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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em Boerum Hill Inn

rabiscado pela Gaffe, em 30.08.14

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Em Boerum Hill Inn, na esquina de Bergen com a Heyt, sobre o balcão que brilha coberto por um espelho, existe o jazz ouvido pelos homens de Manhattan.

Jazz arrastado e engolido num sorvo pelos solitários das secretarias de Midtown com apartamentos luxuosos com vista para a ausência, rasgada janela do desassossego.  
São homens espalhados pelo chão. De pé, como se estivessem deitados. Com olhos que fervem no escuro e arrepio nos gestos que são tiques. A flor da pele nervosa, à flor da pele e a amargura retesada da impaciência na solidão de gravata solta e dedos presos no turbilhão do jazz.  
Ficam quase sempre sozinhos.  


Mas é em Boerum Hill Inn onde se ouve jazz que eu vejo duas mãos entrelaçadas. As do homem envolvem as da rapariga como se fosse pão e houvesse fome, como se não houvesse mais corpo a recolher na concha do sossego. Deixam-se mesclar como nada houvesse ali a não ser jazz.  
O homem usa uma cadeira de rodas. A rapariga encosta a perna à inutilidade magra do joelho do amante. É poderosamente nova, quase adolescente, e contrasta com a máscula dureza madura do que lhe afoga os dedos. Olham-se como se um fosse um cão e o outro o dono.  


Em Boerum Hill Inn, na esquina de Bergen com a Heyt, eu desejei ser um deles, um qualquer, porque o lugar a que chamo a casa está distante.

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