Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dominatrix

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.18

1.jpg

 

A Gaffe foi espreitar a novíssima coqueluche da SIC e ficou estarrecida com a celeuma que o programa causou, arrepiando a UNICEF, as CPCJ, as Comissões de Trabalhadores, a Ordem dos Psicólogos, e praticamente o facebook inteiro - com excepção de uma ou outra dominatrix.

Congratula-se no entanto ao saber que foi aplicada a tradicional parolice portuguesa, justificando a existência desta coisa com o facto de se verificar que é um formato adoptado por quinze países ... no estrangeiro.  

 

A Gaffe admite que as únicas crianças que suporta têm mais de dezoito anos e usam barba, não a incomodando que chorem, façam birra e chamem pela mamã nos momentos de maior aflição, pois que fornecem as coordenadas para devolução. Talvez por isso não possa cavalgar a onda de protesto que se ergueu na Nazaré digital. No entanto, faz notar que SuperNanny plagia com um desplante inaudito um adorável e utilíssimo programa onde César Millan transforma cães irritantes, desobedientes e pessimamente educados, em exemplos de civilidade e de civismo, usando pequenos truques, pequenas regras e pequenas trelas, treinando muito, recompensando imenso o comportamento assertivo dos bichinhos e fornecendo aos donos as aptidões necessárias a uma urbana supervisão do animalzinho e a um bom e são convívio com o próximo.

 

Ninguém atira Cesar Millan às feras, mesmo depois de um dos seus maravilhosos resultados ter atacado e assassinado um porco domesticado!

 

É de sublinhar também que a senhora que treina crianças no programa da SIC, refere que não ali está como psicóloga. Uma informação inútil, por tão evidente. É visível que a entertainer Teresa Paula Marques está ali no papel de dominatrix de um filme suspeito - e que sensual interpretação! nada sexualmente desviante, mas muito convincente -, ou, em alternativa, a provar que os exorcistas não estão de todo ultrapassados e que os serviços que prestam seriam de utilidade extrema, ou de extrema-unção, perante o aparecimento silencioso, a um canto de um quarto, de um espectro vestido de negro, com um ar de secretária perversa num filme manhoso, de braços cruzados e sobrancelha reprovadora erguida, acompanhado por um séquito de demónios de microfone em riste, holofote rígido e operador de câmera de horrores que regista os transes de uma cachopa possuída por Belzebu. 

 

Num tempo que já lá vai - ou não tão perdido assim - era uso e costume corrigir o comportamento anormal dos petizes com a ameaça da polícia que ali vem e prende, com um rapto perpetrado por ciganos, ou mesmo com a certeza da ausência do Pai Natal benévolo e bonacheirão - ligeiramente pedófilo -, que se transformava em monstro maldoso e maldito escondido debaixo da cama das nossas infâncias, pronto a saltar-nos em cima mal o sono dominasse - quando crescemos, esta hipótese é encarada de modo distinto, consoante a quadra que vivemos, o sono que temos, a forma física do monstro em causa e o espírito que nos invade em diferentes alturas.

 

É de lamentar o abandono destes estratagemas, usados no aconchego do lar, sem inglês ver, tendo em consideração os belos resultados que se obtinham e a consciência da proficuidade da repetição capaz de resultar em casos absolutamente diversos e em lares absolutamente díspares, e que Teresa Paula Marques substitui por uma cambada de técnicos de som, de luz, de câmera, de acção, e por umas mimosas estratégias colados no frigorífico por uma criança insuportável, pese embora a convicção - que se diria entranhada - da beleza e da tranquilidade dos resultados que são sempre conquistados seja em que cenário for, seja em que circunstâncias for, seja com quem for, seja em que fragilidade ou disfunção familiar tal aconteça.

 

Se caso, depois do treino, a criança voltar morder o porco, a culpa é do Millan. Se a criança não morder o porco, então o adestramento operado por Teresa Paula Marques foi um sucesso e é possível nesse caso, sem arreliar a UNICEF e apoquentar as CPCJ, escancarar as portas todas, todas as pernas, todos os braços, todas as janelas e todas as frinchas, destelhar a casa e destampar os tachos, mostrando ao mundo em blog os laços cor-de-rosa da perfeição rentável.

 

A Gaffe apercebe-se que o conceito de privacidade - e de intimidade - sofre mutações significativas. Se a velha Roma desaguou na Idade Média foi também porque o público se tornou privado, e o privado foi encarado em público. Sobrevoa-se, agora digitalmente, a privacidade das gentes, paira-se sobre a superfície da intimidade dos outros, com breves e leves e convencidas asas que se abrem e fecham num direito adquirido que ignora a fragilidade quase doente – doentia? -, de uma nova espécie de ilusório enclausurar, encerrar, proteger o que é privado, que paradoxalmente divulga - em post ou em formatos vários e se possível rentáveis -, um conceito alternativo de tragédia e de comédia, de sucesso e de insucesso, de fracasso ou de vitória, de decência ou desvergonha, que irmana e igualiza os responsáveis pelas criaturas dignas de figurar na capa do catálogo de Deus e pelas outras que carecem de exorcismos.

