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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe embruxada

rabiscado pela Gaffe, em 02.02.17

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Era uma mulher jovem. De busto anafado, apertado em camisolas justas de malha com borbotos. Camisolas coloridas. Verdes bandeira, vermelhas sanguíneas, amarelas solares, azuis de mar de Verão. Camisolas a contradizer o sorriso mostarda - sinistro por não se ver nos olhos -, com que barrava o caminho quando lhe perguntavam se estava à espera de vez.  

Via-a todas as tardes sentada de saia travada a compor os joelhos descobertos, de camisola berrante a apertar o busto roliço, a sorrir mostarda quando lhe perguntavam se esperava a vez.  

Sempre calada. Sempre à espreita.

Vinha com uma criança que sentava durante três horas ao seu lado. Uma menina de pouco mais de quatro anos de camisolas tristes, sem bandeiras e sem sóis desbravados. Camisolas só com borbotos.

Durante três horas as duas sentadas, uma a fazer os olhos sorrir em desafio imbecil e a outra a desafiar a imbecilidade de ficar ali a entristecer, esperavam o homem.

 

O marido, requalificado pelo governo aos cinquenta anos, ficava-se durante as três horas que durava a tarde atrás do balcão a requalificar-se. Era um homem magro, alto, curvo como a piedade, de óculos que a desilusão embaciava e tornava redondos como é de esperar das desilusões que nos ajudam a ver.

 

Pedi-lhe um dia para evitar que a mulher o esperasse ali, com a filha triste que enrolava nas horas os desenganos precoces. Disse-me que tentou. Não conseguiu. A mulher e a filha continuaram a vir todas as tardes. Sentavam-se e esperavam que o homem se requalificasse.  

 

Proibi.

 

Dias depois do meu decreto irrevogável que as impedia de esperar, encontrei em cima do capot do meu carro um pão seco, empedernido, sujo e com uma mecha de cabelos nauseabundos espetados naquela pedra de centeio. Ao tentar com uma folha de papel levar o nojo ao lixo – ai, menina que é bruxedo! -, vi, escondidas, a mulher de camisola berrante com borbotos com a criança agarrada à saia travada compostinha nos joelhos.

 

Era a criança que sorria só com a boca.  

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Gavetas:


10 rabiscos

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De Novembro a 02.02.2017 às 20:29

Oh! gente esquisita....
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De Gaffe a 02.02.2017 às 22:08

Eu diria que foi um bocadinho sinistro.
:(
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De M.J. a 03.02.2017 às 11:31

absolutamente bem escrito. melhor do que o episódio, são as palavras com que o moldaste.
li no dia em que foi escrito e senti-me a ler eça.
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De Gaffe a 03.02.2017 às 11:34

Tão bom ouvir-te.
:)))
Nunca me comentas e eu sinto tanta falta da tua opinião.

(Não exageres, meu amor, que fico envergonhada ... Essa é que é Eça.)
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De M.J. a 03.02.2017 às 11:35

desculpa. leio-te todos os dias. esqueço-me que se não disser nada não me faço ouvir, nos gritos que lanço na leitura.

gosto de ti.
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De Gaffe a 03.02.2017 às 13:19

Mas eu TENHO de saber que estás por perto.
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De Maria Araújo a 06.02.2017 às 21:49



Miséria de vida.
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De Gaffe a 06.02.2017 às 22:32

Suspeito que é só miséria. De vida tem tão pouco!
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De Maria Araújo a 06.02.2017 às 22:42

Sem dúvida, Gaffe.
De vida tem tão pouco.
Não pensei nesse lado ( da vida).
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De Gaffe a 06.02.2017 às 23:43

Confesso que não penso muitas vezes nestas vidas também.

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