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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de granito

rabiscado pela Gaffe, em 12.12.18

Jardim.png

Hoje não chove.

Há frio como granito.

 

Levanto a gola do casaco – longe do mar, marinheiro, de um azul grosso de fazenda em terra – e sento-me na pedra do banco que foi do meu avô, naquelas tardes de gelo em que apenas ficava a ouvir os passos dos fantasmas que o Domingos dizia haver nas pedras.

 

- Ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras. Sentimos latejar quando as tocamos.

 

Esta condescendência da morte alonga o tempo da memória e entrega ao inamovível a nitidez da presença do passado.

Olho, ao abrigo de um casaco sem moldura ou tempo, os rostos que vivem nas pedras e acredito no Domingos que é velho, velhíssimo, criança de tão sábio, e me diz que o tiritar das árvores é o som das palavras das pedras que trepam às copas, porque ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras e são as pedras que tecem o meu casaco azul de terra audível.    

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


16 rabiscos

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De Anónimo a 12.12.2018 às 17:49

Comentário apagado.
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De Gaffe a 12.12.2018 às 18:32

Obrigada.
Talvez ir ao meu lado fosse mais interessante.
:)*
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 12.12.2018 às 19:09

Os mortos ficam-nos vivos.

"Em tudo o que já fomos estão os nossos mortos

E os vivos que ficaram entram nos seus corpos"
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De Gaffe a 12.12.2018 às 20:03

A formulação perfeita.
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De Gaffe a 12.12.2018 às 23:12

Sabe que é extraordinário! Tenho um Amigo obcecado por retratos antigos. Fotografias de gente do passado e tem uma teoria fascinante a propósito que não cabe aqui relatar. Colecciona fotografias que partem de 1910 e chegam até finais de 50. Uma colecção impressionante.

Mais uma vez, obrigada.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 12.12.2018 às 23:40

A mim sensibilizam-me as notas pessoais encontradas em livros antigos, ou as dedicatórias, datadas, das suas primeiras páginas. Quem se desfaz deles, desfaz-se também. E se foram outros, que deles se desfizeram, vejo uma tremenda falta de respeito. Antes queimados. Costumava comprar muitos livros em alfarrabistas.
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De Gaffe a 13.12.2018 às 10:28

Sim.
As motivações dele são ligeiramente diferentes, mas creio que o processo que acompanha esses vossos sentires, se aproxima.

"É a nossa própria finitude a olhar para nós".
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De Gaffe a 13.12.2018 às 13:37

ad aeternum.

:)
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De naomedeemouvidos a 13.12.2018 às 15:16

Encantador. É mais não ouso dizer, para não violentar as pedras...
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De Anónimo a 13.12.2018 às 13:46

Há uns anos atrás, um alfarrabista do Porto, descobri um livro autografado pelo meu avô e com uma dedicatória a quem o ofereceu. Comprei-o e ofereci-o ao meu pai.
Inês
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De Gaffe a 13.12.2018 às 16:13

Tão bonito!
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De naomedeemouvidos a 13.12.2018 às 21:22

Dizem que não...tenho, para mim, que as coincidências são como as bruxas...
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De Sarin a 14.12.2018 às 11:43

De menina acredito que a memóra fica na pedra, quente e fria conforme lhe doa o sol.
O seu Domingos confirma-o, mais sábio e de mais pedras acasacado, certamente.

Enfim, "Gravado na pedra" é isso.
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De Maria Araújo a 15.12.2018 às 19:33

Sem palavras.

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