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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de tempo roubado

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.19

Gabriel Cualladò. 1957.jpg

 

Ficamos depois esquecidos, como um casaco pousado num banco de uma gare qualquer que não traz destinos, por onde não passam passageiros, por onde o repentino restolhar do tempo deixa de fazer sentido, por já não nos pertencer, por já não ser o nosso.

 

Ficamos de tempo roubado, sentados à espera de Godot, de bagagem parada inútil como a eternidade.  

 

Roubam-nos o tempo.

Somos inconscientes operários casuais sem que ninguém assuma o pagamento de salário, sem que ninguém se importe com as nossas faltas, com as nossas férias, com as nossas quedas.

Somos episódicos funcionários de multinacionais e manuseamos sozinhos o leitor de códigos de barras; e apresentemos o cartão à frincha do banco; e montamos a mobília que vem em peças soltas que tivemos de transportar sem rede; e escolhemos no écran o hamburger certo; e trocamos anúncios, e publicitamos o que não sabemos trocando e partilhando slogans; e pagamos o serviço prestado com dados faceboquianos; e registamos os nossos consumos no Portal das Finanças; e enchemos depósitos, sozinhos; e contamos a água e contamos a luz e contamos o gás e informamos depois os donos de tudo; e não temos horários e não temos salário, e não temos férias.

Só picamos os pontos que nos governam o tempo que nos roubam.

Somos grátis.

 

Ficamos depois esquecidos numa gare qualquer, como um casaco velho que já ninguém quer.

Um dia, mortos, havemos de enterrar a eternidade.  

Fotografia - Gabriel Cualladò, 1957

 photo man_zps989a72a6.png


29 rabiscos

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De Maria Araújo a 06.06.2019 às 12:35

Tão verdade!
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De Maria Araújo a 06.06.2019 às 12:39

Fazemos os nossos pagamentos, as transferências, os impostos, tudo online e ainda temos de pagar a gestão mensal dos serviços da nossa própria conta.
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De Gaffe a 06.06.2019 às 13:39

Fazemos quase tudo. E gratuitamente. É mais prático.

Ocorreu-me tudo isto quando estava toda contentinha a passar o leitor de código de barras pelas comprinhas que fiz. Olhei para uma das caixas e pasmei. Ninguém ali. O rapaz depressa ficará sem emprego. Senti-me envergonhada e roubada.

Mas fui eu tratei disso. Não custou nada, nem a mim nem à empresa. Ser uma funcionária esporádica e sem recompensa sempre foi o meu objectivo na vida. Do tempo que me roubaram, nem sequer se dá ou se apresenta conta.

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De Maria Araújo a 06.06.2019 às 13:46

Muitas vezes pensei nisso, sobretudo nos postos de combustíveis.
São tão poucos os que têm quem nos prestes esse serviço e dêem emprego a quem muito precisa.
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De Gaffe a 06.06.2019 às 14:06

Roubam-nos o tempo. Roubam-nos a possibilidade de o gastarmos como queremos. Prometem poupança em troca dos nossos serviços e nós aceitamos ser roubados.

Nunca, nunca mais passo a maquineta pelo códigos de barras do meu tempo para o entregar ao saco destes tipos.
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De Maria Araújo a 06.06.2019 às 14:28

Faço isso no Ikea, mas nunca o fiz, nem tenciono, naquele lugar onde compramos os nossos produtos de consumo diário, e onde se perde a paciência , logo a cabeça, nas máquinas self-service.
Nunca a usei, mas estive lá com um familiar e, chata que sou, comentei que nas caixas com operadoras era mais rápido.
Mas fez-me pensar no assunto, quando voltar ao Ikea, que vai ser muito em breve.

P.S.:
Fui a esta loja duas vezes com a coragem suficiente para trazer três estantes.
Quando fui à prateleira para pegar nelas, não me atrevi.
Pesadíssimas.
No fim de semana passado, voltei à loja com duas sobrinha e um sobrinho, carregaram eles as ditas de lá para o carro e do carro para minha casa.
Eu só pus as mãos para as montar.
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De Gaffe a 06.06.2019 às 14:37

Então tenho razão.
;)
Tudo grátis. Foram óptimos funcionários. Não custou nada à empresa.
E não se diga que é mais barato assim. Não é verdade. A qualidade do produto é uma Trump. Vale ainda menos do que aquilo que parece. Tem a vantagem de ser bonito. Esperemos que essa qualidade não tenha sido obtida por um cliente/funcionário que se lembrou de desenhar o móvel no PC ao dispor na "grande superfície".
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De Maria Araújo a 06.06.2019 às 14:56

O meu irmão é anti Ikea, diz que tudo é uma m...
As peças de mobiliário que comprei resumem-se às estantes para uma sala que raramente uso.
Gosto da ideia Ikea pela frescura, mas a maior parte dos móveis cá de casa que estavam desactualizados, e porque eu não gostava da cor, pintei-os, têm serventia.

