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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de terceiro grau

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.19

A. Delon.jpg

A prova irrefutável de que os homens vivem num planeta distante com difíceis pontos de proximidade com aquele que habitamos é o modo como atribuem aos objectos capacidade de se tornarem autónomos e de desempenharem tarefas corriqueiras, mas essenciais, sem intervenção humana.

 

É mais do que usual ouvir um rapagão dizer, depois de chegado a casa, sapato marujo ao vento, beijinho fofinho ao lado:

- Vou espreitar o futebol enquanto as batatas se fritam.

Ou então:

- Vou ler um pedacinho do Expresso enquanto a salada se lava.

Mais frequentemente:

- Vou descansar um bocado enquanto os bifes se grelham.

Ainda com maior frequência:

- Vou ali num instantinho ler os mails enquanto a mesa se põe.

 

A salada toma banho de forma muito independente; os bifes atiram-se sozinhos para o grelhador e procuram não esturricar, exactamente como os banhistas ao sol do meio-dia no Algarve; as batatas descascam-se e nuas, magras - uns palitos! –, decidem ficar loiras e a mesa veste-se sem dar satisfações a ninguém para receber estes convidados, qual Carmen Miranda caseirinha.  

Depois a loiça lava-se enquanto o moço saboreia um Chivas Regal Royal Salute esparramado na poltrona enquanto o café se tira.

Esta extraordinária esperança masculina de ver as coisas a acontecer sem intervenção humana é claramente extraterrestre.

Se os não podemos vencer mandando-os para o planeta que os pariu ou, em alternativa, para a pata que os pôs, podemos acompanhar a sua visão do universo, aproximando-nos do modo de comunicar desta espécie. É uma excelente forma de aculturar estas criaturas, adaptando-nos a elas, e ao mesmo tempo saborear as vantagens que nos traz e que reconhecemos num instante.

 

O ideal é trabalhar nos verbos.

Há que evitar o singular. Usemos o primeiro verbo na primeria pessoa do plural sempre que uma tarefa nos pareça problemática e, se possível, façamos com que a restante frase siga os parâmetros usados pelo alienígena.  

- Temos de dar banho ao Rottweiler.

- Hoje saímos sem cuecas, porque a máquina não se ligou.

- Vamos pagar uma multa, porque o carro ficou no lugar das grávidas.  

- Não podemos evitar a reunião do condomínio, porque a convocatória se abriu.

- Temos de ir comprar frango de churrasco, porque o jantar não se fez.

 - Vamos espancar o vizinho que ouve o Roberto Leal a gritar que vai, que vai, que vai lá para a terra da Maria.

- Houston we have a problem.  

 

Se acabarmos a cantar hit the road Jack com o volume nos píncaros para que dentro da nave os radares que o avisam do perigo se avariem com a vibração, estamos então muito próximas de o mandar para casa da mãe onde o fogão cozinha sempre muito melhor que o nosso.

 

Seja como for, alteramos-lhe o planeta.  

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9 rabiscos

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De Sarin a 30.07.2019 às 15:19

Diz-me a experiência que...
... a minha casa é o meu castelo. Ocupar-lhe as a-meias passa por terçar armas, ferro contra tábua ou nada feito.


Mas acho delicioso ouvir moçoilas emancipadas, empoderadas, senhoras dos seus destinos e donas das suas casas aceitarem a ajuda dos inquilinos com quem estão casadas. É um festim de contradições, e eles, claro, uns gulosos..
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De Gaffe a 30.07.2019 às 15:27

A última parte do comentário - festins e as guloseimas deles - permite interpretações que me agradam, pese embora pouco favoráveis a uma rapariga recatada ...
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De Sarin a 30.07.2019 às 15:31

Não, Mlle, por festins deles não me referia a lavarem a louça, varrerem a cozinha ou passarem o corredor a pano. Era mesmo ao facto de se acomodarem à situação.
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De Gaffe a 30.07.2019 às 16:09

Oh! que pena.
E Eu que já estava a divagar por lugares "unicornóidais".
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De Sarin a 30.07.2019 às 16:15

Divagar é muito bom!

Mas as coisas são como são, Mlle, os festins também dão dores de dentes e se se acomodam podem ter contraturas várias...
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De Gaffe a 30.07.2019 às 18:15

Podemos sempre alterar as coisas, quer divagando, quer batendo com qualquer coisa densa nos dentes dos comodistas.
;)
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De Sarin a 30.07.2019 às 18:31

Não me fale em dentes, que se me arrepiam os electrões e os pêlos Da nuca.
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De Gaffe a 30.07.2019 às 19:43

A sério?!
Sabes que nunca senti a mais leve dor de dentes?!

Tenho uma dentição absolutamente saudável. Dentes tão bem implantados e enraizados que são a frustração de qualquer dentista.
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De Sarin a 30.07.2019 às 20:05

Os meus são fraquinhos, mas apenas tive dores de dentes com 5- 6 anos - e há 2 anos, um que não estava cariado, que andou a ser desvitalizado durante meses e que ainda o sinto. Não, não é formigueiro de amputado, dor psicológica :s
Já vai em 3 o número de estomatologistas a analisar o bicharoco; enquanto não se esfrangalhar, cá anda com massa provisória :)

Mas não foi por isso o meu comentário :D

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