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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do Condottiero

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.15

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Quando na Praça de S. João e S. Paulo, em Veneza, me deparei com a estátua equestre de Bartolomeu Colleoni de Verrochio, não obriguei a minha vida inteira a ajoelhar-se perante o poderio frio e seguro do condottiero de bronze.

Adivinhava-lhe a imponência clássica do homem que domina falcões luminosos, cães fenomenais e cavalos lendários, deixando a docilidade dos ambíguos arminhos, a alegria pilrritante dos coloridos pintassilgos ou a placidez dos impenetráveis coelhos, nas mãos da fragilidade das mulheres quinhentistas.

Sabia-lhe do quebrar do conceito de frontalidade que fascinava e viciava os clássicos e obedientes mestres da estatuária da época.

Por isso Bartolomeu Colleoni não se impôs, não me escravizou, não me obrigou a gravar no tempo que guardo para a memória, um lugar cativo com o seu nome em bronze trabalhado.

 

Eu esperava-o.

 

Só entendi completamente a derrota do Condottiero quando pasmei esmagada, na Igreja de Santa Maria del Popolo, com Caravaggio e a Conversão de São Paulo.

Quase ruinosamente erótico, liberto do traço e da iconografia clássica, o homem pintado tombado, aberto, de carne, arranca-nos a vida de repente e de repente lança com violência a nossa alma no espaço da divinal surpresa que é o Homem.

O humilhado desarçoado pelo cavalo é poderosamente mais tirano do que o gigantesco Senhor dono de Veneza.

 

Nenhum potentado é dominador inquestionável quando não tem a arma do inesperado absoluto disparada no centro da vida dos incautos. 

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7 rabiscos

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De Neurótika Webb a 24.07.2015 às 12:15

Só me aconteceu isso uma vez....com a Guernica do Picasso.
Tinha visto o quadro um milhão de vezes, em livros, e não sou fã do Picasso.
Vi-o numa exposição comemorativa do Picasso, em Madrid.
Era uma ala só para o quadro. Entravas, passavas pelo detector de metais, tinhas um corredor repleto dos estudos e esboços do quadro, e depois entravas numa sala toda preta...entravas, mas o quadro estava nas tuas costas.
Quando me virei, foi como se tivesse levado um murro no estômado. É enorme, imponente e carregado de simbolismo.
Continuo a não gostar de Picasso...mas não esqueço a Guernica...nunca!
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De Gaffe a 24.07.2015 às 12:19

Eu sei. Entendo perfeitamente o que dizes.
Ninguém consegue esquecer Guernica! NINGUÉM!

É a mais arrasadora obra-prima que vi em toda a minha vida.
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De Gaffe a 24.07.2015 às 20:51

Esqueci-me de te perguntar se conheces a obra de Picasso entre os 14/16 anos.

De certa forma, ajuda a compreender a obra da maturidade do génio.
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De Neurótika Webb a 24.07.2015 às 21:53

Claro, eu sou de artes. :)
8 anos de história da arte...o meu curso é pré Bologna.
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De Gaffe a 25.07.2015 às 16:03

Não sabia.
Então deves concordar comigo.
;)
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De J.S.M.suave e nas tintas a 26.07.2015 às 19:12

A gaffe é o terror dos espíritos dicotómicos Para alem do bem e do mal, o seu "malévolo " e "impertinente" espírito critico não reduz a perspectiva à estética e ao gosto, mas espalha a perplexidade de Filósofa acutilante e impiedosa nos espíritos incautos da mediania.

A sua prosa é irresistível e encantadora, como já tive oportunidade de enfatizar, mas receio muito que a ironia, que magistralmente explora, seja um estilo que encante mas não desperte.

O que descreve pode ser sensorialmente repetível perante outras pinturas, mas não é, seguramente, na representação do real.
Um homem pode montar um cavalo ao longo da sua vida sem formar uma opinião sobre ele; mas o cavalo não deixará de formar uma opinião razoável sobre o homem que o monta!

Quanto a Caravaggio e a conversão de São Paulo, pelo contrário: preconceito e ignorância matam, mas não podem: o poder não é terreno, nem é mensurável : não se acumula, nem se guarda como um tesouro! Escapa-nos sempre como a areia nas mãos: nunca conseguimos obter o equilíbrio necessário por muito tempo, sem que, por excesso de força, ou por relaxamento dos músculos , ela se liberte das mãos!
Um dos melhores da literatura universal é sem duvida Teixeira de Pascoaes ; e a sua obra mais icónica é talvez: SAULO
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De Gaffe a 26.07.2015 às 21:10

Ah! O poder!
A areia que se escapa como a ironia breve e leve de uma tonta que hesita e se torna minúscula perante os puro-sangue!

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