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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de um algoritmo

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.18

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Tento socorrer um amigo que aflito me fornece as credenciais de acesso ao seu blog que corre perigo de extinção.

 

A exportação impõe-se, mas os obstáculos colocados a este processo são inúmeros, iniciando-se com o ficheiro que é produzido pela plataforma de origem e que, aquando do download, apresenta erros vários e malware propositado que o impede de ser transferido. O processamento é interrompido e retrocede.

 

A plataforma em questão, após vários anos de total permeabilidade e permissividade a todas as formas de expressão, foi pressionada pelos patrocinadores que não querem ver os seus produtos entalados entre umas pilas e uns pipis em franca actividade lúdica. A pornografia pura e dura - sobretudo a segunda - tinha invadido o terraço, asfixiando os gatinhos fofos, as paisagens idílicas, as frases encaixilhadas e os outfits do ano.

 

É evidente que ao passear por aqueles lados se ficava ligeiramente enjoada. Os mais que explícitos Clips, samples, pics – tudo estrangeiro -, não poderiam nunca deixar de figurar na estante do porno mais puxado e ficariam lindamente a decorar qualquer sexshop mais ranhosa. Num vislumbre rápido, qualquer incauto visitante poderia supor que se tinha enfiado num site obscuro onde a mais inocente das imagens expostas, permitiria canonizar a Cicciolina - e os deuses sabem como me merece respeito esta menina.   

 

Parece aceitável que a plataforma, pressionada pelos patrocinadores, tenha decidido impor regras, abolindo publicações de cariz sexual, embora tenham permanecido intocáveis - em nome da liberdade de expressão -, os blogs de propaganda nazi, os racistas e os xenófobos que por lá pululam.

 

Seria usado um algoritmo que varreria todas as publicações, alertando os usurários para o imediato apagar de … mamilos. Depois se vassourariam as restantes ocorrências anatómicas mais desnudas.

 

O meu querido amigo tinha há cerca de quatro anos um blog onde recolhia ilustrações, pintura, desenho, BD, colagens e todas as outras formas de manifestação artística ao seu dispor, executadas em duas dimensões - excluindo-se, portanto, as provenientes da escultura. O leitmotiv era o Homem. Nu ou vestido.

 

O algoritmo varreu, de uma assentada, as representações de guerreiros e de atletas gregos antigos em frisos onde a pilinha de um espreitava por entre as dobras de um vago tecido; as iluminuras medievais onde se insinuavam as ceroulas do camponês com avantajado conteúdo; os mamilos de S. Sebastião ilustrado pelos maiores génios da pintura universal, ao mesmo tempo que apagava, por exemplo, o Homem Vitruviano, de Leonardo, todos os valentões da Capela Sistina e o Cristo de S. João da Cruz, de Dali. Foi destruída a esmagadora maioria de imagens - de séculos idos até ao presente - de um incontável número de artistas reconhecidos universalmente ou em ascensão que, de qualquer forma, representaram o homem nu ou quase nu.

Apanhou na sanha uma imagem do rosto de Jackie O, durante o funeral do marido, provavelmente porque identificou o chapéu da primeira-dama com um preservativo usado.  

  

Este ensandecimento, esta purga, teve, portanto, um algoritmo como responsável zeloso, obrigado a reconhecer como pornográficas as obras de uma quantidade enorme de artistas que ousaram representar ou insinuar a nudez ou a seminudez masculina através do tempo.  

 

O meu pobre amigo ficou tristíssimo. Depois esqueceu. As obras permanecerão na História da Arte, dispersas pelos museus e galerias. Não importa que não estejam visíveis ali.

Se fosse minha a curadoria, o único conteúdo adulto que me apagariam seria a conta da água e da luz. 

 

Suspeito que esta necessidade de eliminar aquilo a que chamaram conteúdos adultos, atingindo nessa classificação artistas e obras de valor universal, reconhecidamente pertença da Humanidade, nada tem a ver com uma pretensa necessidade de evitar a todo o custo feridas em susceptibilidades mais sujeitas e mais frágeis. Compreende-se, apesar de tudo, que a plataforma tenha de gerir os seus recursos e as suas finanças e que se veja obrigada a obedecer a quem a paga, eliminando a pornografia que gesticula e desata aos gritos lúbricos logo ali ao lado dos biscoitos publicitados, pois que há contas que aparecem e a submissão é coisa facilitadora. O algoritmo escolhido é apenas prova da incapacidade técnica dos programadores.  

 

O que me causa perplexidade é este aparente controlo ditatorial que se quer exercer sobre o que cada um de nós pode ver e não pode ver, pode ou não pode ter, pode ou não pode ser, retirando a quase toda a gente a capacidade de decisão e de escrutínio. Aconteceu com Mapplethorpe em Serralves - alegadamente, pois que tudo o imbróglio foi gerido de forma absolutamente patega, parola e a raiar a imbecilidade.