 

A privacidade torna-se apenas um botão num blog que o torna inacessível a estranhos, o clicar no facebook destinando-o em exclusivo a amigos, o Instagram que escolhe o ângulo onde a língua não tem aftas, o nude que é enviado apenas aos protagonistas do fim-de-semana passado. A intimidade transforma-se numa película transparente que se rompe apenas quando alguém morde o porco de Millan.

O direito ao olhar público e do público sobre este novo conceito de interior individual, íntimo e particular, torna-se direito adquirido, instintivo, motivador e empolgante, capaz de facilitar naqueles que o exercem o surgimento das latentes capacidades de julgar - condenar ou ilibar -, o que é voluntariamente revelado ou conspurcado e, em simultâneo, favorecer a divulgação de um resumo do que deveria ser calado na vida destes novos juízes, já que, como nos diz um amigo tonto, a nossa intimidade é a consolidação da dos outros.

 

A Gaffe lamenta o abandono do cigano raptor, do polícia psicopata, ou do educativo Pai Natal que castiga - eram imagens que nos assombravam até à morte, contrariamente as que são produzidas no programa, que não deixam rasto, nem trilho, nem marca, não é? -, sobretudo quando os vê substituídos por uma dominatrix de infâncias tresloucadas. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


33 rabiscos

Imagem de perfil

De Magda L Pais a 16.01.2018 às 14:56

Perfeito!
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.01.2018 às 15:03

:)
Tenho dias. Às vezes sou muito desobediente e a imperfeição não pode ser "postada".

Um beijo.
Imagem de perfil

De P. P. a 16.01.2018 às 17:08

Está fantástico.
Adorei a maioria das analogias.
Bjs
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.01.2018 às 18:16

Só a maioria?...
;)
*
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 16.01.2018 às 17:09

Uma verdade que não fazia mal algum, porém, o medo do castigo, o respeito por quem nos dava ordens foi a educação que tivemos ( eu tive-a) e de quando em vez, uma palmada ou ameaças de " livra-te de ser chamada à escola porque te portaste mal...".
E assim se fizeram alguns bons homens e mulheres.
Refiro que não vi o programa da SIC, isto é, quando me apercebi dele, estava mesmo no final.
Só vi uma criança que tentava confiar na mãe, deixando-se cair para trás e a mãe amparava-a.
Talvez com outro formato, gostaria de ver um programa que alertasse as consciências para os grandes males sociais que nos atingem a todos.
Uma boa tarde, Gaffe.
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.01.2018 às 18:15

Sim, mas não acredito que um reality show povoado por crianças - bem ou mal educadas - seja passível de ser considerado educacional.
Não sou psicóloga, mas Quintino Aires parece ter feito escola. Espanta-me como a Ordem dos Psicólogos não se apercebe que "aquilo" não é propriamente deontológico, ou que as CPCJ deixem passar impune estas porcarias. Ao mesmo tempo, apercebo-me que são os blogs fofinhos que fazem o mesmo numa versão rosa, os mais rentáveis.
Oh! Uma porcaria.
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 16.01.2018 às 18:58

Execelente minha amiga!

Ainda que a galáxias de distância também encontrei, tal como tu, pontos em comum com o Cesar Milan.
Porém, consigo vislumbrar uma "utilidade" neste programa que ainda não vi abordada em lado nenhum.
Se não tiveres nada que fazer, ide lá espreitar.
; )
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.01.2018 às 19:42

O Millan é tão útil! Gosto tanto dos cães educados por ele.

Já vi o programa do Millan e fiquei rendida.
Imagem de perfil

De Maria a 16.01.2018 às 19:30

Parabéns Gaffe, brilhante. Também tenho saudades do tempo em que o respeito (medo) fazia dalos crianças homens e mulheres cheios de valores. Que é feito dos pais educadores?
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.01.2018 às 19:40

Não podemos generalizar. Há pais magníficos, embora, para ser sincera, não dê grande atenção a nenhuma espécie em particular.
O "medo" pode não ser o responsável pela produção de valores - geralmente não é -, no entanto, sempre fui adepta de duas ou três galhetas dadas na altura certa. Sou um monstro.
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 16.01.2018 às 19:42

Ahahahaha! Monstro?!
Olhe, Gaffe, então, também sou.
E não tenho filhos.
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.01.2018 às 20:13

Claro que não! No máximo, somos "antiquadas".
:)
Sem imagem de perfil

De Angela Pinto a 19.01.2018 às 09:27

Deixem-me ser antiquada também, pois falta dar bom uso ao chinelo! :)
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.01.2018 às 09:35

Verdade.
O chinelo era, sempre foi, um belíssimo coadjuvante na educação dos putos mais renhidos.
Sem imagem de perfil

