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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe duriense

rabiscado pela Gaffe, em 06.12.16

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No Douro há dias em que atravessamos os corredores com a lentidão dos vermes.

Dias em que se vê por dentro. Não da alma,- que desaparece afugentada e temerosa como bicho pequeno e ameaçado que procura esganiçado a mais funda lura para se imobilizar, para deixar passar o perigo, - mas por dentro do corpo.

Há dias em que se sente por dentro do corpo e o corpo em que se sente por dentro é como uma casa sem janelas. Muros, telhado e uma porta por onde apenas se entra. Sair não é possível até findar o sentir-se ou acabar o dia.

Nesses dias em que acontece este sentir, sabemo-nos alterados. Envelhecidos. Descobrimos dentro a maior desilusão, o maior dos abandonos, a maior das misérias.

Percebemo-nos idiotas. Entendemos a ausência, a solidão e toda a procissão de sentires magoados, como se abandono, desilusão, miséria e despovoado fossem órgãos iguais ao coração, cérebro, fígado.

Há dias em que atravessamos os corredores com a propositada lentidão dos cortejos fúnebres, para que os vermes tenham tempo de comer o nosso sentir lá dentro.

 

No Douro há também os dias em que a superfície dos lugares nos toca a pele.

As árvores desprendem os perfumes dos ramos. Descem os aromas pelos troncos como bichos cansados, roçam-nos a pele, farejam, e mergulham nas águas arrastando os líquenes e o musgo húmido para o fundo negro sem vista.

São como segredos.

Quebram devagar a película que nos envolve, como folha de cristal, como fina folha de cristal por sobre a pele.

Entendemos então a mais distante segurança que é entregue aos que escolheram o refúgio do rio onde o tempo esquálido flutua. Entendemos então os passos do silêncio. Esta espécie de felicidade em nada ter, porque se tem à tona da pele o imenso engano da quietude fria. Nada se move. Nada. Os dias são os dias já passados e nas madrugadas as árvores escondem o sussurrar do vento, o tilintar da chuva ou a luz que interrompe as frestas da penumbra, os rasgos de ruído pelas pedras.

 

Entendemos os dias do Douro porque os temos pousados na alma.

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Gavetas:


4 rabiscos

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De Fleuma a 06.12.2016 às 15:51

Assim, em rasgos, esta escrita explica porque razão este é um dos meus blogs de eleição. Confesso, outras palavras e temas não me interessam muito. Creio que nem todos são feitos de luzes e harmonia. Mas é esta atmosfera ( que me seja desculpada a repetição desta palavra, porque sou um viciado incurável nela) flutuante que me submete e demonstra que é sempre possível encontrar por aqui escuridão a espreitar em cada recanto.

" Há dias em que atravessamos os corredores com a propositada lentidão dos cortejos fúnebres, para que os vermes tenham tempo de comer o nosso sentir lá dentro." - Poderia descrever um universo através destas palavras mas prefiro deixar-me embalar.

Brilhante Gaffe!

Uma vénia.
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De Gaffe a 06.12.2016 às 16:33

Nada há em mim que não retenha uma sombra.
Sou fútil, leviana, tonta e superficial, mas há recantos perdidos, tantas vezes labirínticos, cobertos pela ausência de luz, que muitas vezes me assombram e tantas outras acarinham.

Obrigada, meu muito querido Fleuma.
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De Rapunzel a 06.12.2016 às 19:29

Não há nada em si de fútil, leviana, tonta e superficial. Sabe perfeitamente disso. Há sim, uma mulher inteligente e atenta a tudo o que se passa na e pela vida, seja bom ou seja mau. E como todas as pessoas inteligentes, essas coisas deixam pequenas marcas, ou se preferir, pequenas sombras, que consegue expressar de forma rara pela escrita.
A parte leve e divertida é outra parte de si, também extremamente importante e que a caracteriza. É a mulher elegante, sofisticada e parisiense.
Há poucas Gaffes, mas ainda bem que encontrei uma.
E agora, se faz o favor, não me responda de forma seca, directa, lacónica e sucinta, como às vezes faz quando não sabe como reagir a um elogio. Faça-o da melhor forma que sabe e que tão elegantemente a caracteriza:
Merci.
A Gaffe sabe perfeitamente que é encantadora...
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De Gaffe a 06.12.2016 às 23:22

Repare que não considero necessariamente mau ser-se fútil, leviana ou superficial. Tudo depende da inteligência com que o somos.

É curioso referir a minha particularidade francesa. Todo o meu lado materno é francês. A minha bisavó, a minha avó e a minha mãe são mesmo genuinamente parisienses e eu vivi grande parte da minha curta vida nessa cidade estrondosa. Fico contente por ter herdado esse "je ne sais quoi".

Relativamente ao modo como sente que reajo aos elogios, acredite que se pareço fria ou lacónica não é propositado. Aprendi que um elogio é um amável superlativo que devemos minorar de forma a não nos sentirmos maiores do que somos - é sempre deselegante -, assim como os vitupérios apenas provam que somos bem maiores.

Obrigada.

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