou uma fã confessa deste...menino:

https://images.app.goo.gl/NS2haZKPmvWYs8JB8

; )
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De Gaffe a 17.05.2019 às 23:34

:)
Um bocadinho "branquelas"...

Gosto de morenos.
;)
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De Maria Araújo a 19.05.2019 às 23:14

Pois é!
Há pequenos detalhes que surpreendem.
Adorei ler.

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