De Angela Pinto a 19.01.2018 às 09:47

Gosto tanto de ser antiquada :)
Era e é se as pessoas perceberem para onde estão a levar estas gerações mais novas.
Havia respeito pelo chinelo materno, bastava gesto de o tirar do pé e a canalha já ficava em sentido, e mesmo quando ele entrava efetivamente em cena, o efeito era duradouro.
O calor e a urticaria seguintes faziam pensar na vida...
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.01.2018 às 11:07

Desde que não hajam exageros ou resquícios sádicos, estou muito tentada a concordar.
:)
... tentada ...
Sem imagem de perfil

De Angela Pinto a 19.01.2018 às 11:34

Nada de exageros, consoante a situação, no momento, descalçar o chinelo e meia dúzia de chineladas daquelas bem assentes. :)
Milagroso:)

Pensava que já tinhas concordado ahahah
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.01.2018 às 13:25

:)
A miúda do programa (soa tão mal!) devia ser exorcizada. Já não basta um chinelo.
Sem imagem de perfil

De Angela Pinto a 19.01.2018 às 14:54

Não me refiro a essa senhora (muida :) )
Falo da educação dos gaiatos no geral.
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.01.2018 às 15:01

Eu sou uma besta. Falo de toda a gente.
:)))
Sem imagem de perfil

De Angela Pinto a 19.01.2018 às 15:36

Para essa senhora era de cinto no lombo; toda nua claro :)))
Imagem de perfil

De Maria a 16.01.2018 às 19:52

Não podemos generalizar, claro. Estou a referir me a muitos casos mas felizmente não todos.
Quanto á questão do medo, quando era adolescente fiz asneiras como muitos de nós, mas sempre que via "um crescido" parava. Claramente era por respeito (valores que me passaram) e "medo" que conhecesse a minha mãe... o receio da galheta estava presente :)
Monstro?... nada disso
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.01.2018 às 20:11

O receio da "galheta" opera milagres.
:)
Não me parece mau, mas que sei eu?
Imagem de perfil

De Maria a 16.01.2018 às 20:15

Sabes muito, ensinas muito e é um gosto ler te! Principalmente em versão dominatrix ;)
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.01.2018 às 20:31

:)))
A minha versão dominatrix é tão acanhada!
:D
Imagem de perfil

De Corvo a 16.01.2018 às 21:49

De facto é.
um pouco mais maléfica não lhe ficava nada mal.
:)
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.01.2018 às 22:59

Mas perdia elegância que tem sempre uma componente vagamente tímida a preservar.
:)
Sem imagem de perfil

De Bruno a 16.01.2018 às 21:51

A minha mãe e a minha tia viram o programa e a classificação que a minha tia deu ao dito foi: "estupidez".
Também li, algures na "blogosfera", como lhe chamam, que as maiores vozes insurgentes contra este programa, são as mesmas que expõem, nos mesmos blogs, os próprios filhos em todo o tipo de situações, das mais banais às mais caricatas.
Quanto a algumas coisas que li nos comentários acima, do respeito e da galheta, hoje em dia, uma galheta já é violência contra os miúdos e respeito é quase crime. Dualidade de valores, que me faz ter asco por muito boa gente...
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.01.2018 às 23:22

As mães têm sempre razão... ... enfim, algumas mães.

Apesar de tudo, penso que expor uma criança com fragilidades notórias e extensas e distúrbios comportamentais do teor dos que foram exibidos, é mais grave que esbardalhar fotos dos filhos, fofos e giros e cor-de-rosa, num blog, em troca de bugigangas. As duas situações consubstanciam abusos, explorações, atentados e violações. Deveriam configurar crime, deveriam ser penalizadas, mas a pena mais pesada seria a atribuída ao circo macabro que consistiu na completa, nua, crua e implacável invasão desta criança com inequívocos danos, evidentes perturbações e anomalias comportamentais que não acredito - embora não seja especialista - terem sido colmatados ou sanados.

Aquela família necessitava de apoio psiquiátrico, não de participar num reality show.

Infelizmente o próximo episódio terá o triplo das audiências deste.
Imagem de perfil

De Quarentona a 17.01.2018 às 11:43

Viste então que a única utilidade que aquele lixo televisivo disfarçado de serviço público tem é a de se poder usar a personagem Super Nanny como ameaça para quando a canalha abusa da paciência dos pais.
“Ou vais já para a cama, ou chamo a Super Nanny!” ;))))
Imagem de perfil

De Gaffe a 17.01.2018 às 12:18

Exactamente.
É mais uma personagem a juntar à colecção "Ameaças para a infância - antologia breve".
Sem imagem de perfil

De Carlos Berkeley Cotter a 19.01.2018 às 12:32

Perfeito.
Bom fim de semana.
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.01.2018 às 13:23

Obrigada.
Um belo fim-de-semana para si.
:)*

Comentar post



foto do autor