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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Tim Cook

rabiscado pela Gaffe, em 04.11.14

b232.jpgFicamos a saber que Tim Cook é um menino que gosta de conhecer – biblicamente falando – outros meninos.

A informação é irrelevante.

Este vociferar aos quatro ventos, este bradar ao mundo a orientação sexual, começa a maçar.

Segundo os próprios e seus seguidores, o revelar da diferença expressa no comunicado promove a libertação e apoia directa e indirectamente aqueles que ainda se confinam ao infeliz escurinho do armário.

É curioso perceber que esta coragem está blindada. Os portadores desta bandeira redentora estão todos protegidos pelo prestígio, fama, simbologia, reconhecimento público, dinheiro e guarda-costas que adquiriram através de realizações que pouco ou nada devem à sua sexualidade.

O exemplo que, entre muitos, Tim Cook, Anthony Watson, Robert Hanson, Robert Greenblatt, Nick Denton ou mesmo Christopher Bailey, dizem consubstanciar é difícil de seguir sem as couraças que os salvaguardam de possíveis represálias sociais infectadas pelos preconceitos. Não é de todo igual a revelação destes CEO à de um qualquer anónimo sem o poder, simbólico ou outro, que se atreve a gritar à multidão a sua orientação sexual. O pobre corre o risco de passar a ter de ir sozinho ao armazém dos fundos, de sentir a mesquinhez do risinho sorrateiro do coleguinha que é macho ou de aparecer esbardalhado no fundo de um poço qualquer.  

Dizer que a orientação sexual de cada um é do foro mais privado, é mais do que luminoso. Não creio que seja benéfico ou proveitoso alardeá-la com o falacioso objectivo de promover o respeito pela diferença, inscrita como um direito do homem. Em última instância e tendo de haver luta, uma atitude próxima da filosofia de resistência silenciosa de Gandhi, nestes casos, surtiria um efeito bem mais duradoiro. Eles são. Não resistam!, daria uma bela palavra de ordem.

A revelação de Tim Cook, para nos reportarmos a uma ocorrência mais recente, é socialmente ilibada e o facto aceite, porque - quer uma, quer outro - estão protegidos pela desgraçada expressão que mistura o beneplácito, amarfanhando-o com a surpresa e admiração que advém de se ter contrariado a expectativa de fracasso que está apensa a condição revelada.  

- Olha como conseguiu o que tem, mesmo sendo assim!

O prevaricador tem um bicho agarrado às costas, mas mesmo assim consegue uma vitória estrondosa.

Quem não a consegue, é apenas a bicha.

 

A revelação de Tim Cook é valiosa por aquilo que muitos condenaram. Declarar que, e cito:

(…) and I consider being gay among the greatest gifts God has given me vai directa à Santa Inquisição ainda em actividade nos confins do Vaticano.

 

O resto aborrece.

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