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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em recortes

rabiscado pela Gaffe, em 10.01.17

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A Gaffe tem deparado com um crescente uso de publicações onde pequenos mimos esbardalham frases de autores normalmente já falecidos e em consequência incapazes de protestar.

 

São coisinhas floreadas, com fundos idílicos ou rebuscados traços de designers de capoeira onde são usadas em letras tombadas e muito manuais pequenas tiradas, arrancadas dos contextos, que pululam de beleza interior.

 

Resumem tudo aquilo que os responsáveis por estas maldades sabem dos autores que vão ilustrando e ajustam-se - e confinam-se - a recortes do que parece adequado à ocasião pindérica e normalmente banal que tentam traduzir com elevados cogitares. Os grandes pensadores da humanidade dedicaram um tempinho e um cantito do cérebro às quezílias das comadres e percalços dos compadres, substituindo tudo o que estes usurários de triciclos emproados não são capazes de urdir ou pedalar, pelas palavras que foram por eles ditas na avalanche genial de páginas que foram por eles calcorreadas. Há sempre um pedacinho - um lancezito, um pedalzinho, um niquinho de caminho -, que pode ser aproveitado para desancar o parceiro que não fez um like nas fotos do aniversário do petiz, mostrando-se ao mesmo tempo que se é conhecedor e estudioso dos pobres pensadores.

 

Os autores mais citados, segundo um exaustivo estudo desta rapariga incansável, são Dali Lama, Oscar Wilde e Nietzsche.

 

O primeiro, porque é um fofo - embora mal vestido - e faz realçar as nossas vivências nobres, pacíficas, de grande beleza interior, a nossa tendência para a meditação, para o nosso profundo desejo de abdicar de terrenos anseios e pecaminosos desejos, a nossa capacidade profunda de olharmos o profundo capaz de elevação, solidariedade, de purificação e de glorificação da alma que já foi pedra e será, por ventura e encarnação futura, aquilo que usualmente parecem os que usam o senhor tibetano como arma de arremesso: um ratito que rouba a rolha da garrafa do rei da Prússia.   

Acompanhadas por imagens de velinhas ou de incenso, as tiradas são sempre uma bofetada de transcendência no nosso espírito vácuo, embora possuído por Maquiavel.  

 

O segundo, porque é absolutamente dandy  o uso da ironia e do spleen alheios.

É sempre adequada, seja em que circunstância for, a seta que se dispara com o arco do autor e nem sequer precisamos de usar a cartola da discriminação ou sentir ou conhecer a humilhação a que foi sujeita a coragem e a ousadia do maravilhoso amante de Bosie e o seu torpor niilista.

Não lendo Teleny, não é necessário entender o reverso da medalha. A ácida mordacidade e a capacidade destrutiva da ironia de Oscar Wilde, quando emolduradas por um friso de florinhas negras sobre fundo sépia, é perfeitamente capaz de ajudar a fustigar os outros que não agradam à nossa bonita maneira de ser.

 

Finalmente Nietzsche.

É assustadora a quantidade de gente que acredita ser a reencarnação de Lou Andreas-Salomé e que pode transformar um imponente bigode no veículo das suas alfinetadas bacocas e, no entanto, é simultaneamente compreensível - salvaguardando-se a distância que se exige, por demais evidente, e numa aproximação muito infeliz -, tendo em consideração o que os nazis fizeram ao seu pensamento, adequando-o e manipulando-o de modo a que fosse passível de usar como esteio da hecatombe. Nietzsche é muito dado a estas perdições.

O uso de pedacinhos soltos de Nietzsche, em letras brancas garrafais sobre rectângulos negros com a sua esfinge apensa, é apenas o reconhecer da dimensão do desconhecimento da brutalidade imensa da força filosófica do pensador e é um dos motivos para se sentir vergonha alheia.  

 

A Gaffe, depois de se esbardalhar contra tantos recortes de mimoso corte destes três potentados, acaba por humildemente colar num quadradinho com lacinhos e fitinhas cor-de-rosa, sustentadas por ursinhos de peluche, a frase lapidar da Filosofia Primordial, com raízes no Húmus Primário, na Origem e nos ramos transversais a todo o pensamento humano.

 

Ide todos bardamerda.

