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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e a mãe dele

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.16

Um dos maiores perigos que uma rapariga esperta corre, inicia-se quando o rapagão que pensava descartável lhe anuncia que gostaria de a apresentar à sua santa mãe.

O cérebro faz disparar o alerta vermelho, fazendo-a ouvir as sirenes das cooperações de bombeiros de todas as periferias e as cornetas dos regimentos e das fanfarras da União Europeia.

 

- Vais ver. A minha mãe é uma óptima companhia!

 

Uma iguana é melhor companhia do que a mãe dele. Aliás, se pensarmos bem, tudo o que termina em ana  - como ratazana, princesa Diana ou mesmo, com algum esforço, o Dolce e o Gabanna - é preferível a ter como parceira esta santa idolatrada.

 

- Vais ver. A minha mãe tem um excelente gosto!

 

Se já não conseguíamos entrar na Bershka com receio de sairmos com os tímpanos desfeitos e transformadas em trapos iguais ao que nos impingem lá dentro, agora, sendo a senhora surda, seremos arrastadas para um vórtice de decibéis inimagináveis somando ao catrapum-pum-pum-catrapum-pum-pum da loja, os gritos das empregadas que tentam dizer-lhe o preço das peças muito giras que restaram dos saldos.

A mãe dele não vai nunca entender, com preços tão em conta em peças tão modernas, porque é que olhamos de soslaio a montra, mesmo em frente, onde resplandece um casaco Galliano, extravagante, exuberante, extraordinário e com um preço a merecer os mesmo adjectivos, embora tentemos desesperadamente fazer-lhe entender que o costureiro é tão querido como ela, sobretudo bêbado e posto a falar num café qualquer de Paris.  

 

- Vais ver. A minha mãe vai ensinar-te a receita do cozido à portuguesa que é do outro mundo quando sai das mãos dela!

 

Este é o instante em que sabemos, sem a menor réstia de incerteza, que a partir dali, o homem, se o aguentarmos depois deste deslize, jamais enfardará cozido à portuguesa ao nosso lado. Se sentir saudades deste exemplar gastronómico, sabe onde o procurar: no outro mundo, ou seja, em casa da mãe dele.

 

- Vais ver. A minha mãe é uma mulher muito aberta! Vai adorar-te.

 

Embora parte do dito mereça o nosso acordo - a referência à abertura da senhora não é metáfora, porque a idade não perdoa e faz aumentar a tendência para se abrir, ou para dificultar fechar, tudo o que deveria permanecer discreto, como a boca -  vai adorar-te sugere não ser má ideia sermos acompanhadas por um exorcista. Não nos podemos esquecer que há mulheres que mesmo depois de dobrada a menopausa, continuam a viver como se todos os dias fossem os dias difíceis. Normalmente gostam de vampiros.  

 

- Vais ver. A minha mãe tem um sentido de humor fabuloso.

 

 Esta tenta proteger-nos. É amoroso da parte do rapaz que admite, com o mais disfarçado dos receios, ouvir a mãe calcinar as nossas irrisórias idiossincrasias com alusões subtis à toxicodependência, ao tráfico de órgãos e aos comunistas.

 

Não temos hipóteses, raparigas. A mãe dele jamais será a nossa avó - embora nos pareça sempre ter idade para isso.

 

Nesta figura com estilo, existe um único consolo: possibilita-nos, sempre que o homem nos contradiz, nos contraria, nos irrita, nos resiste, nos abespinha, nos aborrece e nos refuta, não baixa a tampa da sanita ou nos diz que o sushi que lhe preparamos sabe a pastilha de Xau para máquina de lavar loiça e se parece com uma, podermos pensar em surdina:

 

A culpa é da mãe dele.  

 photo man_zps989a72a6.png


11 rabiscos

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De Maria Araújo a 05.05.2016 às 11:06


Se a mãe do rapagão for como a senhora da imagem, verá que vai adorá-la.
Grande estilo.
E já agora, acredite nas palavras do rapagão, nem que seja apenas a convincente , "- Vais ver. A minha mãe vai ensinar-te a receita do cozido à portuguesa que é do outro mundo quando sai das mãos dela!"
Hummm, até me fez fome.
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De Gaffe a 05.05.2016 às 11:18

Não é!
É ainda mais interessante.

Em relação às palavras do rapagão, minha querida, lamento dizer que JAMAIS conseguiremos cozinhar como as mães deles.
:)))
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De Maria Araújo a 05.05.2016 às 14:58


Imagino a beleza da mãe do rapagão.
Quanto à cozinha, faço minhas as suas palavras.
A minha mãe fazia um cozido maravilhoso. E o arroz à valenciana? Ui!
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De Gaffe a 05.05.2016 às 15:12

E eu que sou uma "perdida e achada" numa cozinha tradicional portuguesa (do Norte! sempre do Norte).
Infelizmente, sou uma nulidade a cozinhar.
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De RP a 05.05.2016 às 11:49

Elas são sempre todas porreiras... no início eheh ;)
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De Gaffe a 05.05.2016 às 12:38

No meio, também, sobretudo quando o filho está em "perigo.
O fim é que é assustador.
;)
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De Corvo a 05.05.2016 às 12:11

Sogras...ai a minha sogra.
Indelével e querida sogra. Sempre do meu lado contra o mundo, onde a filha se incluía em primeiro plano como a vilã.
À frente da filha, falando para mim. "Merecias muito melhor"
:))
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De Gaffe a 05.05.2016 às 12:37

Um abençoado, portanto.
Mas é muito mais difícil quando a senhora é a mãe do rapaz.
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De Corvo a 05.05.2016 às 13:13

Sim, de facto.
Um pouco mais difícil , convenhamos.

De Anónimo a 05.05.2016 às 17:24

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De Gaffe a 05.05.2016 às 17:44

:)
Fico muito contente.
Obrigada.

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