Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


Henrik Spranz.jpg

 

Queridíssimo António,

Permita que o trate desta forma. Sei que não se ofenderá, ou sequer ficará melindrado, considerando o seu carinho por um allure francês - que arrasto numa costela - que sempre foi bem-vindo em Santo António da Barra.

Autorize que o congratule. O menino vai fazendo caminho, caminhando quase impercetível pelas brisas marítimas deste seu país tão pequenino.

É amoroso observar o seu Portugal a florir agora, com a lentidão exigida, no exacto canteiro onde o deixou um dia e o seu povo, o seu humilde povo, a regressar devagar e sem atrito àquele pedaço de terra que ia morrendo consigo à cabeceira.

Ouso pedir-lhe, meu querido António, que - pese embora o mal que lhe fizeram conspurcando-lhe a memória e a bonomia com que sempre olha o estado da Nação, sobretudo agora sentado lá no alto, na cadeira de Pedro, em princípio a mais segura -, tome consciência dos erros que em vida pia cometeu.

 

O menino, meu dulcíssimo António, entendeu mal o seu povo, ou seja, entendeu mal os pobres. É evidente que uma pessoa de bem por muito que queira colaborar com a Jonet, não pode saber de que se alimenta o populacho, mas o seu cargo exigia - peço-lhe perdão, mas tenho de o dizer -, que entendesse a inutilidade da repressão que alegam ter exercido sobre os supostamente esfomeados.

 

O menino deixou escapar por completo esta democracia!

 

O meu querido, imperdoavelmente, não percebeu que a polícia política, o aljube, a beatice, a tortura, a censura, a perseguição, o exílio, o assassínio, o peculato, a extorsão, o nepotismo e todas essas tontices desagradáveis que maldosamente afirmam ter permitido, apoiado e mesmo e praticado no aconchego do lar, não são coisas que se façam ao abrigo de um pretenso poder sem escrutínio popular.

Dá sempre para o torto.

É evidente que é sempre feio andar a matar pessoas ou até a algemar e encarcerar contos e ditos ou a torturar gente que não sabe estar, mas, meu querido António, as restantes podem perfeitamente coexistir com outros modos de se governar que não o pesadíssimo ditatorial.

 

O menino devia ter viajado mais.

 

O menino devia, de modo muito mais saudável e sem quedas aparatosas, ter transitado para um regime democrático como aquele que alastrar agora na sua tão amada Nação.

Desempoeirava a mente, desopilava, descontraía, pulava nos comícios, dançava ao som dos bombos, não tinha de se preocupar com niquices caseiras - como descobrir mais um buraco na cave onde enfiar a oposição -, espairecia, ficava mais seguro da perenidade da sua obra e garantia o museu.

 

Não sei como foi capaz de perder a noção das vantagens de uma democracia portuguesa posta ao seu serviço, pese embora a sua tão certa preocupação com o acerto de contas e com as contas certas.   

 

Não percebo como foi capaz de ignorar que se pode legalmente blindar os seus e os nossos privilégios, permitindo, ao mesmo tempo, que os pobres se manifestem numa gritaria desalmada de ruela impotente. Não é de todo necessária a polícia de choque! Basta andar às voltas de gabinete atarefado, com um je ne sais quoi preocupado, indignado, solidário e decidido a alterar a legislação na próxima legislatura. Depois se verá como se esquece, depois se verá como o povo se esquece.

 

Não faz sentido que não tenha dado conta que se podem vedar os tribunais aos cretinos que ousam - por dá cá aquele imposto ou roubalheira sem monta e sem montra -, exigir ver com olhos de ver aquela miragem tola com olhos vendados e balança nas patas que se vai entretendo com os nossos recursos usando os recursos do povo que, dada a quantidade e a qualidade, se esgotam depressa, não provocando quezílias de grande montante.

 

Não me compadeço com o facto de não ter compreendido que basta um há que clarificar tudo doa a quem doer e até ao fim, para que se esqueçam as ajudas de custo e desta forma não nos custe nada a reconstrução das casas de férias.

 

Não consigo aceitar que não tenha visto que é facílimo não pintar a coisa com lápis azul! Basta lançar mais nenúfares na água estagnada desta imprensa livre de forma a que se saltite de um lado para o outro, de lá para cá, de cá para lá, sem ressecar os números das audiências e sem sequer estar implícito o clarificar tudo doa a quem doer, porque tudo ficou bastante bem tratado e resolvido com o penso rápido colado com a saliva dos sentados nos estúdios dos comentários e nas fitas dos comendadores. O menino não fazia compras nos hipermercados, pois não? Se as tivesse feito, saberia que tantos rótulos juntos, distraem imenso e fazem esquecer que os iogurtes têm prazo. O povo, quando tudo se mistura, compra sempre o que está à mão, sem ler as cores e sem compostura.

 

Não me resigno com a sua indiferença perante o facto de bastar apagar - apagar, mas apenas informaticamente, não se precipite! -, uma quantidade substancial de pobres das listas de espera seja do que for que os trate, que enfuscam os hospitais, para que sopre ar puro e sem porcarias doentias nos gabinetes ministeriais permitindo descansar e acamar em metáforas o populacho que, quando nos transporta aos hospitais de iniciativa privada, não se consegue aturar, com queixas saloias de hemodiálises por fazer. Se os rins não funcionam que comam brioches que absorvem o vinho.

