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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e o carteiro

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.19

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(Especialmente para si, de modo leve e breve.)

Nas manhãs em que a névoa se arrastava pelo chão, descida das copas cinzentas das árvores, cravando as garras húmidas nos troncos, pesada como um facto, como um fardo, a minha adolescência - de vestido branco em linho longo - esperava as agulhas do sol por entre os interstícios das folhas.

 

O meu vestido tinha corpete apertado e alças largas. Sem mangas. Um decote redondo. A saia era cortada em evasê, plein soleil – dizia a minha avó.

Era um dos meus vestidos favoritos.

Tinha visto Grace Kelly nas revistas. De vestido plein soleil, sentada nas escadas. Estampado nubente. As mãos cruzadas no regaço, o pescoço de pérolas, o sorriso quieto de princesa loira de ondas suaves.

Queria tanto ser como Grace Kelly! Imitava-lhe a pose de vestido plein soleil, renegando o meu ruivo revolto que denunciava a distância e a minha pele picotada pela canícula.

 

Quando o sol tocava nas tintas do arvoredo, sentava-me nas escadas. Espalhava o vestido nos degraus, cruzava as mãos no regaço e permanecia quieta a ser Grace Kelly.

 

Gostava muito do vaso de granito que encimava a coluna que terminava a escadaria. Atravessada pela luz, a transparência das pétalas das flores que continha, estampava no branco do meu vestido plein soleil uma paisagem floral difusa e movediça de cinzas e de negros. Ondulava a paisagem como as ondas do loiro da princesa, ao som da brisa que arrefecia a pedra.

 

A meio da manhã, as duas raparigas, pouco mais velhas do que eu, corriam para os portões de ferro forjado e fechado. Acotovelavam-se, sussurravam, davam risadinhas maliciosas e sacudiam as saias como quem sacode o sol que queima as cores.

Lembro-me da Cecília. Bonita. Meridional. Baloiçava as ancas poderosas como éguas e fazia oscilar o peito opulento, numa provocação quase erótica, quase territorial pela insinuação animalesca que continha. É agora dona de um talho. Casou. Tem dois filhos que apinoca para a catequese dos Domingos e comunhão apensa e passa por mim sem me ver, cavalgando o mundo, num faz-de-conta que deixou de me intrigar por não lhe encontrar razão passível de palpar como o seu rabo que alargou e se tornou bovino.

A outra perdi-a. Não guardo memória. Era, grande, possante, roliça e loira, redonda. Talvez minhota de olhos azuis e trigo no cabelo. Imaginei sempre o Minho repleto de valquírias.

A meio da manhã, duas vezes por semana, as duas raparigas, pouco mais velhas do que eu, corriam para os portões de ferro forjado e fechado.

Ouviam a motoreta do carteiro e corriam ao encontro do som do bicho rouquenho. Às Terças e às Sextas.

 

Longe, em pose de princesa fria, invejava a plebeia canícula do corpo daquelas mulheres, mas nunca me atrevi a suar com elas. Por causa das pérolas. Por causa das sombras estampadas no meu vestido plein soleil. Por causa do desdém com que as carnais corredoras miravam de soslaio a minha imobilidade de pechisbeque caro. Por causa do medo que sentia de afugentar a neblina libidinosa que envolvia aquele percurso térreo.

 

Nunca cheguei a ver com clareza o carteiro. Escondia-se nos atrás dos pilares de pedra dos portões, de forma que de dentro não escapasse o ralhete da Jacinta e o enxotar das raparigas com a vassoura do quintal.

Minutos largos depois de cochichos e risinhos, trejeitos e saltinhos, as duas mulheres regressavam no ronco grosseiro da motoreta que partia. Traziam nas mãos os embrulhos com livros recentes encomendados pelo meu avô com a cumplicidade da sua velha livraria Bertrand que o alertava, ou os novíssimos tecidos, cortes seleccionados a dedo e a tesoura de mestre, dos antigos armazéns Cunha Rodrigues, na Rua Passos Manuel.   

 

O estampado de sombras ondulado pelas perrices do sol no meu vestido branco de linho, atenuava-se, tocado pela névoa de nunca ter recebido uma carta de Amor.

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Gavetas:


44 rabiscos

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De Sarin a 05.07.2019 às 23:54

As ridículas fazem-nos corar de encanto na primeira leitura; depois, corar de vergonha...
Confesso, o meu romantismo fica muito aquém de pétalas em palavras desfolhadas, sou mais dada a estilhaços de sombra e rasgos de silêncios cúmplices - assumo não ser Grace mas desgrace.

E admiro 'plein soleil' em frias escadas de donzelas vestidas de sonhos. Creio-as, crescendo, capazes de criar profundas palavras nas pequenas mágoas do nunca vivido. E uma carta será uma carta. Um ás... um Duque? :)
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De Gaffe a 06.07.2019 às 00:59

O que não é vivido, fica-nos preso nas palavras. Através delas, creio, nos definimos.

Sempre senti a falta de um príncipe na mão com que todas jogamos!
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De Sarin a 06.07.2019 às 01:17

Redefinimos uma parte de nós, talvez - recuso que nos tracem, as memórias puras do futuro do pretérito! Condicionadas, talvez, mas não presas num passado que poderia ter sido. Jamais!