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24 rabiscos

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De Quarentona a 10.01.2017 às 12:41

Ahahahahahah :D
Nada como o uso do coloquialismo, assim há a certeza de que a mensagem foi recebida e bem interpretada, caso contrário corre-se o risco dos visados não conseguirem atingir a erudição e a fina ironia filosófica :))))
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De Gaffe a 10.01.2017 às 12:59

Ou de nos enfiarem com um quadradinho com uma frase lapidar de um morto qualquer.
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De Maria Araújo a 10.01.2017 às 12:52

Ahahahaha!
E a fantástica imagem é mesmo isso " ide todos bardamerda".
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De Gaffe a 10.01.2017 às 12:59

Uma canseira!
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De C.S. a 10.01.2017 às 13:13

Adorei! Ide todos, pode ser que as redes sociais fiquem mais limpinhas. :D
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De Gaffe a 10.01.2017 às 13:41

Ou cravadinhas de prospectos condenatórios com resmas de frases dos mortos.
;)
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De Corvo a 10.01.2017 às 13:56

Oh Diabo!
Mas afinal por onde raios de caminhos a menina andou para se enervar tanto?
Tem de ter mais cuidado e escolher caminhos aplainados e sem escolhos onde não quebre o salto.
Ide bardamerda, bem: como a letra está inclinada conserva a elegância na mesma, ou, quiçá, aumenta-a.
:)
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De Gaffe a 10.01.2017 às 14:09

Concordo, meu caro Corvo.
A inclinação salvaguarda a elegância e desbrava o caminho mais esconso abrindo toda uma luz e protegendo todos os saltos.

Já agora:

"Nunca menosprezes a inclinação do destino, pois se não te inclinas até o rabo guinas."
Autor desconhecido, muito famoso e com certeza morto.
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De Corvo a 10.01.2017 às 14:49

Nunca menosprezes o caminho de UM/A iluminado/A se queres andar sem percalço; como diz o velho ditado acabadinho de inventar.
:)))
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De Gaffe a 10.01.2017 às 14:50

"(...) ou então compra uma laterna".

Esqueceu o final.
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De M.J. a 10.01.2017 às 14:26

faltam os ursinhos, as fitinhas, os lacinhos e afins debaixo da tua frase.
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De Gaffe a 10.01.2017 às 14:40

Faltam, sim.
Mandei-os acompanhar os visados.
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De Fleuma a 10.01.2017 às 17:17

Nada, mas nada me irrita mais do que o Lama! Aquele pacifismo mentiroso e aquele hábito de a tudo dar a face, irrita-me! Para mais, que raio de doutrina é aquela? Sempre de cabeça assertiva?

Oscar Wilde, lamento. Também não. Apesar de apreciar a ironia ...

A Gaffe já dever ter percebido a minha paixão cega por Nietzsche e Emil Cioran. Antes ficava absolutamente irritado com as citações, por razões óbvias. Agora não. Sei que se perguntarmos aos que citam Nietzsche nem sequer sabem pronunciar o nome! Quanto mais saber do que fala o filosofo.

É muito verdade Gaffe - colocar Nietzsche na mesma caixa que o nazismo não é apenas ser ignorante, é ser estúpido. Trata-se disso mesmo: Nietzsche foi um pensador violento e a sua força filosófica é tão intensa que se tornou a base da nossa sociedade, tanto no social, económico bem como na mera ideia de pensar o estado. Basta olhar para o conceito "Übermensch", o super homem. De uma nação sobre outra. De uma ideologia, etc. Pode concordar-se ou não. Mas nenhuma outra forma de pensar está tão presente e é tão estupidamente citada! Quem o faz e desconhece, apenas porque este "monstro" é assustador e assim se pode disfarçar a falta de compreensão, deveria saber que Nietzsche abominava certas almas estúpidas.

Perdão pelo tamanho comentário.

Saúde,
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De Gaffe a 10.01.2017 às 18:07

Mas apesar das duas posições adversas aos dois primeiros, temos de assumir que quer um, quer o outro, acabam referências e referenciais para uma parte significativa dos estudiosos. Gosto particularmente da ironia e dessa espécie de "savoir-faire" de certa forma trágico, de certo modo circense, que Wilde imprimiu às suas vivências (não propriamente à sua obra).