Beijinhos
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De Gaffe a 06.06.2019 às 15:19

:)
Exactamente.
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De Rui Pereira a 06.06.2019 às 12:41

Triste vida a nossa… A vida que nos impõem. A vida que nós escolhemos viver…
Magnífico texto!
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De Gaffe a 06.06.2019 às 13:28

Às vezes, suspeito que é uma vida que se esquece e viver. Obedecemos sem parar. Deixamos que nos transformem em funcionários sem salário, a manusear sem hesitações os leitores de barras de códigos e a sair dos hipermercados dos outros, repletos de certezas e de "competências". Nós somos capazes de trabalhar para eles. E sorrimos. É tão fácil e é tão prático.

(Odeio as IKEA desta vida).
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De Rui Pereira a 06.06.2019 às 20:52

Legitimamente desencantada...
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De Gaffe a 06.06.2019 às 23:17

Legitimamente enfurecida também.
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De Luísa de Sousa a 06.06.2019 às 13:46

Não "somos nós", esquecemo-nos de o ser, tal roborizados estamos!!!
Um post para refletir!
Gostei!
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De Gaffe a 06.06.2019 às 14:03

O problema é que somos nós. Somos mesmo nós que alargamos o poder de roubo dos donos de tudo.
Está tão atrasada a forma como me apercebi disso. Facilmente me transformo em todo o lado em funcionária - "de borla" - das empresas que me deviam prestar os serviços que pago!
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De MJP a 06.06.2019 às 15:22

Excelente texto!!!
Muitos Parabéns, Gaffe!
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De Gaffe a 06.06.2019 às 15:25

Merci.
:)*
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De Nala a 06.06.2019 às 16:54

Tão verdade...
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De Gaffe a 06.06.2019 às 19:43

Agora é só contrariar a corrente.
:)*
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De Pequeno caso sério a 06.06.2019 às 17:51

Durante muito tempo recusei usar as maquinetas fosse onde fosse . Nas portagens só escolhia a "casinha" com "pessoa" . Sempre em nome dos postos de trabalho.
Mas o tempo foi passando e rendi - me às maquinetas.
Acabei de chegar do supermercado com um carro cheio de compras sem nunca ter falado com ninguém. Estamos cada vez mais longe do outro.
Andamos sem nos olharmos.


Tão tecnologicamente evoluídos.
Tão tristemente sós.

: /
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De Gaffe a 06.06.2019 às 19:42

É essa solidão entristecida que nos torna tão vulneráveis. Deixamos que nos roubem a pensar que poupamos, tempo e vida.
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De imsilva a 06.06.2019 às 18:12

Que maneira de chamar- nos a atenção, é mesmo assim, e sem dar- mos por isso estamos a deixar que nos roubem o tempo ( adorei a expressão). O texto está muito bom, é quase poesia.
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De Gaffe a 06.06.2019 às 19:40

Mas é poesia é a verdade vista de frente com os olhos abertos para dentro.
:)
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De Maria a 06.06.2019 às 21:52

Como sempre um excelente texto. É mesmo isso que somos funcionários não remunerados.
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De Gaffe a 06.06.2019 às 23:16

E ufanos. Somos tão competentes!
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De Sarin a 06.06.2019 às 22:53

Quase lhe perdoo a ausência, Mademoiselle Gaffe...

Também eu já recuso dar o meu dinheiro e o meu tempo a quem não tem gente que me sorria - as máquinas têm todas os dentes podres, o seu hálito fede.
Como talvez feda o casaco velho e esquecido que seremos...
... mas até lá, fedam-se!

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De Gaffe a 06.06.2019 às 23:22

Feder é o verbo.
Às vezes apetece tanto sentir feder os fusíveis das manobras de todos estes manipuladores!
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De Sarin a 06.06.2019 às 23:35

Apetece, sim!
Mas notarmos a manipulação é retrocesso na viagem até à gare de casacos esquecidos, assim como se fôssemos destinatários de um código postal de uns CTT antigos. Os novos são tralha da mesma cepa, vinhos martelados que fede'm tudo o que tocam.
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De Gaffe a 07.06.2019 às 16:08

Quietos, venceremos!

;)

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