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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Pessoa

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.18

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Admito que uma das razões que me afasta irremediavelmente de um blog - já não menciono uma página do facebook, porque neste caso fico com rinite aguda e urticária - é a proficuidade com que sou bombardeada por saudações ao mês que se inicia, pela quantidade de santinhos que nos abençoam, pelas máximas atribuídas a gente morta - há imensas que são creditadas erradamente -, por passarinhos e gatinhos que pretendem motivar-nos e pelo sol poente encimado por uma qualquer patacoada relacionada com o mindfulness.

Desisto de imediato e viro a página.

 

Há no entanto uma pequena beliscadura que me deixa a sangrar de irritação nestas paisagens.

 

Como quem arranca um dente sem anestesia, há gente que estrafega uma frase alheia, isolando-a, torcendo-a e distorcendo-a de modo a que sirva os seus intentos. Normalmente bondosos. Se por estas bandas largas nos é fácil amortecer a dor, ou mesmo evitá-la, usando um clique milagroso, na vida, na real, não nos é permitido tal façanha. Somos de boas famílias e nadas em berço de oiro, portanto noblesse oblige.

 

É particularmente penoso ter de arriscar a minha saúde em nome da polidez e da civilidade com que é ouvido um amontoado de lugares comuns, de tolices hipócritas, de lantejoulas literárias coladas com saliva a pretensas boas intenções.

Nunca tive coragem para pulverizar conversetas deste teor e passo horrores a tentar entrar em piloto automático.

 

Esta deficiência arrasta consigo outras anomalias. A inveja, por exemplo.

 

Tenho imensa inveja da capacidade detida pela minha irmã de fazer explodir no meio de uma colecção de violinos, uma daquelas bombas que só deixam vivas as ervinhas - e os sapatos dos interlocutores para memória futura.

Morro de inveja quando no encadear de um discurso pio, doce, amoroso, terno, de bandeira branca desfraldada e empunhada pela senhora pia, doce, amorosa e terna, se ouve, fechando-o com chave doirada, a desgraçada e arrancada a ferros:

 

- O melhor do mundo são as crianças.

 

Com uma seriedade assustadora, com um sinistro brilhozinho nos olhos, com uma quietude muito pouco cristã e com lâminas nos dentes, a minha irmã fustiga:

 

- E o melhor das crianças são aqueles pespontos perfeitos nas carteiras Hermès.

 

Pode não ser bonito ouvir, mas aniquila instantaneamente o cor-de-rosa bebé.  

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10 rabiscos

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De Carlos Berkeley Cotter a 09.03.2018 às 12:18

Conhecia, também, a expressão: "as put.. das criancinhas" (desculpe-me a linguagem).
A saída da sua irmã é de mestre.
Bom fim de semana.
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De Gaffe a 09.03.2018 às 13:11

Sim!
Mas eu só uso um "pecado" de cada vez.
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De Maria Araújo a 09.03.2018 às 16:50

Uma irmã poderosa, aniquiladora.
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De Gaffe a 09.03.2018 às 18:15

Sobretudo sem paciência para tolices beatas.
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De Pequeno caso sério a 09.03.2018 às 16:58

Começo a imaginar um clube de fãs para a tua irmã. I'm in.
; )

Quanto às frases/imagens inspiradoras que dão as boas vindas aos meses, só consigo tolerar as do calendário dos bombeiros de Setúbal.

Estou mortinha para que chegue Agosto.
; )
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De Gaffe a 09.03.2018 às 18:14

Não creio que lhe desse importância. Sabes que é uma arquitecta incrível e talentosíssima? tem imenso admiradores e é muito respeitada, sobretudo fora do país onde a sua actividade é exercida. Nem sequer faz questão de os conhecer.
O que sei é que nunca teve paciência para patetas. Atinge-os sem dó nem piedade.
:)
Os bombeiros? Ah! Anunciam os meses naquelas fotografias MARAVILHOSAS?! Não tinha reparado que eram calendários.
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De Anónimo a 09.03.2018 às 17:23

Gargalhei, talvez não devesse, logo eu mas é brilhante!

Brilhante também é "morrer de amor é sempre um plágio", não comentei na altura mas esse post não me sai da cabeça.
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De Gaffe a 09.03.2018 às 18:07

Não faz mal nenhum gargalhar por causa disto.
Este é apenas um episódio de algum fraco gosto.
O importante será perceber que acaba por desconstruir a maior e mais nefasta das hipocrisias. Aquela que nos torna santos à custa da manutenção das vitimas por nos tão lamentadas.

Morrer de amor é sempre um plágio. Sempre. Não adianta tentar outros acordes.
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De Pedro Wasari a 12.03.2018 às 18:01

Cara Gaffe


https://lifestyle.sapo.pt/moda-e-beleza/noticias-moda-e-beleza/artigos/estas-marcas-foram-acusadas-de-estarem-envolvidas-em-casos-de-escravidao-infantil

Era só!

Saudações
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De Gaffe a 12.03.2018 às 18:33

Eu sei.
Faltam as Casas de alta costura.
Não acredite que estou desatenta. Pelo contrário. Conheço todas as esclavagistas. Não pense que estou distraída. Sou fútil e superficial, mas estou longe de ser imbecil.

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