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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em nome próprio

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.19

Infanta Luisa Carlota de Borbón por Vicente Lópe

 

A Gaffe foi visitar uma amiga que deu à luz uma menina semanas antes do previsto.

 

A criança pesa cerca de três quilos e a mãe deve pesar menos, porque toda a vida se preocupou muitíssimo com as calorias que ingeria, apagando assíduas vezes algumas refeições e substituindo por uma ou duas maçãs o brutal cozido à portuguesa com que eram, ela e a amiga, brindadas pela Jacinta, algures no Douro. A Gaffe acabava sempre a comer, também, o lote da comparsa.

 

Uma lombriga lindíssima e loira e platinada e alta e elegante e Grace Kelly e tudo.

 

A Gaffe entrou no apartamento que o Hospital privadíssimo disponibilizou, pois que a amiga é chique e claustrofóbica, agarrada a um peluche gigantesco em forma de carro de bombeiros - existe, procurem. Bamboleando o dito, foi espreitar o rebento e ficou arrepiada.

 

A criança é belíssima. Um anjo, um querubim, uma fada, um unicórnio e todas essas melodias de encantar, juntas, aliadas, cúmplices, ligadas.

 

A Gaffe adorou.

A amiga nem tanto.

Choramingava, porque a menina não tinha a cara do nome que tinham escolhido.

 

A Gaffe olhou para todos os lados desconfiada. Provavelmente a amiga ainda estava toldada, ou a epidural tinha invadido o cérebro, ou estavam a tentar assassiná-la com alucinogénios contaminados, ou alguém tinha deixado a mão dentro do lugar por onde a petiza saiu e estava agora a ventriolocar, ou a Gaffe tinha albergado algures um vírus que agora se manifestava obrigando-a a ouvir vozes. Se aconteceu a Joana d’Arc, porque não a uma rapariga de melhores famílias?!

 

A Gaffe procurou aprofundar a causa da choraminguice.

A criança não tem cara de Maria Luísa.

- Já me sentia feliz se tivesse cara de Carlota!

Mas não. A criança tem cara de Micaela Andreia, ou de Patrícia Vanessa.

 

A Gaffe fica durante largos instantes em silêncio, daquele muito próximo do chamado silêncio aparvalhado. Abana os pequenos brilhantes que traz nas orelhas para que a amiga se escandalize com coisas mais sérias - sabendo-se que uma menina de boas famílias jamais usa brilhantes fora das capitais, é possível que a chorona foque a sua imbecilidade no brilho que se espalha na província - e balbucia depois:

- Não dês importância. Chama-lhe Maria Luísa. Ninguém vai reparar que a criança também tem cara de quem tem a mãe estúpida.

A amiga faz com que os olhos saltem das órbitas e mais apaziguada sorri um achas?! absolutamente delicioso e explica com detalhe a sua aflição.

 

Nas elites, nas elites altamente privilegiadas, a selecção é feita também através do nome próprio - não bastando o sobrenome - das criaturas candidatas ao poder. Jamais se aceitará nesses círculos herméticos e protegidíssimos, alguém com um nome capaz – alegadamente - de pingar sebo, azeite ou outras matérias ainda mais viscosas. É impossível os papás consentirem e abrirem os portões a uma candidata a nora, ou a quem pretendente ser o genro, chamada Yara Tatiana, ou àquele que dá pelo nome de Rúben Leandro.

 

Como não chorar baba e ranho se a criança não vem com cara de nome aceitável por gente que vale a pena?!    

 

Imagem - Infanta Luísa Carlota de Bourbon por Vicente López, 1819

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7 rabiscos

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De Maria Araújo a 13.03.2019 às 22:19

Micaela Andreia?!
Patrícia Vanessa?!
Que finesse!
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De Gaffe a 13.03.2019 às 23:48

:)))
Verdade. Existem!
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De Pequeno caso sério a 13.03.2019 às 22:55

Normalmente as "Marias Luísas" desta vida enrrolam - se com o jardineiro. Ou com o "létecista" . Ou com a "criadage".
Uma caturreiraaaaaaaaaa.

; )
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De Gaffe a 13.03.2019 às 23:42

E às vezes é exactamente isso que as salva.
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De Sónia Filipa Rito Teixeira a 14.03.2019 às 17:46

Eu adoro essas coisas dos nomes chiques e não chiques. =)
Por acaso a maioria dos nomes ditos chiques andam nos últimos anos a ser colocados em cabeças de crianças do protelariado.. Tantas Marias Luisas, Constanças, Carolinhas, Salvadores, Vicentes, etc que eu conheço de gente não fina e/ou gente que de repente se viu com algum dinheiro (sem a mínima critica, maioria das pessoas são minhas amigas)

Pode ser que os chiques para se protegerem comecem a percebeer que têm que que por realmente as Andreias Vanessas, é como um ciclo que se fecha =D

Fora gozo, não percebo mesmo quem coloca nomes porque é chique ou tendência, e o que acho mais giro são as pessoas amnésicas, que nunca gostaram de determinado nome e agora gostam e não percebem que é porque é chique. Amnésia selectiva é uma coisa gira, e eu que felizmente não sofro desse mal nem para mim própria, acho isso sim uma bimbalhice.

Eu gosto de 3 ou 4 nomes desde os meus 10-15 anos de idade e continuo a gostar dos mesmo nomes, não me afeta se são chiques ou não : para menina, Maria, Maria Inês, Raquel, Leonor Helena, Isabel e Elisa ; para menino Miguel , Gabriel, Leonel, Daniel e Manuel --> nota-se uns sons a que acho graça não é? os "elles" =D (podem dizer "alguns desses são nomes betos" , capaz mas gostava deles quando tinha 10 anos, vestia roupa dos ciganos ou roupa barata sem ser de marca, sim, era/sou classe baixa e vivia nos suburbios (daqueles a serio e não a 10 kms da metropole)

By de way, odeio os pomposos, Salvador ou Vicente ou Constáncia, ou Otávia ou como Caetana ou Pilar ou Noa (assim nomes "cheios de personalidade"). Juro que só me parecem nomes que colocam para parecer diferente e/ou chique. Mas cada um com as suas e metade das minhas amigas coloca esses nomes nos folhos.

Beijinhos =)

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De Gaffe a 14.03.2019 às 18:49

A verdade é que não vou ter de me preocupar com nomes seja de quem for.
:)
A verdade é que não dou grande importância ao assunto. Gosto dos nomes mais comuns. José ou Joaquim ou António, Luísa, Leonor ou Isabel, são nomes que me agradam.

Era o meu avô que escolhia os nomes dos netos e das netas. Abria Fernão Lopes e encontrava o nome que teria a sua descendência.
Creio que comigo o jogo não resultou. A página que abriu continha apenas nomes masculinos, segundo sei. Recorreu a outra história.
:)
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De Gaffe a 14.03.2019 às 19:26

Não. Não posso manter o que disse tão levianamente.
O meu avô escolheu o meu nome, ao contrário do que sempre fazia - ou seja, abrindo uma página de Fernão Lopes -, porque assim o quis.
Agora é que está bem.

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