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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe escreve a Manuel Alegre

rabiscado pela Gaffe, em 21.11.18

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Caríssimo Manel,

 

Devo, antes de tudo, apresentar o meu pedido de desculpa por esta ser uma carta aberta. A culpa, meu querido, também é sua, pois que defende aquelas concentrações maçadoras de gente com imensos cartazes ruidosos. Ficamos sem empregadas para lamber os envelopes. Desde já lhe digo, meu caro, que não volto a corrigir os erros ortográficos que se vão lendo nos papéis que aquela gente leva aos gritos para as manifestações. Nunca mais lhes digo que AQUI NÃO Á TACHOS tem mais um h – até porque ambos sabemos que não é verdade o que lá se diz. As nossas cozinhas são imensas e dizem-me que bem apetrechadas.

 

Depois, tenho de assumir que nunca compreendi a poesia ou a literatura. São nuances de uma rapariga simples. Este dado, meu caro, faz com que o entenda muitíssimo bem. É um silogismo tão acessível, não é?

 

Apreendo que a si ninguém o cala e depreendo que os amigos escasseiam. É o chamado já não há cu p’ra ti - como diria o resignado Rei de Espanha se não fosse de boas famílias -, mas sou obrigada a concordar consigo quando chama à lide Picasso, Goya, Hemingway ou Joana Vasconcelos, nas arenas que defende.

 

É evidentemente secundário reconhecer que a única vez que Picasso não foi um escroque para as mulheres - mulheres de carne e osso - foi quando pintou A Primeira Comunhão, ou mesmo ignorar que o genial artista não virava os cúbicos costados ao estalinismo; é um absurdo pensar em Goya no El Tres de Mayo en Madrid e convém esquecer a forma como Hemingway se finou, porque se referirmos estes pormenores, baralhamos imensa coisa que deixa então de servir para figurar na moldura humana das arenas que lhe são caras. Eu sei, meu querido poeta, que não referiu Joana Vasconcelos, mas apeteceu-me muito falar nela, assim como não quer era coisa - e as coisas que ela faz - e porque talvez assim alguém se lembre de lhe espetar uma ou duas bandarilhas.

 

Estou consigo, meu querido, quando faz por esquecer D. Maria II que proibiu as touradas em Portugal por as considerar um retrocesso civilizacional.

A real senhora já morreu, era um camafeu – o que não interessa nada, pois que era rainha e nós, lindíssimos, só temos o subsídio de férias - e  com certeza nunca viu, mais ao perto, aqueles machos corajosos, viris, testoteronos, testosteronados, enfiados em fatos de spandex, de latex, de lycra - seja o que for, estica - repletos de lanteloujas, berloques, vidrilhos e galões dourados e polidos que lhes moldam os rabos redondinhos e lhes desenham as pilas, para humilhação dos bichos e alegria das fêmeas – não digo bichas para não ser mal entendida - e de sabrinas a fazer pendant com o bolero.

Se tivessem forçado Sua Majestade – que nunca se pôs a jeito, que se saiba -  a enfiar um, pelo olho dentro, para além de poder exigir indemnização, com certeza que não manteria a sua posição.

 

Infelizmente, poeta, não faço parte da moldura humana do que defende de modo tão viril. Não é, de todo, por pirraça, mas, se reparar, o caixilho feminino em que figuraria se a tal pertencesse, é sempre composto por todas as versões de cinhas jardim e lilis caneças, nas suas centenas de etapas e metamorfoses, e  não me diga, meu querido, que este facto não é um retrocesso civilizacional que desta vez fico mesmo zangada consigo.  

 

Devo dizer-lhe, caríssimo, para o tranquilizar - apesar de achar que existem outras formas dos meninos compararem os tamanhos das pilas -, que os bichos também não me interessam. Sabe como odeio padrões tigresse e estampados a picar leopardos. Fiquei mesmo traumatizada quando vi a minha massagista com umas nails zebradas. Senti, estarrecida, que iria ser apunhalada, numa selva qualquer, sem assistência religiosa. Sabe que odeio as vacas que não se cansam de me acusar de sobranceria - são amorosas, eu sei, mas não lhes pedi opinião -, e que não simpatizo grandemente com os cavalos dos empregados que fazem manifestações e me deixam as coisas por tratar - sobretudo o puro-sangue que me limpa a piscina e que usa uns calções tão exíguos que lhe deixam a bandarilha toda a notar-se.    

