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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Saussure

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.19

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Entre muitos - e entre os mais perceptíveis -, factores que acabam por nos aproximar do estrume sobre o qual germina a coesão de determinado aglomerado de gente e que consolida uma identidade nacional, encaixam os símbolos e signos identificativos da especificidade de um povo.

O hino, a bandeira, um monumento, ou mesmo uma paisagem, são signos em que o significante e o significado obedecem na perfeição às referências e aos parâmetros enunciados por Saussure.

 

Indignamo-nos com alguém a balbuciar o hino do país que representa, trocando as palavras do refrão ou tropeçando na melodia, porque este desconhecimento fere a consciência de identidade de grupo e de identificação com determinado conjunto de valores, comportamentos, cultura e mais uma quantidade de outras histórias que não se dizem para não prolongar a paciência até à exaustão.

 

Queimar uma bandeira é, pelas mesmas razões, um insulto e uma desonra. A necessidade de reconhecer com clareza as ligações saussureanas existentes nestas situações é, mais do que habitual - e o habitual é imprescindível para que exista comunicação, mesmo a mais básica.

Hastear uma bandeira invertida para além de ser expressão de terra ocupada - conclusão já saussureana - é, simultaneamente, um lapso sausssureano.

 

Um país, um Estado, um povo, uma criatura, exprime-se também através destes signos e destes símbolos - diz-me um amigo que destas coisas sabe. 

 

Destruída a aliança entre significado e significante, através do não reconhecimento de uma destas faces da moeda - o que implica a quebra da identificação da outra -, o terreno que se abre é o da conjectura que permite todas as divagações, que incluem interpretações renovadas, mas que não deixam de estar coladas ao que atrás se diz em relação à dupla significante-significado, tocando mesmo as quase mitológicas - no sentido que Roland Barthes atribuiu ao mito.

 

Não interessa saber se é propositado ou se é lapso o hastear de uma bandeira invertida. O que se torna interessante é perceber que o símbolo - o signo -, alterado o significante, origina uma colecção razoável de congeminações que reproduzem significados diversos, nem todos apetecíveis.

Diz-me um amigo que sabe destas coisas.

 

É neste pressuposto - provavelmente errado -, que é fácil não me aperceber do lugar a que pertenço.

 

Há signos que foram lentamente desconstruídos e destruídos, provocando avalanches de novas e múltiplas interpretações que me constrangem.  

 

Paris alterou-se, quebrou a cumplicidade entre significante e significado que eu reconhecia.  

A Torre Eiffel - retiremos à sorte -, invadida por pastilha elástica e por Macron a tentar ser líder de coisa nenhuma, é o signo que já não corresponde à minha cidade.

Há cada vez mais lixo amontoado nos Champs-Élysées. Há migrantes desprezados e rotos e esfomeados, há refugiados em completo abandono, há cada vez mais sem-abrigo, há miséria, há degradação humana e indiferença total perante o facto, nas ruas e avenidas da cidade-luz que se apagou. O Louvre é cada vez mais visto como depósito de roubos, de pilhagem, de prepotência francesa sobre culturas esmagadas e o paternalismo que usa para justificar e perpetuar a retenção de obras-de-arte que não lhe pertencem, deixa de fazer sentido - sabemos, por exemplo, do culto, o respeito e o cuidado quase obsessivos que os gregos dedicam desde há muito ao seu património cultural, embora se reconheça que o iraquiano se perdeu em grande escala, por não haver tutor. As escadas de Montmartre deixaram de ter poetas e boémios e pintores, não há mansardas há muito, há corrimãos de seringas e os bouquinistes atiram livros ao Sena embrulhados em plástico, juntamente com o crack perseguido pela polícia que não está ocupada a varrer das ruas os coletes amarelos.

É correcto afirmar ter lido e sentido erradamente o signo Paris. A aliança que fiz entre significado e significante não resulta agora, partida em duas metades visíveis e tornadas antagónicas, incongruentes, quase ilegíveis.    

 

Mea culpa, pois que sou tontinha.     

 

O Douro é, por sua vez, outro signo que perco com os tiros das luzes dos paquetes turísticos.  

O rio em agonia. Desvirtuado o seu correr pelas pacóvias instâncias de turistas deslumbrados com as selfies que o arrancam do sessego. As margens violadas pelas pisadas das gordas matronas que urinam agachadas longe dos barcos de recreio. Os ossos de frango assado, os restos de churrasco, de gordura despejada nos papéis atirados para as árvores que pingam plástico. Os socalcos que não aguentam o peso dos velhos obesos, de chapéus de palha e pena alemã ao lado, ébrios pelas provas que provam a indignidade dos assaltos que executam com a ganância de palatos não cuidados, emproados e arrogantes, fellianianos, cobardes, com um medo ainda discreto do povo, arrastando, atrapalhados e toscos, as mochilas da degradação.

