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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de JMT

rabiscado pela Gaffe, em 18.07.19

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Há homens que tagarelam. Ouvem-se a palrar e ficam fascinados com os sons que produzem.

Por norma, deixamos fluir o discurso, mostramos um olhar atento, um silêncio respeitoso e uma quietude social de bom-tom, mas distraímo-nos com o tom das peúgas que o palrador está a usar, com a cor da sua camisa, com o formato dos sapatos ou com a madeixa ao vento que teima em voar. Passamos o tempo a divagar sem que nada perturbe o bom correr da pena das palavras do homenzinho.

Não tem importância.

A distância que sentimos entre o que se diz, o que nos soa, e a nossa indiferença, é caminho duro de rasgar, mas o tempo que é gasto a ouvir o palrador está claramente ao nosso dispor e dele e do seu bom uso se faz treino.

 

Aconteceu com João Miguel Tavares (JMT).

Referi, no tempo em que o ouvia, alguns tropeções deste rapaz que podem ser reerguidos aqui, aqui e aqui. Haja paciência.

Depois decidi olhar para outro lado.

Não tinha importância. JMT falava e escrevia sobre o que não conhecia.

 

Aconteceu então o 10 de Junho e JMT ouviu-se a discursar.

Aconteceu então Maria de Fátima Bonifácio e JMT fez-se ouvir a discordar levemente de uma amiga, mas que há culturas superiores a outras, lá isso há.   

 

Outros - e disso é o exemplo colhido no imediato e imediatamente ao dispor -, incomparavelmente melhores do que eu, já rebateram e rebentaram os ditos e escritos destruindo os conceitos de superioridade cultural e civilizacional implícitos ou explícitos no artigo do jornalista. Não é pertinente a pobre opinião de uma ruiva revoltada que em nada acrescenta ao já argumentado.

 

No entanto, JMT adquiriu uma visibilidade inusual. O Governo Sombra forneceu-lhe grande parte do palanque e do púlpito mediático e foi entregando à sua opinião um peso e uma difusão que até agora não tinha.

Pesando este facto, aconteceu o discurso do 10 de Junho. Aconteceu JMT a renovar a elegia e a ode à família numerosa, harmoniosa e como manda a regra, a delimitar o terreno do nós e do eles, sublinhado que eles não pertencem ao círculo onde os portugueses e as portuguesas - pindérica tolice esta de se enunciar desta forma um povo todo! - sofrem as agruras dos abusos e das injustiças, das diabruras e dos crimes, e de mais que não se diz por ser tão mau, do poder, da governação, dos governantes, do grupelho do eles.  

 

Acontece agora JMT a palrar sobre a superioridade de determinadas culturas em relação a outras, atribuindo, entre outras alarvidades, e à laia de gracinha, a prova de inferioridade cultural destas últimas - das outras -, ao facto não ter sido por acaso um zulu a escrever Romeu e Julieta.

Se continuarmos aqui, só pelos escritos, assumimos que JMT escureceu – por ser inferior, suponho – a produção literária de inúmeros recantos do planeta onde se é culturalmente tosco e onde o Iphone provavelmente ainda não adquiriu a importância que o jornalista lhe entrega.

Despreza um acervo cultural de extraordinária importância vindo de locais que JMT considera pouco dados aos encantos do que é liberalmente endeusado pelo superior opinion maker.

Na enxurrada da inferioridade anda aos tombos - entre tantos, tantos outros! -  a poesia Nabati, Seydina Laye, Al-Mu'tamid, Ibn Kuzmān, ibn Ibrǎhim ibn˙Abd al-Ghani, ou Omar Khaiyat e Rubaiyat, a sua monumental obra. Na avalanche da sua superioridade são soterrados a poesia negrista de N. Guillén, enterrados Frantz Fanon, Aimé Césaire ou René Depestre e a negritude é apenas um percalço. Um pedacinho mais de nevoeiro britânico e as Mil e Uma Noites são as de Portalegre e o Kamasutra foi escrito em Lisboa.

