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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e a confidente

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.14

Veneza.jpgA senhora não encontra o isqueiro.

Procura-o, discreta, na carteira preta de verniz Cartier. Sorri. Não me quer interromper.

Falo do meu não saber do nome das ruas, porque todas as ruas eram o outro rosto. Falo-lhe do meu não saber da cor dos rios e do meu não saber da curvatura das pontes, porque todos os rios eram outros braços e porque entrava neles de olhos fechados, porque todas as pontes eram outros olhos, todos os arcos eram outros lábios.

 

A senhora brinca com o brinco. O fumo invade-lhe o cabelo mesclando de cinzento as ondas brancas puras.

 

Falo-lhe do medo que sentia quando ele vinha tarde pelas nocturnas ruas de chuvas e de esperas. Falo-lhe dos risos desatados nas avenidas soltas e desertas pelas horas, de mãos dadas a desfiar palavras. Falo-lhe das promessas, das certezas, dos seguros muros que nos resguardavam, da eternidade presa por grades de penas e de nuvens.

 

A senhora esmaga o cigarro contra a cigarreira aberta. Breve, a cigarreira, e não lha deu a mãe, mas o amante numa cidade longe no tempo e ocupada.

 

Falo-lhe dos ferros que me entraram no cérebro, não no coração, que o tinha dado, quando a porta não abriu por não haver ninguém do outro lado, por ter ficado fora, por ser apenas uma a mais, apenas uma a mais, a mendigar abrigo. Falo-lhe das escadas em caracol de espera, só para suplicar que me dissessem porque não podia amar demais. Falo-lhe da certeza de que o amor assim inadiável é o único amor que merecemos sentir.

 

A senhora e a chávena. A senhora beberrica. Sorri. Não quer interromper. Brinca com o brinco. Retira outro cigarro. Procura as ondas brancas do cabelo e inclina levemente a cabeça enquanto espera.

 

Falo-lhe dos braços que me vieram arrastar. Falo-lhe dos abraços a recolher pedaços. Falo-lhe do ódio que gosto de sentir. Falo-lhe das vielas de uma alma suja onde gostava que ele morresse ou que sentisse o mesmo que senti, que é a mesma coisa. Falo-lhe da desmesurada, deserta desolação das ruas que vivi depois de ter morrido.  

 

- O ódio, minha querida menina, é apenas a máscara escarlate pousada na gôndola do carnaval do amor. É a indiferença que afundará Veneza. Procura a indiferença. Quando a encontrares, podes tornar a amar o que perdeste dentro da alma desse homem perdido.

 photo man_zps989a72a6.png


13 rabiscos

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De bloga-mos a 30.10.2014 às 15:55

Estou fortemente inclinado para ter uma conversa muito séria contigo, doce Princesa...
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De Gaffe a 30.10.2014 às 16:04

"Fortemente inclinado" não significa consequente queda, pois não?
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De bloga-mos a 30.10.2014 às 16:09

Os meus "desequilíbrios" espantariam Euclides e Galileu mas ando a tratar-me...
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De Gaffe a 30.10.2014 às 16:30

Gostava muito de cair nessa conversa muito séria que se esconde.
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De M.J. a 30.10.2014 às 16:22

um dia, seja cão se não vou, vou convencer-te a escrever uma coiseca qualquer comigo.
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De Gaffe a 30.10.2014 às 16:31

Como?
É muito interessante o desafio, mas não sei muito bem como participar!
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De M.J. a 30.10.2014 às 16:42

um dia tive uma corresponde por carta, do alentejo. durante umas férias de verão trocamos cartas numa azáfama crescente cujo volume aumentava. a ideia era simples: escreveríamos um conto a 4 mãos. eu começava, escrevia no máximo duas folhas e ela continuava escrevendo no máximo duas folhas. lembro-me que no final do verão uma de nós perdeu o conto que era sobre amor adolescente e ia nas vinte páginas. no natal seguinte ela mandou-me como prenda a metamorfose.
nunca mais nos escrevemos e nunca vi a cara da moça. mas lembro-me do conto.

pronto, achei que poderia ser uma ideia a adaptar.
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De Gaffe a 30.10.2014 às 16:58

Ah!
Temos de arquitectar melhor essa aventura. Deixa-me pensar nas modalidades, sim?
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De M.J. a 30.10.2014 às 16:59

deixo sim, mas que era boa matéria lá isso era!
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De bloga-mos a 30.10.2014 às 16:42

Entre conversa de gentis mulheres um bloguer recolhe a colher e afastasse respeitosamente...
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De Gaffe a 30.10.2014 às 16:58

Um tímido.
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De anDRÉ a 08.02.2015 às 20:35

Este texto fantástico creio que não seja da sua autoria mas sim do V.
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De Gaffe a 09.02.2015 às 08:19

A minha participação no "Jornadas" era muito esporádica. Os meus textos eram os mais escassos e reservados. Guardei alguns. Havia ainda a participação de mais um elemento.
O blog acabou por desiludir e criar conflito e clivagens entre nós. A personalidade absolutamente asfixiante do dono criou agravos e fez com que tudo desabasse.
O último post preocupou-se em atribuir todos créditos aos autores e irritou demasiada gente que por sermos insconscientes acabamos por "ofender".
Meus, em mais de 2000, eram cerca de uma dezena.

Apesar de tudo, tenho imensas saudades do projecto que durou mais de quatro anos.
O André não leu o blog que referimos desde o início. Um dos primeiros post anunciava o modo como seria articulado. Era um "conceito experimental" que se tornou uma idiotice.

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