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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em manutenção

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.19

105.jpg

Depois de ter decidido pagar apenas o que consumia, a Gaffe optou por um tarifário livre, com carregamentos soltos e de valores opcionais, para poder sentir que não estava a ser descaradamente roubada pela Altice, operadora que tinha escolhido por razão nenhuma e porque a enche de tédio ter de ouvir as assistentes da concorrência a impingir-lhe os mesmos serviços pelo mesmo preço, mais cêntimo, menos cêntimo.

 

Ufana, desandou por ali fora, com a certeza do dever cumprido e a murmurar o consagrado a mim ninguém me engana, com um ar de Manuel Alegre na tourada.

 

Dias depois, recebeu uma mensagem reportando que lhe tinha sido retirado um euro do saldo, para manutenção do cartão.

Dias depois destes, recebe nova mensagem a informar que se tinha eclipsado mais um euro e mais pico, para manutenção do cartão.

A Gaffe ficou pasmada. Não imaginava que um retângulo tão pequenino acumulasse tanto pó e fosse de tão rápida degradação.

Dias depois destes dias, foi amavelmente brindada com uma frase lapidar que lhe comunicava que o cartão ficaria activo até um dia determinado e que, passada a fatídica data, esta rapariga deixaria de poder efectuar chamadas, mesmo que não tivesse esgotado o saldo que, descobriu de repente, não era cumulativo.

 

Ficou decidido deixar que a implacabilidade do tempo realizasse o dano que a ameaçava.

A Gaffe ficou com um cartão de telemóvel amputado e a felicidade raiou como naquelas fotografias lindíssimas que aparecem no facebook a abençoar frases desgarradas, mas sempre de utilidade extrema.

 

Segundo informação não fidedigna, o cartão será desactivado definitivamente ao fim de três meses de inactividade. A Gaffe tem de agendar a ida ao funeral, que isto de se ser de boas famílias exige sacrifícios.

 

É curioso verificar, por exemplo, que este procedimento é muito similar ao aumento das reformas anunciado em forma de slogan. As pobres olham os foguetes que se lançam e estrelejam e pasmam seduzidas, dispostas a aclamar a benevolência e o altruísmo de quem olha as folhas de Excel com um desprezo humanista e se curva perante a miséria alheia, retirando-a do lodo onde a enfiou. Passados dias - provavelmente o mesmo tempo que leva a chegar a mensagem da Altice ao telemóvel -, o IRS sorve o saldo para manutenção do cartão.

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É interessante apurar, por exemplo, que a Altice se comporta como as Câmaras cravadas nas zonas em agonia, destruídas por incêndios, que distribuem a grupos de jovens voluntários - que se revezam mês após mês, chegados de várias zonas do país às terras assoladas -, carvalhos, pinheiros e sobreiros, cuja aquisição foi subsidiada, e que não as regam, que não as cuidam, que não as protegem, depois de plantadas, tornando imbecil e patético o voluntariado que se depara, mês após mês, com a morte das árvores pequeninas. Voltam para recolher outras. A Câmara - logo que recuperada a casa de férias do amigo - fornece-as subsidiadas, porque há que fazer a manutenção do cartão.

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É simpático atestar, por exemplo, que a Altice se comporta como aqueles que vão provando que o jornalismo desapareceu do quotidiano das gentes. Restam resíduos avulsos que cospem fast-food servidos em embalagens de plástico descartável que referem a grande reportagem, ou a investigação jornalística, antes de segurar o guardanapo que limpa aberturas de noticiários com telefonemas populistas de presidentes narcísicos, pois que é necessário fazer a manutenção do cartão.  

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É estimulante confirmar, por estes poucos - e por outros mais exemplos que se calam, pois que iriam deprimir esta chamada -, que o país é apenas e cada vez mais uma rede de comunicações - privadas ou públicas - com uma razoável equipa de marketing e que, no fundo, tudo se resume à manutenção do cartão e a uma pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

Por isso a Gaffe decidiu - enquanto pode -, mal recebe uma chamada de uma operadora que lhe quer anunciar a Boa-Nova, sussurrar num tom arrastado e rouco, mesmo antes de ouvir o que quer que seja:

 

- Já está, mas há sangue por todo o lado.