 

A possibilidade de reerguer a Inquisição - não forçadamente neste caso específico, visto que o ultrapassa -, parece partir do princípio que existe um número restrito de eleitos, dotados, encartados e autorizados a reger o que é lícito, ou ilícito, termos ao alcance do nosso próprio discernimento e da nossa livre escolha.

A facilidade com que nos reconfortamos e conformamos com estes decisores poderosíssimos, pois que tantas vezes tornam impotente a reacção adversa às suas prepotências ou injustificadas regras, promove e acicata o controlo de poucos sobre as maiorias, alargando-o a todos os aspectos da vida que achamos que é só nossa e que, à partida, só a nós nos diz respeito.

 

Desenganemo-nos, pois, que eles chegaram e duvidemos se alguma vez partiram.

 

Não me incomodou grandemente a retirada da pornografia da plataforma, mesmo apesar de consubstanciar uma regra introduzida a meio do campeonato. Existem sites destinados exclusivamente ao assunto e não parece legítimo reivindicar-se a obrigatoriedade de determinado sítio, patrocinado por empresas que vendem fraldas, carros e pastilhas, acolher pilas e pipis indiscriminadamente, tudo ao monte e fé sabem os deuses em quem, só porque sim e em nome da liberdade de expressão. No entanto, reconheço que é irritante a purga ter sido levada a cabo por um algoritmo que censurou em simultâneo um acervo considerável de obras de arte.

 

A leviandade e a irresponsabilidade com que foi escolhida e usada a ferramenta informática foi extraordinariamente superior ao uso que ali se fazia das ferramentas apagadas.  

 

Nada se conseguiu fazer.

Quem pode, manda e manda em tudo, que há de tudo como no velho boticário. Pelo que se vê, não manda quem pode com a grafia antiga usada em Farmácia.  

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Gavetas:


24 rabiscos

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De Pedro Vorph a 18.12.2018 às 16:03

Envergonhamo-nos mais com o gemido do prazer, do que com o da dor.

Vemos esguichos sanguíneos à hora de almoço, mas é a ejaculação que nos tira o apetite.

Porque será?
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De Gaffe a 18.12.2018 às 16:32

Por medo?
Pelo peso judaico-cristão que carregamos?

Não sei. É extraordinariamente interessante reflectir sobre o assunto!
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De Pedro Vorph a 18.12.2018 às 16:41

Não acredito na herança judaica. Há qualquer coisa de inato. Lembra-se que primeira coisa que Adão e Eva fizeram após o pecado original foi taparem-se? E tendo eles comido da Árvore do Conhecimento, talvez o pudor esteja relacionado com a descoberta da nossa própria identidade . Por outro lado antes do Deus judeu do Deserto havia deuses que eram adorados pela prática sexual -ex : Ishtar....

Bom, talvez seja mesmo a herança judaico- cristã....mas por outro lado temos na Bíblia o Cântico dos Cânticos....confundo-me
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De Gaffe a 18.12.2018 às 17:00

Deixe-me pensar um bocadinho.
O "Cântico dos Cânticos" foi tantas vezes decapitado!
mas talvez o pudor esteja relacionado com a descoberta da nossa própria identidade, com a nossa mais íntima revelação ao outro.
Creio que a nudez completa sempre foi uma nudez temida e talvez por isso adorada, metamorfoseada em deuses. É interessante perceber, no entanto, a ligação existente entre a repressão exercida pela Igreja sobre o sexo e a absoluta "libertinagem" e erotismo na arte. Quanto mais reprimido, mais explode na expressão artística do Homem.
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De Pedro Vorph a 18.12.2018 às 17:09

Permita-me a divagação, sarcástica, sobre a ralação da igreja e a libertinagem. Quantas das madonnas pintadas e adoradas, nas igrejas, tiveram como modelos artísticos, prostitutas? Lembro-me de Caravaggio, por exemplo. No êxtase religioso, representado por Bernini em Santa Teresa De Ávila, há algo de orgasmo.

"Um dia me apareceu um anjo com uma beleza nunca vista antes. “Eu vi em sua mão uma longa lança de ouro cuja ponta parecia ser uma ponta de fogo. Ela parecia penetrar várias vezes no meu coração e perfurar minhas entranhas. A dor era tão grande, que me fez gemer, muitas vezes, em alta voz, e ainda assim foi superando a doçura desta dor excessiva, eu não pude querer livrar-me dela. Nenhuma felicidade terrestre pode dar um prazer assim tão grande. Quando o anjo tirou a sua lança, senti um enorme amor por Deus.”

