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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do príncipe encantado

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.19

Fernando Vicente.jpgDe acordo com a perplexidade masculina, as mulheres apaixonam-se por um homem exactamente como ele é, por ele ser como é, e num instante desatam a querer modificá-lo.

 

Esta característica para além de fazer parte do nosso encanto, pertence, aos olhos do macho, ao insondável mistério da alma feminina, embora seja constrangedoramente fácil de explicar.

 

A culpa não está nas estrelas, mas próxima delas.

 

Somos todas herdeiras das aristocratas dos contos de fadas. Desde o princípio que convivemos com Princesas encantadas e desde o início que as sublimamos. Temos os genes desta nobreza encantatória que nos são transmitidos pelas narrativas da infância e somos portadoras, mais ou menos conscientes, de um imaginário palaciano em que nos movemos ao som diáfano de histórias antigas de dragões e cavaleiros.

 

Esta miscelânea de coroas encantadas de que somos feitas torna-nos capazes de acordar como a sofisticada e fria - muito Grace Kelly -, Princesa Aurora para logo a seguir, tornarmo-nos a dona de casa suburbana vivida por Branca de Neve, passando nos intervalos pela sopeira consumista que sonha desalmadamente com sapatos, não descurando encarnar, caso for necessário, Maléfica ou mesmo a Bruxa Má, cujos únicos erros são desconhecer por completo Yves-Saint-Laurent e não tratar da pele.

 

Este largo número de Princesas que somos em simultâneo contrasta com a simplicidade dos Príncipes que connosco contracenam.

 

Ao contrário dos homens que, pese embora o dito e redito, são todos diferentes - não valia a pena traí-los se fossem todos iguais -, os Príncipes encantados são idênticos. Uma pobreza que nos leva a acreditar que o rapagão que lambuza o sono de Aurora é exactamente o mesmo que nos revela o maroto fetiche por sapatos.

 

Conhecemos de cor as suas funções e reconhecemos as suas capacidades militares, mas, convenhamos, Branca de Neve pede um Príncipe caseirinho e paciente, disposto a adoptar os sete pequeninos, enquanto Aurora exige a sofisticação palaciana de um Príncipe diplomata e bailarino e Cinderela merece um fashion victim ligeiramente masoquista.

 

A uniformidade principesca é uma maçada.

 

As várias Princesas encantadas que somos - ao mesmo tempo - não deixam nunca de sonhar ver surgir o seu amado irreal e, em consequência, adaptam o real cavaleiro que as encontrou, tentando moldar o barro que lhe chega às mãos sem nunca deixar de amar as formas incompletas com que iniciam a tarefa.

 

Rapazes, tentar modificar-vos é altamente lisonjeiro! Resulta da certeza de termos encontrado um Príncipe diferente e da vontade imensa de o vermos perfeito exactamente como sabemos que sóis ou podeis ser para cada uma das nossas Infantas encantadas.

 

Não dói se aprenderdes a sempre olhar para nós como Princesas.

 

Ilustração - Fernando Vicente

 photo man_zps989a72a6.png


12 rabiscos

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De Rui Pereira a 24.09.2019 às 10:15

Chame-lhe encanto, chame…
Princesas, claro.
A menina é descaradamente tendenciosa! :)
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De Gaffe a 24.09.2019 às 10:34

E esse pequeno defeito faz parte do meu encanto.
:)))

Não dê grande importância ao que digo. É apenas um agitar de asitas.
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De Rui Pereira a 24.09.2019 às 23:19

Outro - Tem sempre resposta para tudo! :)
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De Gaffe a 25.09.2019 às 00:10

E o menino t-shirt para todas as ocasiões.

Obrigada, meu querido, pela extraordinária surpresa que me fez.

(Vá! Todos a correr ao bikeAzores para ver qual é!!!)
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De Rui Pereira a 25.09.2019 às 00:34

Ora essa. Não tem nada que agradecer.
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De Sarin a 24.09.2019 às 11:09

Texto muito atraente, Mlle.
Mas não me revejo - a única mudança que quis efectuar num homem envolveu um bebé. Falo do meu primito e das suas fraldas.
Talvez por deixar que sejam o que são e que, crescendo juntos, cresçam por eles e não por mim, nunca tenham sentido que me interessava, sempre achando que amavam mais do que eu. Talvez. Mas que poderia eu fazer, Mlle, se eles amavam muito a princesa e eu sou uma mulher republicana?
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De Gaffe a 24.09.2019 às 11:29

Compreendo.
Mas eu, pese embora republicana, tenho um "je ne sais quoi" que me empurra para as tiaras.
:)
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De Sarin a 24.09.2019 às 11:39

Nem tiaras nem anéis, apenas pulseiras. Uma, usada como um hino de Beethoven e não como uma ópera de Wagner.
:))
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De Gaffe a 24.09.2019 às 12:10

Ah! As óperas de Wagner.
A menina não imagina então como sabe bem assistir à fúria de uma valquíria tresloucada.
:)))))
Uma catarse.
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De Luísa de Sousa a 24.09.2019 às 20:44

Adorei o texto Miss Gaffe, até porque eu sempre gostei dos contos de princesas!!!
Sou uma "princesa" com os pés no chão e nunca tentei modificar o meu príncipe.
Gosto dele com aquele ar amuado, teimosinho, chatinho e carrancudo,mas é o meu príncipe perfeito, está sempre ao meu lado e que me atura como ninguém!!!





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De Gaffe a 25.09.2019 às 00:07

Mas não esqueça:
Há sempre um sapo dentro de um príncipe. Temos de aprender a beijá-lo.
;)
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De Maria Araújo a 24.09.2019 às 20:48

Há quem tenho o dom de moldar, eu não tenho.

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