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Gavetas:


28 rabiscos

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De Vorph Valknut a 16.01.2019 às 13:27


Excelente postal!!


O mercado, deixado em roda livre, conduzir-nos-á (não nos conduziu já?) ao socialismo de mercado, sendo este um entrelaçamento de uma só gente, confirmada por meia dúzia de apelidos, em tudo o que é serviço oferecido (do nascimento, à campa). A alternativa afinal  são estas: Tudo do Estado, ou Tudo da Corporação. Diferença entre elas? O Privado é mais sexy…


A livre concorrência resume-se ao pequeno/médio negócio, o resto é boi para inglês ver.




https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/autoridade-da-concorrencia-faz-buscas-em-telecoms-por-suspeitas-de-cartel-391985


Gaffe, não desespere, faça como o Risitas ao saber do Fim do Mundo:


https://www.youtube.com/watch?v=5OILKhHN7VI
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De Gaffe a 16.01.2019 às 13:54

O privado é realmente mais sexy quando se ri. 
:)
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De P. P. a 16.01.2019 às 13:31

Naquela que diz ser de NOS, ao mudarmos de tarifário temos de pagar 6€. Porquê? Para quê?
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De Gaffe a 16.01.2019 às 13:52

Então?!
Para a manutenção do cartão.
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De P. P. a 16.01.2019 às 14:31


Não acredito!
Sabes que fazem-no quer passes para tarifário mais ou menos dispendioso! Se pedirmos outra via de cartão temos que pagar outra quantia. Há muita liberdade nas nossas companhias de comunicações. 
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De Gaffe a 16.01.2019 às 15:35

Exactamente por existir essa espécie de "liberdade" é que abandonei o telemóvel.
Descobri que quem realmente me quer contactar, encontra outros meios. 


(e tenho o do serviço)
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De P. P. a 16.01.2019 às 15:44


Na Escola não temos o de serviço. Convenhamos que, o DT ou professores titulares, no caso do JI e 1.ºCEB deveriam ter. Mas com EE uso o e-mail. Até porque, nada como uma prova escrita.
Mas também tenho vindo a realizar essa desvinculação. 
Na verdade, não fosse a minha mãe, bastava-me o tablet. Adoro e-mails, daqueles como cartas, e o meu mensageiro preferido, dado poder usá-lo em IOS, Android e PC não é o eleito no nosso país: o Telegram.
Abraço.
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De Gaffe a 16.01.2019 às 16:01

Tão bom eu não fazer ideia do que é o JI, o DT, o 1º CEB e o EE!!!


Dá uma sensação reconfortante, porque isso deve doer.
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De P. P. a 16.01.2019 às 16:06


Ups...
O meu pedido de desculpas. Já oiço alguns colegas "Tu e as abreviaturas" LOL


JI = jardim de infância (referia-me às educadoras que usam os seus números pessoais ou um extra), DT= diretor de turma, EE= encarregado de educação e 1.ºCEB = 1.º Ciclo do Ensino Básico 


Também os pacotes das operadoras são outro pesadelo. Os preços anunciados nos sites nem sempre correspondem à realidade e para mudar… Ai a paciência que não tenho.
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De Gaffe a 16.01.2019 às 16:42

Imaginei que doía.
Confirma-se.


Estou farta das operadoras. Prefiro deixar de ter telemóvel, a ser roubada enquanto sorrio conformada com a porcaria que debitam.    
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De Anónimo a 16.01.2019 às 14:14

Não fazia parte dos meus planos de hoje passar aqui a esta hora mas uma vez que cá estamos...
Comentarei doutro modo, um tanto ou quanto mais tarde, um tanto ou quanto mais logo.
Por agora...
Este seu texto, embora o sarcasmo do registo seja un petit peu différent, faz-me lembrar um daqueles seus melhores momentos quando deixa que a imaginação se apodere dos movimentos técnicos da razão.
De modo figurativo, quando alarga o passo para nem de propósito rasgar a saia que trava.
Refiro-me a uma lápide já antiga em que enumerava uma série de dez mandamentos.
Era uma coisa gira de mente inquieta, cujos pontos que apenas recordo diziam isso é o que tu pensas e qualquer coisa que ligava com batatas fritas - não confundir des chips com des frites.
Como referi no início, comentário ao matadouro, um pouco mais logo talvez mais tarde.
Este texto só não se torna best-seller porque os dois novos amores de uma certa pivot, uma nova enciclopédia e um gajé qualquer de corazón partido são atuais sucessos de vendas.
PS: Escrevo ao abrigo do NAO.
Não carece de resposta.
Obrigado por permitir comentários anónimos no seu espaço de redação.
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De Gaffe a 16.01.2019 às 14:23

