Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e a estrela

rabiscado pela Gaffe, em 13.08.14

Mais alta do que a maioria das mulheres, movia o corpo de uma forma lenta. A estatura acentuava a sensação de que, para que houvesse alterações na sua posição, um membro deveria esperar pelo fim do movimento do outro. O tempo tinha-a feito crescer aos solavancos, aguardando a consolidação do desenvolvido para depois continuar. Quando o tempo acabou de a construir, tornou-a indefinida, quase andrógina. A imagem de mulher fatal, de cabelo longo e olhar assassino, acentuava uma fragilidade obscura, muitas vezes furtiva, que se escapava do corpo magro e tenso.
Era considerada divina pelos mundanos que zargueavam procurando ser vistos junto das migalhas de atenção, ou de desprezo disfarçado de sobranceria fotogénica, que ela distribuía metodicamente pelos medíocres e pelas poucas criaturas capazes de a prender mais do que uma hora e que conseguiam atravessar o desconforto que ela provocava, de sapatos rasos e casacos protectores, olhos de grades e frieza intimidante.

 

Lauren Bacall raramente falava e, quando falava, procurava fazê-lo desencorajando até as investidas da imbecilidade fátua. Por isso não era fácil a tarefa de lhe encontrar as palavras. Mas era fácil encontrar-lhe o sorriso.

O sorriso era um terminal de frases que ela não dizia, porque começavam e acabavam dentro dela. Era um resumo. Bastava.

 

Lauren Bacall (1924/2014) - Vanity Fair 

 photo man_zps989a72a6.png


Comentar:

CorretorMais

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.




Por força maior, os V. comentários podem ficar sem resposta imediata. Grata pela Vossa presença.


  Pesquisar no Blog