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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e os rapagões passados

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.19
 

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Fui de repente convidada pela minha querida amiga para a acompanhar à festa de noivado - coisa simples - do seu ex, rapaz poderoso, escandalosamente rico, snob e detentor de uma personalidade pindérica, mesquinha, irritante e peluda. A minha querida amiga precisava de uma cúmplice para esgadanhar em surdina a futura consorte e nada melhor do que as garras da sua querida amiga para coadjuvar esta deliciosa tarefa.

 

O fui convidada é claramente um eufemismo para anestesiada, arrastada, amordaçada e drogada de forma a aceitar o convite sem espernear. Sou adversa a flutes onde cintilam as delicadas bolinhas de um Champagne daqui. Continuo a preferir, saloiamente, um alentejano maduro - semanticamente, polissemicamente -, com os sons de risos simples e saudáveis que fazem cintilar a alma.

 

Depois de alvoroçar a vizinhança com o facto de não existir no meu guarda-roupa um Armani a fazer pendant com o evento - coisa simples -, fui enfiada num YSL deslumbrante e emprestado, que eu destes tipos escolho Dior. Não preenchia as copas do vestido - a minha BOA amiga tem duas ogivas nucleares em vez de mamas -, mas o desenho flutuante, fluído, amplo e nada comprido do vestido disfarçava a ausência daquelas duas minas redondas que aparecem no fundo mar nos filmes debruçados sobre a II Guerra e no peito das meninas encorpadas.  

Cabelo preso numa banana ruiva - da Madeira, pois que tenho agora o cabelo mais curto -, suplicando aos deuses a imobilidade forçada e enraivecida dos meus caracóis de fogo furiosos, uma leve entoação na face a elevar os olhos, um reforçar da extensão das pestanas e um bâton prudente de brilho contido, suave e sem textura - nestes momentos a  minha excelente amiga soa tão influencer! -, chega-se aos sapatos.

 

O drama é shakespeariano.

 

Recuso-me a usar as tenebrosas plataformas - plantaformas, para as mais dadas -, que equilibram a altura dos tacões, porque me fazem sentir, ou que tenho graves problemas ortopédicos, ou que estou em cima de dois garrafões de água do Luso, que são pesados, difíceis de transportar e, como sugere o nome, metem água.

A alternativa foi calçada.

Uns belíssimos Jimmy Choo com uma cor exacta - azul petróleo anoitecido - a minha querida amiga é muito meticulosa e específica nestas alturas -, sem plataformas - plantaformas ou tamparueres -, de betão, mas com muito mais do que os sinistros 10 cm de agulhas e um número acima daquele que calço, que não há outros que acompanhem e respeitem a atmosfera - apesar destas duas condições, estava fora da lista o calçado da Thundberg. 

 

Pensei que só me conseguiria equilibrar com eles calçados se me projectasse para a frente, embora correndo o risco de, com esta inclinação, bater com os queixos na braguilha do noivo, ou para trás, numa manobra circense, fazendo pensar que tinham contratado para animar a festa a contorcionista do Cirque du Soleil.

- Aguenta! - aconselha a minha querida amiga como se fosse prima do Ulrich.

Aguento e periclitante, oscilante, com tremuras, procuro o apoio da maçaneta da porta que se abre traiçoeira. Troco os pés, tropeço, caracóis vulcânicos já soltos, um azul petróleo anoitecido espapaçado no chão, um Jimmy Choo, um número maior que o imprescindível, com um tacão cravado nos estuques, um bâton de brilho contido todo esbardalhado na minha leve entoação na face.

 

Sem qualquer réstia de dignidade que suportasse a queda, ergui, desfraldei e fiz ondular a minha decisão como bandeira revolucionária e só não cantei Grândola Vila Morena porque me perguntam, sempre que trauteio um lá-lá-lá ainda que menos conotado com Abril, se me estou a sentir bem e nunca me sinto bem com um par de sapatos um número acima daquele que calço e mais de 10 cm de perigo calçado. Sou uma menina de boas famílias, caraças! Mais de 10, só se encaixarem no brasão.  

 

Acabamos as duas de pijama esparramadas no sofá, a rever aquela porcaria do Sangue Fresco, a comer Mon Chéri até ao tutano e aos confins da javardice, a comentar a leve entoação das faces dos actores, sem reter nada da série pateta, nem evitar tropeçar no fundo da segunda garrafa de vinho maduro alentejano.

 

Os homens que se foram, já são ex e que se casem ou que façam coisas. Sei lá. 

Ninguém quer saber. 

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