Vou então aguardar por si, que não é anónimo.
Creio já ter referido que reconheço a textura dos seus escritos.
;)


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De Anónimo a 16.01.2019 às 15:00


Para não lhe causar ansiedade e porque virei a agenda de pernas para baixo - claro que há pernas demasiado longas e pernas demasiado curtas - avanço sem avisar.
Só não sou anónimo porque o movimento atrai a atenção.

Quanto ao texto e assim muito por alto...
A Gaffe, a menina, apresenta neste excerto uma conjugação inédita de fatores - sou NAO, não esqueça.
Tomando a rédea a um episódio caricato, exemplo do que brota diariamente aos milhares nos trinta e um da banalidade social, joga com uma forma de relacionamento entre áreas aparentemente sem qualquer entendimento entre si para como disse um dia (...) treuzes quaiqueres, acabando por criar uma harmonia pitagórica perfeitamente independente do seu significado primeiro.
Quer dizer pega no absurdo isolado a transforma-o no rigor do absoluto.
Há um senão e sei-o agora por ter visto a luz com invulgar discernimento.
Quando confrontadas, as cabeças mais retrógradas - em cada dedo uma delas - não sabem como reagir.
Por isso a metamorfose que ocorre expressa uma das suas convicções mais sinistras - o medo.
Medo dos outros, essencialmente medo de si próprias por caírem em si inundadas, as mentes, na sua própria ignorância ainda que joguem em casa donos do seu mester.
É por isso que este tipo de ideias é tão difícil de laisser faire, laisser passer (il n'ya pas de fautes).
Parafraseando, não é a ideia que não presta, Você - não é a menina - é que não presta para tanta Filosofia por falta de bagagem.
Já enviei uma mensagem à Francisca.
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De Gaffe a 16.01.2019 às 15:58

Não me causa ansiedade uma espera, seja ela do tamanho que for. Por norma, se demorar, não me encontram. 

" Você - não é a menina - é que não presta para tanta Filosofia por falta de bagagem." - admito que não entendi, ou se entendi admito que possa estar a incorrer em falta.


Quem é a Francisca? Não se engane na destinatária.
(Sabia que francisca era o nome dado na idade média a um machado de dois gumes?)  


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De Anónimo a 16.01.2019 às 16:39

A ideia subjacente á questão que coloca é uma aparição de Carlos Reis, especialista em Eça de Queirós, num debate há uns anos na TV.
Comentava o douto que quando um aluno na sala de aula fazia uma observação desse tipo - o livrinho não presta - o Professor atiçava-lhe - ah...!!! - o senhor é que não presta para o livro.
Não sabia, não.
E sabe uma coisa? Sempre gostei de aprender e cada vez mais me agrada a minha ignorância porque posso embasbacar-me de espanto e regozijo e isso é boa parte daquilo que se designa felicidade.
Curiosamente, hoje entrei num espaço na capital, não vou dizer onde é mas fica ao lado da pâtisserie que serviu Isabel II, que é muito mais estonteante do que pensava - novamente ignorante de boca aberta a sondar.
Havia lá, no que aqui poderemos considerar uma cesta, uma lança e pelo menos dois machados.
Nunca me engano na destinatária. A destinatária é que pode não ser indicada para mim que sou escorregadio, animalesco e éter.
A Francisca é uma giraça que eu conheço.
Fala várias línguas, bebe whisky, gosta de dançar, é beta de vários sítios e é tão morena que faz lembrar uma das minhas sobrinhas.
Se a mensagem persistir sem resposta - é provável que necessite de construir um ou dois espaços entre as leituras que refaz - vou ter que me chegar junto a ela para lhe sussurrar de volta da gargantilha.
A expressão não conhecia como referi ao início mas sou medieval por heráldica.
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De Gaffe a 16.01.2019 às 16:58

Não simpatizo com Carlos Reis. 
A giraça morena que conhece, com certeza que lhe responderá. 