O que diria Freud sobre a lança?
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De Gaffe a 18.12.2018 às 18:02

Ah! Mas eu sempre considerei o "Êxtase de Santa Teresa de Ávila" o mais poderoso orgasmo da história da escultura universal.
Repare por exemplo na imagem (escondida na sacristia) do Mosteiro barroco de Tibães. O Cristo é de uma sensualidade avassaladora. Um homem belíssimo. Fisicamente perfeito. O erotismo em todo o seu esplendor.
Freud iria adorar.
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De Pedro Vorph a 18.12.2018 às 18:29

O Belo confunde-se com o Bem. Há sempre na beleza, bondade, e na fealdade, maldade (falo até ao sec XIX, início do XX)

Mas repare, talvez tenha sentido científico :


https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3023089/

Shared brain activity for aesthetic and moral judgments: implications for the Beauty-is-Good stereotype

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De Gaffe a 18.12.2018 às 19:48

Estamos a esquecer os Românticos?
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De Gaffe a 18.12.2018 às 19:58

Há alguns anos foi elaborado um estudo por Harvard que produziu resultados curiosos.
Em turmas grandes foi proposto penalizar um crime horrendo. Foram projectadas imagens do facínora. Num determinado número de turmas, o criminoso era um modelo. Num outro, um homem "banal". Adivinhe quem foi escandalosamente menos penalizado.

Vai ao encontro do que refere. Mas...
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De Pedro Vorph a 18.12.2018 às 20:10

O belo é sempre menos penalizado. Sim, os românticos foram os primeiros a ver beleza na maldade. Basta ver que o Diabo começou a ser representado,desde então , como um jovem belo.
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De Gaffe a 18.12.2018 às 21:33

Mas o diabo sempre foi um homem belo.
;)
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De Sarin a 18.12.2018 às 17:29

Não afectaram em nada a Liberdade de Expressão, nós é que confundimos os conceitos: a Liberdade está garantida pelo Dono. Da casa, no caso. Quem nos manda a nós termos expectativas sobre nós mesmos?


Francisco, o Papa, tem Monsenhor Trafny, a gerir a ligação da Igreja com as novas tecnologias. Tendo lido tal notícia sobre Monsenhor em Junho, e sem ter voltado a ouvido sobre o assunto, suponho que ande este em negociações com a Google e com o Facebook para que lhe não apaguem os anjinhos da Sistina virtual.
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De Gaffe a 18.12.2018 às 18:11

Outros valores maiores se "alevantam". Vender carros e pirolitos não se coaduna com anjinhos grandes e nus, mesmo os das capelas virtuais.
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De Sarin a 18.12.2018 às 18:23

Por não saberem manter os valores por "alevantar" é que se chegou ao despautério de algoritmar o que estava em modo pasodoble e tanga.... olhe, Menina Gaffe, nem sei que lhe diga, perante esta sem-vergonhice, antes Cicciolina à presidência, pelo menos o moralismo ficaria ali arrumadinho entre uma Gorila e um Taurus.


... e, muito seriamente, a obra evangélica aparenta crescer a olhos vistos, o problema surgirá a sério quando colidir com os interesses de terras de Canaã.
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De Gaffe a 18.12.2018 às 19:49

Creio que os grandes Poderes não colidem produzindo dano. Por osmose, intensificam-se.
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De Sarin a 18.12.2018 às 19:55

Alguma vez ouviu falar de Mapa Cor-de-Rosa escrito em iídiche?

Enfim, qualquer que seja a cor, calha-nos ficar na membrana, e é um local muito desagradável para estar.

Aproveitemos para decorar os bíceps de David, que eu não tenho disponibilidade para voar para Roma quando me sinto mais Renascentista...
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De Gaffe a 18.12.2018 às 21:32

Escolherei o fauno de Barberini. É mais relaxante.
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De Sarin a 18.12.2018 às 21:55

Como queira, Menina Gaffe, mas tome atenção pois os faunos são pouco dados a reconhecer fronteiras :)
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De Gaffe a 18.12.2018 às 23:01

Eu sei ... ...
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De Pequeno caso sério a 18.12.2018 às 18:29

Uma tristeza.
Muito do que se "castra " é feito usando "as crianças " como desculpa. Toda a gente sabe que "as crianças ", quando querem, acham. Seja de que maneira for. Seja onde for. Desde sempre foi assim e assim continuará a ser.
Fechem os blogs que quiserem;
Codifiquem os canais que entenderem;
Ponham as bolinhas vermelhas todas.
Façam tudo isso que será o mesmo que nada.


Caminhamos subtilmente para um sítio de onde nos custou tanto sair...
: /

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De Gaffe a 18.12.2018 às 19:50

Absolutamente verdade.
Mas será que alguma vez saímos?

(E parabéns!!!)
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De Pequeno caso sério a 18.12.2018 às 22:39

Queria acreditar que sim mas começo a sentir que não.
Custa - me ver que o meu pai (e outros tantos) lutaram em vão.
Queria deixar um legado de liberdade à minha filha mas temo que isso não se concretize.
:(


(Obrigada.)
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De Gaffe a 18.12.2018 às 23:02

Subsiste sempre a tua liberdade como herança.
Às vezes torna-se uma promessa e uma esperança.

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