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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos Tónhos

rabiscado pela Gaffe, em 13.02.15

Tónho.jpgNas suas tontas andanças catalogadoras, a Gaffe descobre que existe uma característica que é apanágio de alguns homens agrupados em tribos diversas e em algumas mulheres que, normalmente sirigaitas, acumulam este dom e dele fazem uso demasiadas vezes.

Esta manigância permite etiquetá-los. São os Tónhos.
Para pertencer a esta categoria pouco é necessário. Basta que declarem a sua idolatria a determinada criatura, não admitindo qualquer reparo ou crítica menos agradável, opinião discordante ou desavença que atinja o alvo dos seus extremosos cuidados e inabalável dedicação. São extremistas. O profeta está para o Islão terrorista como a deificada criatura está para os Tónhos.
É vulgaríssimo e a Gaffe arrisca mesmo imediata revelação de pertença a este nicho, o reconhecimento de Cristiano Ronaldo como um imaculado milagre revelado aos povos. O jogador é visto com magnificência. É o eterno menino pobre que conseguiu a auréola dos deuses à custa de trabalho árduo, repleto, abnegado, afincado, persistente, hercúleo. O rapazinho será sempre um rapazinho. Será para todo o sempre o humilde madeirense, bondoso, contido, benemérito, digno e consciente. A vítima estóica do ciúme dos rivais, o exemplo vivo de desportivismo olímpico. O moço que saiu da ilha para cumprir Portugal.
Qualquer grão de areia que se introduza nestes pressupostos origina reacções infectadas, acompanhadas de insultos e de acusações de falta de patriotismo. Há, no entanto, a necessidade de se referir que alguns ricochetes são uma delícia. A Gaffe não quer deixar passar em branco o que aconselha o infractor a esfregar os cotovelos numa parede de granito. É tão visual!
Esta inflexível postura dos Tónhos não tem em conta o facto de que, ao contrário do que se afirma, o dinheiro não transforma os homens. O dinheiro revela-os e Cristiano Ronaldo deixou há muito tempo de ser menino pobre.
Não está em causa o talento do jogador unido a um trabalho infinito, mas a Gaffe teme que todo o treino a que Ronaldo se sujeita seja sempre da cabeça para baixo. No que diz respeito à parte que sobra, basta que decore uma ou outra frase inócua que lhe ensinam e a enfie seja onde for.

 

- O que está neste momento a ler, Cristiano Ronaldo? – Pergunta Judite de Sousa que, não fosse o estatuto de vedeta do entrevistado, o esgadanharia como o fez a um mocetão tatuado que contratou Pamela Andersen para a sua festa de aniversário e despejou pipas de dinheiro no chão da festarola. 

- Eu costumo ler tudo o que contribui para eu ser o melhor do mundo. Posso não ser o melhor do mundo, mas acredito que sou o melhor do mundo. Se não sou eu a acreditar que sou o melhor do mundo, não sou o melhor do mundo. Posso não ser o melhor do mundo, mas acredito que sou. Vou continuar a trabalhar para ser o melhor do mundo.
- Qual a sua opinião acerca da Barbie, Cristiano Ronaldo?
- Eu não falo da minha vida pessoal. O que interessa é que acredito que sou o melhor do mundo. Se não sou eu a acreditar que sou o melhor do mundo, não sou o melhor do mundo. Posso não ser o melhor do mundo, mas acredito que sou. Vou continuar a trabalhar para ser o melhor do mundo.

 

A Verdade, por muito que surpreenda os Tónhos, é que a cabeça do eterno rapazinho da Madeira parece ser uma imensa ilha desolada inundada sem cessar por uma chuva cerrada de notas e não altera o facto convir a Marcelo dizer o contrário ou se erguer uma estátua que pretende homenagear o seu génio futebolístico ao mesmo tempo que salienta os seus talentos de alcova. 

A revelação dos gastos escandalosos de Ronaldo, os quatrocentos mil euros - dito por extenso não soa tão bruto – que suportaram a festa do seu aniversário ou os seus pontapés no rabo dos adversários durante um jogo que não lhe corre bem, não inflamam a Gaffe que se mostra completamente indiferente e não a fazem sentir atirada ao chão pela surpresa. Ronaldo é um homem desmesuradamente rico e sem qualquer ambição à canonização, também por não saber o que significa, e para além das suas geniais performances em campo, pouco mais se pode esperar do que comportamentos idênticos aos do moçoilo tatuado que Judite de Sousa trucidou.
Para que conste, a Gaffe nada tem contra ou a favor das escolhas que os dois costumam fazer, embora preferisse contratar Kelly Slater para surfar o ritmo das suas comemorações.
Os Tónhos adulam as criaturas que simbolizam o triunfo e por muito efémero e diverso que este seja, acreditam piamente que ao lado das razões que as levam à vitória, existe a convicção intocável da eterna perfeição do idolatrado. Se quisermos mudar o campo onde se joga este equívoco, podemos sempre relembrar um ex-primeiro-ministro preso e observar como uma data de gente o clama inocente em plena praça pública, sem sequer perceber que muito mais perigoso do que ter um ex-primeiro-ministro preso é ter o actual à rédea solta.
Tornam-se Tónhos quando a vida lhes prova que os pés dos deuses são de barro, para o bem e para o mal, e que isso não se altera mesmo quando calçam Prada ou chuteiras CR7.

 photo man_zps989a72a6.png


3 rabiscos

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De roulette online betclic a 16.02.2015 às 21:28

E "tonhós" serão sempre "tonhós"...

(sou capaz de imaginar esse diálogo entre o Ronaldo e a Judite... é bem o perfil de ambos!) :D
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De Gaffe a 16.02.2015 às 21:35

Nem mais!
Et faites vos jeux car rien ne va plus!
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De Maria Araújo a 23.02.2015 às 21:52

Bolas, isto pôs-me a pensar:


"podemos sempre relembrar um ex-primeiro-ministro preso e observar como uma data de gente o clama inocente em plena praça pública, sem sequer perceber que muito mais perigoso do que ter um ex-primeiro-ministro preso é ter o actual à rédea solta."

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