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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de um blog

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.15

PC.JPGTalvez se nos deitarmos na terra e no chão cavarmos uma cova com os lábios como quem beija amantes ou estios.

Talvez se tombarmos lá dentro a nossa casa.
Talvez se lavarmos com terra, depois, as nossas mãos, até a saudade se abrir na lama.

Talvez se mergulharmos no tempo de dentro dos olhos, como um lanho na água, talvez então acorde o minúsculo coração que respira o vento Norte.

Só depois.  

 

Espalhar metáforas de gosto e qualidade duvidosos por estas avenidas fora, é de uma confrangedora inutilidade. Ninguém decifra o que dentro vive - se viver - e arriscamos a coleccionar subjectividades ilegíveis.

Um blog é uma das mais interessantes formas de se dizer a verdade. Raros são os que acreditam e a catarse assim despenalizada inscrita na escrita é compensação.

O lê-me o que escreves dir-te-ei como és não é de todo descabido na sucessão de posts e, mesmo não querendo, a criatura que os vai mostrando acaba não só por revelar alguns dos lugares que lhe povoam os dias, como também imprimir em quem a lê uma imagem que se aproxima com relativa segurança do dono das palavras se a clareza incluída na objectividade for ponto assente. 

A metáfora é portanto um entrave a essa compreensão. Na vida acontece o mesmo.

 

As ligações que se estabelecem entre quem escreve e quem lê incluem muitas vezes uma cumplicidade oriunda da empatia que se vai criando ao longo do tempo das duas acções. Escrever e ler é dessa forma uma troca profícua de cumplicidades, sobretudo tendo em conta que a leitura é já uma reescrita.

Esta afinidade torna-se no entanto demasiado exigente.

Se a amizade pode ter mais direitos do que o amor, visto não ter as mesmas compensações, a que se estabelece na forma citada impõe condições e regras de difícil manutenção. Não sendo detentores de toda a informação, somos levados a perceber o outro que lê ou que é lido como entidades impolutas e desprovidas de mácula. 

 

É a imprevisibilidade do erro, do pequeno lapso, do minúsculo deslize, da mais ínfima e desculpável aleivosia cometidos por um dos interlocutores que adquirem proporções de catástrofe. O absolutamente inócuo acto falhado torna-se bisturi e separa a unha da carne.

 

Após a tragédia é inútil abrir covas com os lábios. Não resulta, deve ser doloroso e esbardalha-nos o batom.

Acreditávamos ter encontrado a água mais fresca da terra e descobrimos que afinal não é aquela que nos mata a sede.

 

O vento Norte talvez nos traga um outro coração.

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6 rabiscos

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De Maria Araújo a 17.06.2015 às 10:21

"O vento Norte talvez nos traga um outro coração".
Mas os corações ficam tão ou mais frios quanto o vento Norte.
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De Gaffe a 17.06.2015 às 10:22

O que ajuda imenso.
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De Fernando Lopes a 17.06.2015 às 20:54

Idealizar o outro, mesmo num blogue, parece-me difícil, talvez até pueril. Numa «amizade» blogosférica, como na de carne e osso, os verdadeiros amigos são os que sobrevivem à decepção, aceitando as nossas falhas e alertando-nos para elas. Melhor que um vento do norte, talvez seja esperar pela brisa.
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De Gaffe a 17.06.2015 às 21:08

Deveria concordar.
O meu drama é, aqui como ali, ouvir apenas o vento mais forte mesmo quando queria muito esperar pela brisa.

Vou acabar uma velha seca, ácida, ressequida e solitária.

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De Fernando Lopes a 17.06.2015 às 21:16

Não vai nada. Uma das coisas boas da idade é que aprendemos a lidar com o que corre mal de modo mais racional. A amizade é nesse aspecto irmã gémea do amor, se sobrevive aos abalos, fortifica-se. Vá à janela e sinta a brisa. Está lá, serena e acolhedora, à sua espera. :)
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De Gaffe a 17.06.2015 às 21:20

O menino vai ter de me deixar respirar. Hoje é a 2ª vez que me deixa de lagrimazita no olho.
:(

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