 

Preocupante é reconhecer que JMT sendo um homem inteligente, com uma sólida cultura livresca, informado, influente, bem-falante, agradável, de convívio são, com acesso a poderosos meios de comunicação, capaz de articular belos raciocínios lógicos, argumentando de modo convincente se nos aproximarmos com leviandade dos ditos, é capaz de elevar o populismo a um patamar de excelência, contornando e aniquilando os grotescos venturas deste piso.

 

Quando homens assim se conseguem unir com subtileza a bonifácias, tornamo-nos - distraídos com bastante facilidade -, a muito curto prazo, bonifrates movidos por chavões.   

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11 rabiscos

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De Cecília a 18.07.2019 às 14:44

não tenho paciência para lavrar tal caminho... e como tenho um olhar clínico, e cirúrgico, para "farpelas", fico mesmo sem saber como (di)gerir o tempo... mais do que duro, e penoso, de rasgar, é-me letal se tomado com afinco.


numa sociedade com mulheres-007, os JMT sabem como chegar a heróis sem grande esforço. já nem me espanto por não me espantar.
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De Gaffe a 18.07.2019 às 15:14

É uma questão de saber controlar a indiferença.
:)

JMT está a uma passo de se tornar o Herói populista por direito próprio. Espanta-me que se perceba tão pouco!
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De Cecília a 18.07.2019 às 15:17

quando toca a indiferença sou absolutamente cristã! (70x7 - sem pensar duas vezes. vai logo tudo) ;)


a grande maioria nunca chega a perceber o que seja. dos que percebem, a maioria faz usufruto... e a minoria fica a pensar e a espantar-se.
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De Gaffe a 18.07.2019 às 15:22

Somos, portanto, duas optimistas de luto?
:)))
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De Cecília a 18.07.2019 às 15:24

duas otimistas "de camarote" :)
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De Gaffe a 18.07.2019 às 15:41

:))))
A visão que tive agora foi a dos maravilhosos e meus adorados Statler e Waldorf.
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De naomedeemouvidos a 18.07.2019 às 20:08

Não posso deixar de concordar contigo. Gosto de ouvir, mais até do que ver, o Governo Sombra. Ainda. Embora já me comece a cansar das “piadas” algo rasteiras, nomeadamente, de JMT. E leio-o, normalmente, no Público. Concordo ou discordo como sempre acontece com gente a quem reconhecemos inteligência, mas, ultimamente, não sei se porque estou mais atenta, mais velha, mais cínica, ou tudo isso ao mesmo tempo, começo a deixar de o ver da mesma maneira.

Acabei por não ler ainda os dois últimos textos que escreveu no Público. Só vi os títulos. Tenho que lá voltar :))
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De Gaffe a 18.07.2019 às 21:19

Nunca simpatizei com JMT. O problema é meu, certamente.

Gostava do "Governo Sombra", mas senti que se transformava lentamente numa patusca conversa de café, entre amigos.

Depois fui percebendo que tudo me soava um bocadinho a "Fátima, futebol e fado", com Pedro Mexia absolutamente compreensivo, apaziguador e pacífico, Ricardo A. Pereira doido pelo Benfica e JMT a cheirar ligeiramente a mofo nostálgico.

Gosto imenso de Pedro Mexia. É um intelectual por excelência. Gosto de RAP. É inteligente e um um perfeito comunicador.

Não gosto de os ver juntos. Parecem-me uma "private jock".
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De naomedeemouvidos a 18.07.2019 às 21:25

Acho que já foram bastante bons juntos. Penso que o programa perdeu bastante quando passou para a televisão. De resto, partilho bastante do que escreveste.
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De Gaffe a 19.07.2019 às 00:00

Sim. Acredito.
Mas só o conheço da televisão.
:(

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