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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de olhos nos olhos

rabiscado pela Gaffe, em 11.04.14

Tenho um amigo que é um senhor grande, daqueles que fazem com que as raparigas espertas pinchem todas a cantar, porque lhes preenche o imaginário e algumas das melhores fantasias que conseguem ter. Trata à estalada o atum e o cachalote, ajuda a construir barcos, gosta do mar alto e de tempestades que a outros davam uma diarreia descomunal, passa por África como quem vai ali e vem já, de calções cheios de bolsos e todo safari.  
Pois o meu amigo comoveu-se quando uma mulher africana lhe pediu leite para alimentar o filho. Deu conta do escândalo que consiste a mesquinhez e futilidade que grassam por este vale de lágrimas, esmagando e banalizando verdadeiras tragédias.

 
Não posso estar mais de acordo.

 

No entanto, estas coisas despertam uma quantidade de violinos que é forçoso escacar.

Quando aparece alguém com uma genuína indignação à flor da pele, como foi o caso, aparece logo uma harpa a tocar ao fundo e um violino a chorar colado.

Ao lado do meu amigo, e da sua revolta e alguma precipitação posterior no julgamento dos que só pensa nas saias cor-de-rosa do modelo em voga, surgem logo uns senhores todos iluminados, grávidos de indignação e com ganas de escaqueirar tudo o que estiver no catálogo da casa onde a mulher compra a roupinha.

Querem revelar ao mundo a miséria que o mundo provoca. Querem mostrar ao povo os dramas que andam à solta mesmo ao lado da Dior. São todos cheios de boas intenções e tremem perante a dor alheia. Não se importavam até de se verem transformados em fotojornalistas de modo a revelar ao mundo o que o mundo não quer ver. Pelo caminho tentavam ganhar o Wordpress Photo, que faz sempre um brilharete, fotografando a preto e branco miúdos subnutridos com olhos esbugalhados e mães esfomeadas e deslocados esqueléticos, mas sempre fotogénicos, porque  a dor é fotogénica e muitas vezes se transforma é o lugar-comum dos artistas, diz o outro cheio de razão.

  
Tenho a honra (e o orgulho) de ter outro amigo dono de um património fantástico. O homem é dos que também despertam muita atenção nas raparigas espertas, porque decidiu trabalhar forte e feio na lavoura (ou na agricultura, já nem sei como se diz) e anda por ali fora a cavar coisas. Ao mesmo tempo dedica-se a minúcias de bibliotecário, a pormenores de pequenas coisas simples, frágeis e etéreas, e é muito bom nisso. Desde sempre se preocupou com as misérias a que aqueles a quem dá emprego estão sujeitos e foi, sem mais nem menos e sem dar cavaco a ninguém, alterando as situações degradantes que ia encontrando. As modificações foram penosas e demoradas, mas parece-me que naquele lugar tudo o que era casebre se transformou em casa.

Ora este homem referiu um dia algures uma coisinha que tem muito a ver com o assunto que me traz aqui. Dizia ele que passou a existir a impossibilidade da genuína comoção.

A dor foi generalizada e banalizada, produzindo reacções idênticas nos espectadores que acabam todas por se aproximar do cliché. A massificação das imagens do horror (o engolir do trágico)  pelos media que as vomitam depois com banda sonora apensa, pensam por nós, dizem-nos da reacção que esperam que tenhamos e produzem os fotojornalistas do aparato da dor. 


Aqui, como creio em tudo, não há nada melhor do que olhos nos olhos, exactamente como estes dois homens que conheço e que não fotografam o conseguem fazer.

 

Posto isto, vou ali fotografar um sem-abrigo e volto já.  

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5 rabiscos

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De ARMANDO CORREIA a 11.04.2014 às 12:11

Vivo numa cidade e trabalho numa área onde este tipo de coisas de que falas acontecem a toda a hora, conheço médicos que gostam de ser tratados por senhores professores, mas que não operam no hospital porque são Diretores de Serviço, a quem toda a gente faz vénias porque todas as semanas lançam nas revistas da especialidade os seus bem elaborados textos teóricos sobre a ciência que praticam, são os mesmos que levam coiro e cabelo no privado por uma consultinha ou visita.
Depois conheço os outros, aqueles que fizeram mais cirurgias do que quaisquer outros por exemplo no ipo, aqueles que pagaram aparelhos do próprio bolso para darem mais qualidade aos doentes, aqueles que são DONOS de clinicas privadas, mas que há minha frente dizem ao doente no fim da consulta que não é nada, e que abrem a carteira para pagar o táxi ao doente acabado de operar que diz ir de comboio para casa.
Aqueles que ao fim do dia pegam no seu carrinho estacionado ao lado das limusines, fazem vénia aos auxiliares e enfermeiros, pousam a mão no ombro e perguntam se é preciso alguma coisa.... acho que a semelhança com o teu texto será parecida???
Que achas???
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De Gaffe a 11.04.2014 às 15:12

Os cenários são parecidos, sim.
Creio que os dois conceitos diferem alguma coisinha, mas nada digno de reparo.
;)
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De ARMANDO CORREIA a 11.04.2014 às 17:02

Desculpa, os posts são lidos no trabalho rapidamente, prometo que vou ler logo para interpretar melhor.
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De Fátima Bento a 11.04.2014 às 12:34

Eu hoje is destacar o teu blogue, que para mim está entre os melhores do sapo (senão, o melhor, pelo prazer que me dá lê-lo).
O Lovenox fê-lo por mim, por isso, e até agora não destaquei ninguém.
B'jinhos e bom fim de semana!
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De Gaffe a 11.04.2014 às 15:10

Obrigada!
(Gosto tanto, tanto, tanto de exageros assim tão bons!)
;)

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