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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe engraçadinha

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.16

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Quando um líder partidário escolheu atribuir a derrota eleitoral à presença de engraçadinhas na disputa, esquecendo ou omitindo - com piada - quem realmente o venceu, mantive-me em silêncio envergonhado. Na verdade, não havia muita coisa para dizer.

 

No entanto, acabo a perceber que este engraçadinha é usado muito mais do que se pensa e abrange outras áreas, outras situações e outras realidades.

 

Leio e deixo de ser pacífica.

 

Tornou-se banal afirmar que existe desemprego porque ninguém quer trabalhar. É aplaudido quem usa este petardo para, depois de o arremessar, ficar de mãos livres para se atirar ao trabalho, porque por norma é gente que trabalha imenso.

Os desempregados são os engraçadinhas neste caso.

 

São injustificáveis, são censuráveis, são execráveis, os jovens párias que se recusam a limpar as sanitas, a fazer os recaditos, a empilhar os tijolos, a embalar os lanches dos meninos, apanhar morangos no estrangeiro ou a servir de escadote na oficina - por um ou dois meses e a recibo verde -, apenas porque criaram expectativas demasiado altas, ou sonharam com exagerada força, ou ambicionaram exercer a profissão para a qual se prepararam durante tantos anos supérfluos. Se não há pão comam brioches!

É absurdo que um eventual patrão fique sem mão-de-obra durante um mês inteiro, apenas porque os convidados laborais lhe atiram à cara que, caso aceitem a generosa oferta de verde ocupação, ficam sem tempo para a família e não é nada cínico contrapor que se chegam do desemprego, já tiveram tempo de sobra para dedicar aos seus. Afinal, findo o mês, voltarão à doce tranquilidade familiar a tempo inteiro e com um pecúlio que permite que a despensa responda pelo menos durante duas ou três semanas mais.

É escandaloso que se seja obrigado a ter saudades dos brasileiros, paus para todas as colheres, capazes de ficar sem pele e sem carne por amor à labuta e gratidão ao patrão, quando há estes engraçadinhas de costas ao alto, a recusar a ajuda que tão prestimosamente se lhes oferece em troca de dez horas diárias de segurança sazonal sem Segurança Social.

 

O homem não foi feito para trabalhar, diria Agostinho da Silva. Subscrevo. Odeio trabalhar, assumo, mas acredito ao mesmo tempo que ninguém deveria morrer de amores pelo trabalho ao ponto de lhe sacrificar a vida ou mesmo um miserável mês a recibo verde. Admito que exista gente que depende parasitariamente de subsídios, mas fazer brotar afirmações de travo salazarento, atribuindo a causa do desemprego aos engraçadinhas que preferem ficar com a namorada, aos engraçadinhas que se queixam de dores das costas - que idiotice! -, aos engraçadinhas que trabalham à noite e não conseguem deixar de morrer de dia - que patetice! -, em vez de se vergarem aos cêntimos que se lhes oferece em troca de um mês inteirinho de dez horas diárias de trabalho, é esperar que daqui a uma ou duas décadas, os meninos que se mascaram agora de piratas e que são os seus, se tornem capitães de uma caravela de sucesso que desfraldam as velas que conhecem e que por amor foram escolhendo. É reconhecer que vale tudo, mesmo a submissão ao que é indigno, desde que coser os horizontes que avistamos à sola dos sapatos, nos dê um mês de pão e de água benta.  

 

De acordo com as profecias de TODA a gente, as embarcações disponíveis num futuro próximo serão canoas de papel e o curso de Medicina provavelmente deixará de ser a corda a que se agarram apenas e só os que têm média. Seria de todo aconselhável abandonarmos o conceito de engraçadinha que aplicamos a torto e a direito, à esquerda e à direita, e começarmos a procurar construir navios pelo menos mais sérios. O avesso será ver os meninos que agora se mascaram de piratas a marinar também no desemprego e os papás de dedos cruzados a tentar remar contra a maré.

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24 rabiscos

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De M.J. a 10.02.2016 às 11:29

uiiiiii
vais receber tanto tau-tau...
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De Gaffe a 10.02.2016 às 11:31

Sabes que não me importo?!

Já estou tão farta destes benevolentes oportunismos mascarados de indignação social.
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De M.J. a 10.02.2016 às 11:36

ai meu amor... as coisas que eu ouço e vejo todos os dias. as afirmações dessas, como as de cima, que andam espalhadas aí ao vento...