 

Finalmente, meu caro, para me sentir digna de a si me dirigir, cito Voltaire à laia de desculpa:

 

Escrevo-vos uma longa carta, porque não tenho tempo de a escrever breve.

 

Então vá. Olé

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27 rabiscos

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De Psicogata a 21.11.2018 às 12:29

Muito bom! Adorava que ele lesse esta carta.
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De Gaffe a 21.11.2018 às 13:36

Acreditas que não me importo um niquinho se ele lê, ou não lê, o que quer que seja?!
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De Psicogata a 21.11.2018 às 14:07

A verdade seja dita, não é relevante, especialmente porque não iria ver a sua expressão ;)
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De Gaffe a 21.11.2018 às 14:15

o problema é que penso que o senhor já não tem expressão - de qualquer espécie.
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De Psicogata a 21.11.2018 às 14:38

Ele bem tenta, até se esforça, mas já não consegue.
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De Gaffe a 21.11.2018 às 15:00

É o chamado "tem dias".
Estes últimos não calharam.
;)
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De j.campião a 21.11.2018 às 12:35

Aqui no Montijo vamos fazendo cada vez menos touradas e assistimos, apenas e silenciosamente, às largadas do futuro aeroporto, o que é quase a mesma coisa e só mudam os bois.
Não sou contra as touradas, embora as considere bárbaras (bárbaras como as pessoas que na realidade somos, embora gostemos de fingir que não) mas quando vejo alguém tão Alegre defender as touradas com as pinturas e os livros dos outros, necessito mesmo de ler, logo a seguir, um texto como o teu para voltar a recuperar da vertigem.
Obrigado, Gaffe.
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De Gaffe a 21.11.2018 às 13:35

:)

O Alegre está bastante ... idoso e parece já confundir muitas coisas. Ninguém o cala. Às vezes, penso se agora não valia a pena tentar. Poupava-o ao ridículo. Apesar de tudo, o senhor não merece.
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De j.campião a 21.11.2018 às 21:24

Ora aqui está um assunto também muito interessante que não vamos explorar, mas sobre o qual podemos pensar porque talvez esteja tudo ligado:
O poeta Manuel Alegre está senil.
Acontece que a senilidade é um facto que nos toca ou tocará a todos. Deverá um idoso, porque estando senil, manter-se calado? Desculpa, mas não concordo..
Talvez nos devêssemos ver como somos e não como gostaríamos que nos vissem. Do mesmo modo que gosto de touradas e não nego que o touro seja maltratado nelas. Do mesmo modo que gostaria de ser sempre reto, ou gostaria de ser razoável sempre, ou gostaria de ser... mas não sou. Nem tu, deliciosa Gaffe, mas continua a ser uma delícia ler-te.
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De Gaffe a 22.11.2018 às 01:00

Manuel Alegre não está senil. Está velho. Foi ultrapassado. Seria sinistro se noticiassem, publicassem e debatessem a opinião do senhor se o seu estado fosse próximo do da senilidade.
O que digo é que às vezes vale mais estar calado quando o que se tem para dizer se arrisca a ser imbecil.
Manuel Alegre defendeu a "sua dama" com argumentos patetas e sem qualquer réstia de sensatez.

Ser sempre recto e razoável, torna-nos bastante entediantes e faz da nossa vida um tédio deprimente.

:)
(Também gosto de si.)
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De naomedeemouvidos a 21.11.2018 às 13:19

Touché! (Acho que é mais no esgrima, mas, como nada percebo destas touradas, acho que cumpre a função).
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De Gaffe a 21.11.2018 às 13:31

Ah! Mas eu gosto muitíssimo de esgrima.

(Um segredo: Sei usar um florete e já venci muita gente que se tinha por perita)
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De naomedeemouvidos a 21.11.2018 às 13:57

(Outro segredo: se tivesse alguma dúvida sobre a sua habilidade com o florete, tinha acabado de a dissipar...)
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De Gaffe a 21.11.2018 às 14:01

:)
Eis o que em esgrima se chama um belíssimo "chicotear".
Faço baixar o meu florete.
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De Corvo a 21.11.2018 às 14:04

A minha posição sobre a temática é só uma. Imutável e inabalável.
Estou sempre pelo lado do touro. Tudo quanto possa acontecer de mal aos "artistas" das lides, para mim peca sempre por insuficiente.
A todos sem excepção. A cavalo ou a pé.
Mortos ou estropiados, de preferência estropiados e inutilizados de alguma vez mais poderem fazer qualquer coisa por eles mesmos. Mas mortos também me satisfaz, se antes passarem pelo sofrimento.
Fui, sou e serei sempre pelo lado mais fraco. Ou seja, o inocente.
Quanto às ...vacas é que penso que a menina se precipitou um pouco. Então não gosta delas? Nem um cadinho?
Olhe que têm muito aproveitamento, como o Joãozinho dissertou na sua redacção. A vaca é um animal muito útil; come-se por dentro e bebe-se por fora
:)
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De Gaffe a 21.11.2018 às 14:19

Tão sanguinário também, meu caro Corvo!