Repare no entanto que não é de todo imbecil fazer notar que Nietzsche foi usurpado, roubado e deturpado pelo pensamento nazi - a sua anotação relativa ao super homem é exemplo dessa anomalia, pois que, depois de manipulada, essa evocação, essa construção filosófica, serviu para que os pensadores do regime enganosamente dessem fundamento à teoria terrível que iam construindo. O pensamento de Nietzsche foi manipulado de modo atroz para coadjuvar uma das mais tenebrosas maquinações da humanidade. Esse facto prova apenas a dimensão universal do pensador e não a sua terrena brutalidade ou implícita adesão ao terror. Os ratos sempre conspurcaram a água mais límpida e, para agravar, sabe bem melhor do que que as águas de Nietzsche nem sempre são cristalinas. Há profundidades que nos provocam e densidades que podem ser tenebrosamente lidas.
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De Pequeno caso sério a 10.01.2017 às 21:37

Nada como falar claro para que se perceba bem a mensagem.
É por estas e por outras que eu não percebo porque se insurgem tanto contra os palavrões.
Simples , rápido e eficaz.
Tão eficaz que até quem lê Nietzsche ou Oscar Wilde entende.
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De Gaffe a 10.01.2017 às 22:13

Mas eu nunca me insurgi contra os "palavrões"!

Mas nem sempre são eficazes. Repara na quantidade de tiradas enfeitadas que por certo apareceu hoje a deslizar por toda a net, mesmo depois da grande e poderosa frase de carácter universalista com que termino o post.
:)))
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De Pequeno caso sério a 10.01.2017 às 22:47

Eu sei minha querida.
Tal como alguém disse lá no blog da Filipa , "os palavrões são como os saltos altos : nem toda a gente os pode/sabe usar."

Quanto à eficácia das frases de carácter universalista aplica-se o mesmo principio dos saltos altos: nem toda a gente as pode/sabe usar.

Mas tu, minha amiga, ficas maravilhosamente quando usas "saltos altos". Devias largar as "sabrinas". De vez.
;)
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De Gaffe a 10.01.2017 às 23:19

:)
Creio que nunca usei sabrinas!
Mas por mais estranho que pareça, penso que usar sabrinas "comme il faut" é capaz de ser tão difícil como usar saltos altos. Carla Bruni que o diga.
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De Rapunzel a 11.01.2017 às 12:35

O sarcasmo, a ironia e a inteligência sempre me seduziram. Vou ser muito breve. Numa entrevista ao vivo a Lobo Antunes, o jornalista Carlos Vaz Marques pediu ao escritor que partilhasse com o público os títulos de três livros da sua vida; ele sorriu sem fingimentos e contou que o mesmo pedido fora feito um dia a Oscar Wilde que, com a sua graça inigualável, terá respondido: Como posso avançar três livros, se ainda só escrevi dois?

I rest my case.
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De Gaffe a 11.01.2017 às 13:16

Gosto muito de Oscar Wilde, assim, posto a viver, embora não seja fã da obra.
:)
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De Rapunzel a 11.01.2017 às 14:20

Exactamente. Para mim, o legado que ele deixou foi outro. Foi principalmente sociológico. Não sou grande fã da sua obra, apesar de ter lido alguma coisa, mas acho as suas "quotes", principalmente quando avaliamos o intervalo temporal, absolutamente brilhantes.
Essa foi outra biografia que devorei ainda muito jovem, está em casa dos meus pais, mas é em inglês e não português.
:)
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De Gaffe a 11.01.2017 às 15:38

"O Retrato de Dorian Gray" é muito fraquito, sim senhora.

Leu Teleny? É uma obra que lhe é atribuída e bastante ... marota.
Concordo consigo quando refere as tiradas fantásticas de OW. O problema é que não as quero ler chapadas por todo lado e emolduradas por florinhas.
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De Rapunzel a 11.01.2017 às 20:46

Nunca li Teleny. O único que li foi "O retrato de Dorian Gray" e ficou longe de me cativar. No entanto, a história de vida comoveu-me imenso, a família afastou-se, mulher e filhos alteraram o nome, enfim... Solidão total. Com uma excepção, à saída da prisão tinha à espera dele um amigo, Robert Ross, que terá sido amante dele e no fundo teria um papel de editor. Tomou conta dele e esteve sempre presente até à sua morte, sepultura inclusive. É uma história trágica mas é bonito saber, que pelo menos, teve um amigo que lhe estendeu e segurou a mão.
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De Gaffe a 11.01.2017 às 21:43

É fascinante e intrigante o envolvimento de O.W. com Bosie.
Belíssimo, mesmo hoje, este loiro vagamente tímido deixa-me muito curiosa.

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