A minha casa, retirada há muito dos roteiros dos flash, tornada inacessível por uma arquitectura que obriga a paisagem a fechar o cerco sobre os muros, sofre a ameaça de se tornar alvo desabrido de americanos bêbados, de ingleses que acreditam que a podem calcar, de chineses e de japoneses que lhe roubam raízes para fazer chá.  

 

Mea culpa, pois que sou parvinha.     

 

Os meus signos quebrados, largam-me nua, sem saber onde fica a minha casa, próxima da criação de um outro mito.

Tenho de reler Saussure enquanto choro.

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10 rabiscos

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De Maria Araújo a 05.04.2019 às 14:08

A última vez que fui a Paris senti que havia mudado, já não gostei como da primeira vez há 26 anos, embora continue a ser Paris.
O Douro, das aldeias que visitei há cerca de 20 anos, era mais sossegado, mais acolhedor, belo.
Fiz o cruzeiro há três anos, apenas porque nunca o tinha feito de barco, fizera de comboio e carro, gostei pelas paisagens vistas do rio e gostei muito.
Queremos turistas, pagamos a factura, lamentavelmente.
Espero que a sua casa jamais seja invadida por esses senhores que referiu.
Bom fim-de-semana.


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De Gaffe a 05.04.2019 às 15:44

Sim.
Creio que procuro sempre uma explicação racional - neste caso no âmbito da teoria literária - para o que me desilude. A culpa é minha. Suponho que acreditei demasiado em unicórnios.

A minha casa foi salvaguardada. Primeiro pela minha avó, depois pela minha irmã. É praticamente impossível cá chegar sem guia. Não corro riscos, mas o Douro está cada vez mais deformado.
Paris foi sempre o que é agora, mas havia a possibilidade de o esconder. Agora a decadência está a céu aberto.
Lamento muitíssimo.
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De Pequeno caso sério a 05.04.2019 às 19:53

Sabes que gosto muitíssimo de te ter por aqui mas a vida ensinou - me que quando se gosta verdadeiramente de alguém, deixá - lo voar, viver, seguir outro rumo, é talvez a maior prova de amor que se pode dar (mesmo que inadvertidamente) .

Há pessoas que criam raízes, como eu.
Outras há que ganham asas.
Seria um pecado não tirar proveito dessa...vantagem.
Faço -te uma sugestão :
ao invés de te considerares uma "sem abrigo ", voa entre cá e lá e aproveita apenas o melhor dos dois mundos.
:)*

P.S- as tuas avenidas não têm Pátria. Estão onde tu estiveres. (quem te acompanha, também )
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De Gaffe a 05.04.2019 às 20:11

Pronto!
Comovi-me.

O teu comentário é de uma ternura imensa. Há um respeito, uma doçura, uma verdade e sobretudo uma dedicação que justificam plenamente a minha total admiração por ti.
Obrigada.
*
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De Pequeno caso sério a 05.04.2019 às 21:18

Não tens de agradecer.
O que partilhei contigo é mesmo o que penso e o que , inadvertidamente, vivi.

Ainda não percebi como fazes mas a verdade é que me levas muitas vezes a recordar coisas muito boas. Memórias muito quentinhas e por isso tão dolorosas.


Debaixo desta capa de doida varrida há alguém muito... (nem acredito que vou escrever isto) sensível.
O humor é inato em mim mas , com os anos, percebi que era também a melhor maneira de desarmar as pessoas e mantê - las o mais longe possível deste lado "xoricas".Tracei para mim uma espécie de lema de vida:
O que não conhecerem, não podem estragar.

Não me tenho dado mal.
:)*

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De Gaffe a 05.04.2019 às 21:39

Eu vou tentando sobreviver sem ser invadida e defraudada, com algum sacrifício, MAS sempre de forma orgulhosa, muitas vezes arrogante, outras vezes pedante, e a gostar muitíssimo de mim.
:)
Faço tantas vezes como o cavalo do desfile:
Andando, cagando e sendo aplaudido.
(Pardon my french)
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De naomedeemouvidos a 10.04.2019 às 14:53

Consigo ler aqui tanta coisa... e sentir outro tanto.

Tenho um post iniciado há 6 dias, depois de ver a reportagem da SIC, "A Cidade e o Medo". Não consigo acabá-lo. Conheço aquelas ruas, conheço algumas daquelas histórias. Com gentes diferentes e, no entanto, tão iguais.

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De Gaffe a 10.04.2019 às 15:48

Não vi.
Não tenho tido tempo para anda.

E a propósito (ou talvez não):
https://agaffeeasavenidas.blogs.sapo.pt/612174.html
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De naomedeemouvidos a 10.04.2019 às 17:49

(Que susto...se vivêssemos em séculos diferentes, começava a considerar válida a teoria da reencarnação... :)))
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De Gaffe a 10.04.2019 às 21:53

:)))
Eu acho que já fui um pirata.

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