às vezes tenho vergonha não do que ouço mas da minha capacidade de ouvir.
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De Gaffe a 10.02.2016 às 11:48

Ouço barbaridades, pelo menos aquilo que considero como tal, a toda a hora, mas não consigo ficar quieta por muito tempo quando as vejo abertas como bandeiras da razão inalterável e omnipresente.
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De Anónimo a 10.02.2016 às 11:36

Comentário apagado.
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De Gaffe a 10.02.2016 às 11:43

Não!
Não há dificuldade em encontrar gente que quer e que precisa de trabalhar.
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De Alice Alfazema a 10.02.2016 às 11:40

Eu também achei esse texto muito engraçadinho, e os comentários ao mesmo têm imensa graça. Assim como também acho imensa graça a quem me diz, que quem quer trabalho tem sempre, trabalho não emprego! Isto porque o trabalho tem que ser uma coisa muito sofrida, quase sem direitos, mas muitas obrigações, porque ser-se patrão é quase uma coisa divina, que se faz sozinho...é tudo por obra e "graça" do espírito santo, daquele lá de cima, não do outro que anda por aí.
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De Gaffe a 10.02.2016 às 11:46

O que me incomoda é a inconsciência a raiar a sobranceria de quem o diz.
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De Quarentona a 10.02.2016 às 13:12

De facto, trabalho há por aí aos pontapés, exploração também existe na mesma medida... uma chatice, esta gente que não se deixa explorar... aaaahhh... quem dera cá a escravatura, dava tanto jeito... onde andam os iluminados que a aboliram?!
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De Gaffe a 10.02.2016 às 13:40

Há imensas formas de exploração. Há mesmo a abençoada e a benemérita, a dedicada, a amável, a educada, a prestável, a humanitária ... ...
Uma derrocada delas.
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De Quarentona a 10.02.2016 às 14:10

Sim, sim! E são também as chamadas "Jonézices" para fazer pendant!
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De Gaffe a 10.02.2016 às 14:30

Fazem pendant e aplaudem logo que desocupem as mãos que agarram os pobrezinhos pelo cachaço.
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De azulmar a 10.02.2016 às 13:48

Bravo!
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De Gaffe a 10.02.2016 às 14:05

:)
Obrigada! Fico contente por concordares!
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De Carla a 10.02.2016 às 13:57

Correndo tudo bem, dentro de pouco tempo serei «patroa» e vivo angustiada com os trabalhadores que ainda não tenho.

Não consigo conceber a ideia de os tratar com a indignidade com que fui tratada, aproveitar-me e explorá-los.
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De Gaffe a 10.02.2016 às 14:05

Desde que não existam afirmações como a que originou estas tolices, há um indício de que irá haver respeito.
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De Psicogata a 10.02.2016 às 15:10

Belíssimo texto.
Se o texto que referes é mau os comentários até doem. Sempre que vejo alguém feliz por ter um trabalho precário até fico com urticária.
É muito fácil cair na tentação de generalizar e é verdade que ainda vai havendo trabalho (exploração/escravidão) mas, felizmente a nova geração já não está muito para aí virada, têm outras opções e ainda bem. A estabilidade financeira dos pais também lhes permite explorar outros caminhos.
Nunca poderemos ser um grande país enquanto existirem pessoas conformadas com a precariedade laboral, eu acredito e entendo que me digam que não têm outra opção, mas conformarem-se e agradecerem por isso já ultrapassa completamente a minha compreensão.
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De Gaffe a 10.02.2016 às 15:39

Os comentários que foram feitos são confrangedores e, de certa forma, assustam porque revelam desinformação e leviandade.
Mas esta é apenas a minha opinião. Haverá quem discorde e apoie incondicionalmente este tipo de raciocínio e este tipo de atitude perante aqueles que são obrigados a viver "abaixo das suas potencialidades e possibilidades".

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De Psicogata a 10.02.2016 às 15:43

Tenho horror a tudo o que nivele as pessoas por baixo, acho mesmo que foi esse o motivo que fez com que o comunismo não funcionasse.
Por essa ordem de ideias devíamos dar graças por estarmos a respirar! As pessoas têm sonhos e devem persegui-los, a vida não faz sentido sem realização seja ela em que campo for.
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De Gaffe a 10.02.2016 às 16:27

Admito que haja realização a limpar sanitas públicas ou a colar selos, mas é inacreditável que se condenem desempregados apenas porque recusam aceitar a mediocridade do "mal, o menos" ou a abdicar do que sonharam e daquilo porque lutaram uma quantidade anos de estudo, sendo o menos próximo do nada e parecido com oportunismo de caserna abençoada.

Fico irritada, pois que fico.
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De Psicogata a 10.02.2016 às 16:28

Já somos duas. Especialmente porque a maioria das vezes quem critica, critica do alto do poleiro.
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De Gaffe a 10.02.2016 às 16:33

Nesta altura do campeonato, o poleiro pode desabar a todo o instante e deixar de existir para herança dos pintainhos de quem o ocupa.
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De Psicogata a 10.02.2016 às 16:40

É por isso que não se deve cuspir para o ar...
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De eduardo a 11.02.2016 às 00:01

Boa noite menina,
Vivemos tempos deslumbrantes por bons motivos, supõe-se.
Também somos personagens da sociedade do espetáculo que já não prescinde de andar de braço dado com a sociedade da bazófia.
É um ver se te avias.
Permita-me um conselho irresponsável, deixe-se de leituras banais, essas rugas.
Bjs
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De Gaffe a 11.02.2016 às 09:37

Sabe tão bem como eu que é na banalidade que se escondem os demónios.

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