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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe encarpada

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.18

Inverno.jpg

Foram decepadas as hortênsias. Em bisel, um golpe curto, quase rente ao chão.

A mágoa de as ver tolhidas pelo Inverno; a saudade dos globos de cor anil, azul-cobalto, enferrujados pelo frio e a tristeza do destino igual ao das sardinheiras de Espanha que eclodiram gigantes como astros de flores ensanguentadas, são amornecidas pelas promessas geométricas das Black Lace que pesam nas japoneiras, em segunda linha, de troncos retorcidos de tão velhos.

Em breve - o mais tardar, Fevereiro - serão o caminho da cisterna.

 

Agora não.

 

O caminho da cisterna é uma nudez entretecida de névoa e de gestos negros de raízes que rasgam a superfície da terra. É o parir do Inverno. Os dedos ríspidos de criaturas cegas pela geada das manhãs dos frios da terra que os gerou. Este estarrecido espanto de sentirmos o silêncio a abrir os interstícios deixados pela morte das pétalas.

O caminho da cisterna é labiríntico. Não pelo traçado que dele se fez, mas por estes dedos que se distendem e que se cravam depois nos lanços mais distantes.

 

Às vezes, há minúsculas passos de fantasmas nas águas que tombam nas ausências das sombras dos teixos. Às vezes, passa um pássaro enlouquecido pelos gritos dos pavões encharcados de frio. Às vezes, a casa é tão distante que nela não entramos sem ter os pés lanhados. Às vezes, a cisterna aberta em círculo cor de chumbo, estanca-nos a vida. Sentimos e há raízes, há dedos das raízes a crescer-nos nas veias, a trespassar-nos as veias, a seguir-nos nas veias.

Às vezes, acabamos por ser frio.

 

As carpas imóveis do lago longe, longe, tão longe daqui, abrem as guelras perto das asas do anjo de pedra.

 

Às vezes, abrem-se as pedras do lago do meu peito e dentro das raízes da cisterna voam carpas. 

 

Chega o Inverno. 

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2 rabiscos

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De Fleuma a 14.11.2018 às 18:27

Isto Gaffe.

Pensamentos e olhares transformados em palavras.

Como deve ser. Como justificação do erro que é desejar igualdade. Todos escrevemos e sentimos mas ainda bem que a Gaffe se recusa a ser igual a tantos outros.

Abraço.
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De Gaffe a 14.11.2018 às 19:18

Meu querido Fleuma!
Eu?! Eu que apenas sei pasmar e durante horas ficar muda perante o que de si sei ler, perante o homem único, absolutamente único e inigualável que é e que se revela como um facto. Implacavelmente.

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