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Cruzei-me, na Zara Home, com walter hugo mãe.
Uma rapariga esperta habitua-se a ler determinado autor e, de forma um bocadinho irresponsável, cria dele uma imagem física muito nítida que sente que corresponde à sua escrita. Quando este lapso se alia ao facto de não se ter em conta que a figura que passa no televisor está alterada e filtrada por demasiados ornamentos, o resultado só pode ser uma desilusão, não literária, mas literal.
O autor é mais atarracado do que imaginava, tem uma barriga proeminente e uma cabecinha inesperadamente minúscula, ou então contrasta com o ventre. Baixinho e com ar usado, não tem propriamente um pescoço de cisne e faz lembrar um papa-formigas careca e ligeiramente presunçoso.
Uma decepção!
Este erro que se comete quando se vai criando uma imagem do Outro à medida das nossas ilusões, dos nossos destemperos, das nossas falhas ou faltas e até dos nossos azulejos, a partir de dados que são apenas processados pela capacidade de criarmos mitos, produz inevitáveis desapontamentos.
A realidade acaba por ser o sonho que montamos com peças que encaixam apenas no nosso desejo imenso de encontrar a complementaridade e a plenitude, a unificação e a harmonia. É um real falacioso, capaz de nos trair aquando do confronto, nu e cru, com a verdade que jamais se compadece com a fantasia.
Há, no entanto, o verso da moeda - existe sempre! -. A fantasia que não se compadece com a realidade e que a supera, transfigura, transforma e converte, tornando-a essencial e única escolha possível no processo quotidiano do viver.
A escrita de valter hugo mãe faz dele o homem espadaúdo, másculo, alto, ágil, elegante, atraente, viril, sensual e sedutor.
Talvez por isso sinta sem a mínima hesitação que na Zara Home me cruzei com um papa-formigas de sonho, absolutamente irresistível.