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De Anónimo a 16.01.2019 às 18:17

Eu simpatizo cada vez menos com cada vez menos especialistas mas gosto da frase que geralmente uso como minha mas como pediu esclarecimentos e eu não consigo de deixar de ser um mãos largas revelei-lhe as fontes.
Foi há muitos anos quando via esse tipo de TV.
Bem vistas as coisas poderão já ter passado duas décadas, será possível?
As ladies são sempre... comment dirais-je? um ah, ah, ah minha machadinha de dois gumes ou mais.
PS e última achega: acabo de lembrar-me que ao analisar manualmente um sinete de osso, num espaço comercial que não menciono, que exibia uma mancha pequeníssima, perguntei, isto é sangue?
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De Gaffe a 16.01.2019 às 20:52

Meu caro,
Um verdadeiro sinete tem sempre sangue.
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De Anónimo a 16.01.2019 às 17:01


Isso é o que tu pensas...
Envie-me o texto das batas fritas, por favor.Acho-o super lúcido e super lúdico.
Quero utilizá-lo como força motivadora e arma de arremesso nos tempos que se avizinham.
Se não me encontrar na sala de espera pode fazê-lo por pombo correio.
Obrigado.
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De Gaffe a 16.01.2019 às 18:12

Ah, agora tenho a certeza. 
Enganou-se no blog e, como tal, os seus comentários tornaram-se, para mim, incompreensíveis.
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De Anónimo a 16.01.2019 às 19:25

Houve aqui uma descoordenação.
Não há engano nenhum.
Batatas fritas...
Além do meu blog só sigo o seu, com mais ou menos intensidade.
Se encontrar esse texto remeta-mo como possa.
Senão, também não há problema.
Não vou mudar a minha opinião sobre o dito cujo nem sobre si.
A parte final significava que se não me enviasse o tal texto por aqui podia enviá-lo por mail.
Isto porque entre si e mim também não há telefone.
Nota: não pense que os textos supostamente mais objetivos são os mais fáceis de entender.
Talvez seja precisamente o contrário.
Veja-se a linguagem de médico, advogado, político... nada disso é peaners!
Oh Ah
https://www.youtube.com/watch?v=kKuseo9kZCY
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De Gaffe a 16.01.2019 às 20:48

Não me recordo de um texto meu onde existem batatas fritas!
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De Maria Araújo a 16.01.2019 às 18:56

Qualquer uma das operadoras, e outros serviços,  invadem, persistem, aborrecem, cansam.
Apetece mandá-las para o raio que as parta.



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De Gaffe a 16.01.2019 às 20:49

Sou mais prática. Mando-as à merda.
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De Pequeno caso sério a 16.01.2019 às 23:39

Betinha.
Havias de ouvir a senhora minha mãe a despachar essa malta. 
:))))))
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De Gaffe a 16.01.2019 às 23:59

Eu tento, mas parece que não sou convincente.
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De Sarin a 17.01.2019 às 06:43

"Desculpe interromper-lhe o início do discurso. Não vai conseguir negócio comigo. Como não tem tempo para perder, nem eu, liberto-o já e poderá procurar potenciais clientes. Eu não sou, e agradeço que retirem o meu número da vossa lista de contactos. Boa sorte e boas vendas".




Funciona.




Sobre a Altice e sobre a Chatice, quero dizer, as pensões e as plantações com retancha de 100%, apenas acrescento que podiam aceitar o voluntariado da 3.a Idade, o almoço seria uma retancha à pensão e a juventude pouparia nos pacotes de dados porque ou em conflito ou embevecida a ouvir os (mais) velhotes.
Portanto, nada acresci mas antes fiz um desvio, perdoe-me a Mlle Gaffe se a paciência não tiver saldo esgotado.
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De Gaffe a 17.01.2019 às 09:16

Comigo não funciona.
Não é diplomacia atirada ao lixo?

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