Condescendo, no que se refere a vacas.
:))))

Meu caro, repare que quando há vassourada, convém estar sempre do lado da vassoura - diz quem sabe, normalmente a "empregadagem".
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De Quarentona a 21.11.2018 às 17:06

Este Manuel "Alegrete" até me faz sentir saudades da Trova do Vento... essa sim, uma Alegoria de valor, pena que tenha passado de validade :((((
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De Gaffe a 21.11.2018 às 17:47

É verdade.
Pena é que se deixem passar as trovas e ficar apenas vento.
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De Corvo a 22.11.2018 às 11:19

Pois é, caras Gaffe e Quarentona.
Não digam porque irá parecer mal às alminhas santificadas desta vida, mas pensem se tive ou não razão quando no seu post "A Gaffe Encanecida" eu afirmei que as pessoas vivem de mais.
Os homens; cuja senilidade só lhes dá para o exibicionismo patético das absurdidades que debitam.
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De Gaffe a 22.11.2018 às 16:52

E eu discordei na altura. Continuo a discordar agora.
:)*
A velhice não implica necessariamente a senilidade. Não são sinónimos.
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De Pequeno caso sério a 21.11.2018 às 22:09

Talvez por fisicamente ter algumas semelhanças com o meu pai, não consigo ficar danada com o Alegre embora não concorde nada com ele.

Acho hediondo o sofrimento que infligem aos bichos que nada fizeram para o merecer. Acho ainda mais hediondo alguém chamar aquilo festa brava.
Uma bandarilha (acho que é assim que se chamam ) enfiada num sítio que cá sei e mudavam logo de opinião. Ou não que isto é gente muito esquisita.
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De Gaffe a 22.11.2018 às 01:07

Não deixei de gostar de Manuel Alegre. Mas a verdade é que também nunca gostei grandemente dele. Só o achei, desta vez, tolo e sem "eira nem beira", ou "ponta por onde se pegue" - dado o tema.

As touradas são coisas que me surgem como maléficas. Parecem reflexos enfeitados do que de ainda primitivo existe no homem.
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De Maria Araújo a 22.11.2018 às 16:23


Ah,ah,ah! Grande post!
Confesso, ando tão ausente de leitura e audição de notícias!
Aliás, sei que na AR iam tratar o assunto das touradas, embora por lá, além de uma geringonça, é uma arena propícia a touradas. Pena que os forcados sejam caducos.
Enalteço, neste post, e que muito me agradou, as pilas, os rabinhos,ospandex, os berloques, enfim, o que adorna e mostra a qualidade de quem enfrenta o touro pelos cornos.

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De Gaffe a 22.11.2018 às 16:47

Minha queria amiga,

Nunca assisti a uma tourada. Vejo vislumbres vergonhosos e anúncios que as promovem. Vejo sangue. Dor. Sofrimento atroz e barbárie. Vejo homenzinhos que parecem comandados pela parte mais primitiva do cérebro, repletos de lantejoulas para disfarçar essa hipótese, a torturar um - dois, se incluirmos o cavalo - dos mais poderosos animais que conheço. Sem razão. Sem justificação. Sem tino. Sem piedade e, digam o que disserem, com muito pouca coragem.Ninguém é corajoso quando tortura.

E tenho vergonha.
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De Maria Araújo a 22.11.2018 às 22:10

Olá.
Eu comentei o que há de humor neste texto, como sempre, bem escrito.
Eu nunca assisti a uma tourada, não suporto ver o animal sofrer, ver o sangue que escorre pelo corpo, a saliva da boca, a corneta a anunciar a pega.
E por mais que os animais no circo sirvam para divertir as crianças, sou totalmente contra.
Assim como os Zoos.
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De Gaffe a 23.11.2018 às 00:14

Mas há quem defenda aquilo por razões. .. estéticas. Parece que produz imagens bonitas.

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