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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e a prostituta

rabiscado pela Gaffe, em 26.08.16

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Lembro-me como descobri o miserável preconceito que carrego.

 

Era Inverno e o homem olhava sem perceber que o via. Habituei-me àquele olhar e sei de todos os lugares onde ele chega ou nos quer levar, porque se vê de longe.

 Levantou a gola grossa do casaco azul de marinheiro, apertou os botões velhos com âncoras gravadas e uniu com força os dedos enluvados de modo a que o couro das luvas se ajustasse melhor aos movimentos das mãos. Sorriu com vento e gaivotas empurradas aos gritos e aos guinchos no meio de rajadas com uivos de frio.

Ouvia o barulho das abas do mar batido e encolhia os ombros, curvava ligeiramente a coluna a tentar esconder a face exposta ao frio, afiando a cabeça na direcção do vento, a seu favor - do vento, que tem apenas um casaco marinheiro abotoado.

Adivinhava-lhe as mãos geladas. Escondia-as cruzando os braços, enfiando-as nas axilas e batia com força cada passo que dava no granito do passeio de modo a que o vibrar da pedra assim batida lhe quebrasse a certeza de que o gelo lhe ferrava as solas dos sapatos.

 

A mulher aproximou-se.

- Tens lume? - uma minimalista.

Não. Não tinha lume.

 

Brincou, reproduzindo o estafado apalpar dos bolsos e disse de súbito aquilo que eu sabia:

- Mas tenho um corpo lindo! - fez aparecer na cara duas covas ao sorrir.

Apesar do queixo voluntarioso, o nariz aquilino e a forma como as madeixas de cabelo se comportavam como asas de pássaro apanhado em desespero de armadilha, mantinha um ar tímido que o frio acentuava entregando a sensação de que havia pressa nos olhos ansiosos daquele homem. Uma aceleração das emoções ou dos desejos, uma urgência de dizer o que não quer, provocadas pelo medo de gelar, de ser picado pelas gaivotas que gritavam lancetadas pelo vento como farrapos de cabelo desnorteados.

 

A mulher tinha feições que esqueceria logo que o vento amainasse e o meu casaco se fechasse sobre o entardecer friorento de outra praça, de outra Avenida e de outros rostos. Era loira, oxigenada e frisada e afagava os cantos da boca inflamada de batom. Apenas isso.

- Não beijo na boca - minimalista e rotineira.

Diz-lhe depois dos preços com a serenidade de quem atira um orçamento que se sabe pobre e sustentável.

 

- Não tenho dinheiro e beijo bocas.

- Só faço isto por causa das propinas.

- Tenho a certeza que sim, mas não tenho dinheiro e beijo bocas. Desculpa.

 

Ofereceu um serviço mais barato e não abrandou o passo quando o recusaram. Seguiu-o e falou-lhe de praças desertas nas horas mais pardas e nas avenidas paradas como esconderijos. Deixou-se de saber se é negócio ou ócio o sexo daquelas prestações.

Desceu as escadas. Depois o declive que a levava a areia. Encostou-se ao muro à espera com a mão na virilha e os olhos levantados de promessas por orçamentar.

- Tens de procurar outro. Eu estou só à espera de uma amiga.

 

A gola do meu casaco grosso levantada e o vento a zunir à minha volta.

- Vê o que as tempestades nos podem fazer.
Estava mais velho o homem e ainda mais perfeito por estar só. Todas as solidões são maiores que a vida.

Afastou-se a mulher oxigenada e de unhas pintadas de vermelho do muro das promessas e das propinas por pagar.

 

- Eu sei que tu tens lume – murmurei-lhe.

Com o braço marinheiro cobriu-me o ombro e num sussurro que o vento apanhou e fez desfeito:

- Um pouco mais de sol, eu era brasa.

 

Foi este exacto momento que me fez perceber que jamais conseguirei compreender as prostitutas. Nunca entenderei esta espécie de violação consentida a troco de dinheiro. Não concebo qualquer razão que a justifique e sinto que a redenção, o aclamado heróico redimir, o engrandecido já fui, mas já não sou, não é mais do que uma espera até que a vida encontre novas pedras que fazem tropeçar.

Não consigo - não quero - aliar-me aos benévolos e benevolentes que conquistam a força de carpir a infelicidade que empurra estas mulheres para estas esquinas, nem sei sequer admirar e ampliar as que se dizem delas descoladas.  

 

Até o vento a ganir não apaga, não empurra com um golpe de asa, uma mulher que se sente a desfazer.

 

Ilustração - Beesse para A Gaffe e as Avenidas

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Gavetas:


11 rabiscos

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De Maria Araújo a 26.08.2016 às 10:39

" - Um pouco mais de sol, eu era brasa."

Demais!
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De Gaffe a 26.08.2016 às 10:42

Mário de Sá-Carneiro - "Dispersão"
:)
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De Pequeno caso sério a 26.08.2016 às 11:16

(...)"Até o vento a ganir não apaga, não empurra com um golpe de asa, uma mulher que se sente a desfazer."


Estás , efetivamente, de volta.
É é tão bom!
Porra , é tão bom o que escreveste!
Só podes ser boa pessoa.
Mesmo.





(Na minha pequenez, vou ali continuar a digerir aquilo que acabei de ler) .
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De Gaffe a 26.08.2016 às 11:42

Obrigada.
Sou uma excelente pessoa, como se acabe de ler.
;)
Beijo.
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De Be a 26.08.2016 às 11:56

Não me parece preconceito.
Escolher o caminho mais fácil nem sempre é o caminho mais fácil.
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De Gaffe a 26.08.2016 às 12:02

Não sei se é o caminho mais fácil. Não sei se é o caminho mais difícil.
Acredita que nem sei se é caminho.

É mais caminha.
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De Corvo a 26.08.2016 às 15:32

Não necessariamente.
O muro de uma esquina serve a contento.
De resto nunca faltou dinheiro ao gastador, tabaco ao fumador e justificação para a podridão, que é assim a modos de como quem diz:
quando se perde a vergonha, dignidade e tudo o resto vai por arrasto.
Um excelente fim-de-semana.
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De Gaffe a 26.08.2016 às 15:43

Sobretudo dignidade (entre outras coisas que não tenho espaço para anotar). Nenhuma delas se readquire quando se abandona o muro que refere. Perdem-se definitivamente. Ficam simulacros.
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De Psicogata a 26.08.2016 às 15:11

Adorei, como já hábito.

"Nunca entenderei esta espécie de violação consentida a troco de dinheiro."

Será que alguém algum dia entendeu?
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De Gaffe a 26.08.2016 às 15:44

Tu entendeste.
:)
É bem que se entenda isto de uma vez para sempre.
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De Psicogata a 26.08.2016 às 15:55

Não poderia concordar mais :)

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