Nem todos os príncipes são seguráveis numa mão - mas valerá a pena segurar as cartas? Não serão mais bem empregadas se deitadas ao mar, talvez que tornem na viragem da maré?
Enfim, ele está lá, no baralho completo - mas travestido de sapo, chamamos-lhe Valete como a um D. Juan dissimulado nas sombras.
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De Gaffe a 08.07.2019 às 16:49

Sempre suspeitei que o Valete valia mais do que sombrios príncipes em charcos encantados.
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De Sarin a 08.07.2019 às 17:00

Valerá, possivelmente.

Mas efectivamente vale mais do que a Dama em muitos jogos, assim se reduzindo esta a apenas filha ou esposa de boas gentes e a Valete elevando um qualquer mancebo capaz de vir a terçar armas... se até nos jogos injustiçadas, como achar as cartas românticas?! ;))
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De Gaffe a 08.07.2019 às 17:01

... Fazendo batota ...
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De Sarin a 08.07.2019 às 17:15

Touché! :))
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De Pequeno caso sério a 08.07.2019 às 19:26

(desculpa a intromissão na conversa)

Não sei o que é mais "ridículo " : se receber uma carta de amor ,se escrever uma que nunca será enviada.
: /



..."O que não é vivido, fica-nos preso nas palavras..."
Tão bonito e tão verdadeiro. Vou guardar.
;)*
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De Gaffe a 08.07.2019 às 20:21

As que ficam, provavelmente foram escritas por nós e para nós.
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De naomedeemouvidos a 08.07.2019 às 14:21

Ah, também há algum romantismo na "desgrace", como há graças que carecem de romantismo. E, a propósito de cartas, acabei de ver, pela primeira vez, o filme "O amor em tempos de cólera". Adivinhem. Gosto muito mais do livro. Há coisas em que sou de letras. E de (algumas) cartas :)))

Boa semana!
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De Gaffe a 08.07.2019 às 16:40

Deste homem, escolho "Cem Anos de Solidão" como O livro da minha vida.
Rendo-me a esta "carta" sem hesitação, todas as vezes que a abro.
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De naomedeemouvidos a 08.07.2019 às 17:03

Pois esse livro faz parte da minha bagagem de férias, este ano. No Verão, aproveito para reler 1 ou 2 clássicos (entre outros livros). Não sou capaz de ler livros para relaxar. Preciso de estar relaxada para poder ler livros.
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De Gaffe a 08.07.2019 às 17:10

Fazes-me lembrar um Amigo grandioso que me diz sempre que um livro é sempre um inimigo fabuloso. Dá luta, faz suar, endoidece, irrita, magoa, causa ferida, esmaga e quando apazigua, deixa-nos de rastos.

Há inimigos que convém ter por perto.
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De naomedeemouvidos a 08.07.2019 às 18:39

Por perto e à mão. Para tocar, folhear, sentir e cheirar.
(Escrevi, uma vez, sobre os livros (e as pessoas): "Preciso de lhe tocar, de o cheirar, de ouvir o barulho das folhas que murmuram sob os meus dedos e que comigo choram, riem, desconfiam, se desiludem ou, simplesmente, sucumbem à mestria do artista". Entendo bem o teu Amigo.)
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De Gaffe a 08.07.2019 às 20:22

Então falamos de amor.
:)
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De naomedeemouvidos a 08.07.2019 às 21:22

Desde o princípio:)
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De Sarin a 08.07.2019 às 16:51

Cartas? Para Julieta. Um filme leve, uma história improvável mas bonita, uma paisagem deliciosa e uma actriz que venero, Madame Vanessa Redgrave. E o seu amor, Franco Nero :)

Não vi o "Amor nos tempos de cólera". Há filmes que simplesmente recuso, para que me não destruam a imagem desenhada pelos livros. Também sou de letras, assim sendo ;)
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De Gaffe a 08.07.2019 às 21:33

Ou para Inês.
É lindíssima a história de amor de Pedro e Inês.
Infelizmente não foi dada a conhecer a Shakespeare.
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De Sarin a 08.07.2019 às 22:38

Lindíssima?
Decerto conheces a versão delicada. Cresci com a outra, aquela em que D. Pedro, o Cru, mantém em roda viva Inês, Afonso Madeira, D. Constança e uma outra de menor "importança" - o reino morre de peste, e o herdeiro se despe e se veste... ;)
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De Gaffe a 08.07.2019 às 23:41

Também conheço essa versão. Também gosto dela. Pedro enlouquecido e bruto.
Sempre lamentei Afonso Madeira, castrado "por coisa que não se diz, por ser verdade".
Constança teve a fortuna - no camoniano sentido - que era prevista. Demasiado branca, demasiado ausente, demasiado passiva, demasiado impotente, demasiado infeliz.
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De Sarin a 08.07.2019 às 23:55

On a pas besoin de Monsieur Shakespeare... :)))
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De Gaffe a 09.07.2019 às 10:03

Mas deixamos escapar uma história tão rentável!
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De Sarin a 09.07.2019 às 10:08

Mas... supunha que estavas a começar! Aquelas frases não são a sinopse da tua versão?
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De Gaffe a 09.07.2019 às 13:25

:))))

Tonta! Não se faz!

:))))))
******

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