       

Não consigo entender como não foi mais assíduo nos constantes solavancos pedagógicos das Escolas, no abarrotar de burocracia digital ora tão moderna, tão em voga, que se não mata, embrutece, fomentando também desta forma arrevesada e atolada em linhas programáticas que vão bailando ao sabor dos lectivos burocratas, fornadas de pobres incapazes de pensar, ou então prolongando a magnífica diáspora portuguesa que sempre forneceu mundos ao mundo e ao mesmo tempo promovendo a alegria na velhice, na satisfação no trabalho na terceira idade, dos que incumbidos de educar os pobres, de lhes entregar novas oportunidades, cursos de formação de formadores, estágios profissionais não remunerados e contratos de emprego-inserção - baixam imenso o número de desempregados e fazem um brilharete na Europa! -, exalam alegria unindo o Portugal ao Brasil e ao Ultramar através da maravilhosa uniformização da língua de Camões - que finalmente já tem marcada a consulta de oftalmologia, no SNS que o homem nunca teve posses.

A glória da Nação Portuguesa no mundo passa, meu querido, por convencer com subtileza as pessoas cultíssimas a desandar daqui para fora, nunca a ir para fora cá dentro onde já não há, de todo, transportes que as levem. Há que provar no estrangeiro que continuamos a ter imenso valor e enorme capacidade de exportação. Nós fazemos. Nós exportamos. Uma economia em ascensão, e em assunção, tal como a Nossa Senhora que o Presidente da nossa e da sua República vai beijar, ajoelhado ao lado do novo Cardeal num 05 de Outubro de português laico e sem o glamour das saias vaticanas.

 

Não entendo, meu queridíssimo António, imensas outras coisas que ignorou sem atender ao quanto lhe seriam úteis, mas admito que vai longo este meu rabisco e não o quero maçar mais, sobretudo agora que, em nome do fascismo nunca mais, não o deixam ter museu.

 

Permita apenas que lamente mais uma vez que não tenha percebido o quão inúteis foram as esconsas e sombrias ruelas de opressão, de repressão, de tortura, de traição, de tráfico de influências, de extorsão, de censura, de morte, de exílio, de prisões e de tantas outras pequenas maldades que foi cometendo no escuro, quando para castrar um povo, torná-lo impotente, espoliado, incapaz, inculto, desdentado, roubado, sem esperança, miserável, subserviente, acomodado, iludido e sem justiça, bastava, mesmo em pleno dia, uma democracia entregue a canalhas.  

 

Fotografia - Henrik Spranz  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


32 rabiscos

Imagem de perfil

De Sarin a 16.09.2019 às 14:04

!
Imagem de perfil

De Sarin a 16.09.2019 às 14:28

"Fiquei sem palavras, nem delas precisaria - tudo dito"
"Tudo maravilhosamente bem dito"
"Demasiadamente bem dito, o António não merecem tanto" :))
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 14:40

Ficou imensa coisa por dizer.
Sobretudo que este meu povo se parece cada vez mais com o povo silenciado de tantas maneiras pelo senhor doutor.
E nem disso tem consciência, tal como o povo do senhor doutor.
Imagem de perfil

De Sarin a 16.09.2019 às 14:44

Tudo o mais que há para dizer tem de o ser dito num outro registo, sob pena de não ser compreendido.

O teu postal está perfeito!

!
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 14:48

Às vezes, nem sequer peço para ser compreendida. Suplico apenas que me escutem um bocadinho.
:)

Ninguém me liga.
Escrevo coisas destas.
Imagem de perfil

De Sarin a 16.09.2019 às 14:54

Escreve. Nós escutamos. Compreendemos. Estamos aqui.

:)
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 14:57

Felizmente já somos meia dúzia. Somos tantos!
Imagem de perfil

De Sarin a 16.09.2019 às 15:08

Ontem éramos cinco... incluindo o cão.
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 15:09

Pelo menos, já temos quem morda.
Imagem de perfil

De Sarin a 16.09.2019 às 15:20

Ainda mais?

É só percausa das cotas. Das quotas nã, quê cá sô pan pan quêje quêje.
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 15:36

Dizem que mais vale um cota do pan do que dois CDS a voar.
Eu odeio sandes.
Imagem de perfil

De naomedeemouvidos a 16.09.2019 às 14:53

Agora vou dizer uma daquelas coisas que nunca se diz: eu avisei! Se, antes, não me parecia nada uma tontice, agora, tenho a certeza.

E mais não digo, que falta não faz. Talvez, um desejo. Que a cadeira de Pedro seja mesmo mais segura, não vá o senhor doutor voltar a cair-nos no colo, distraídos que andamos com museus e outros quejandos.

(Estás linda :)))
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 15:00

Que os anjinhos todos lhe segurem as costas. Da cadeira.

(Meu amor,
... Na fotografia não sou eu ... ... )
Imagem de perfil

De naomedeemouvidos a 16.09.2019 às 15:05

Com a ajuda de nosso senhor.

(Refiro-me à outra fotografia, e aos trapos que vestem almas. Embora a de lá de cima seja magnífica.)
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 15:08

E dos cardeais falecidos. O senhor doutor iria gostar.

(Perdi-me um bocadinho na troca de fotografias!)
Imagem de perfil

De naomedeemouvidos a 16.09.2019 às 15:15

Com toda a certeza.

(quantos às fotografias - a que o teu delicioso humor me trocou as voltas - falava da "inteligência como forma de vestir"; a alma, as tuas avenidas, o motivo porque te imagino de uma elegância irrepreensível.)
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 15:33

AH!

Agora entendo o labirinto.
Sempre de uma gentileza a toda a prova, a menina! Fica-nos sempre bem o quer nos veste!
Imagem de perfil

De naomedeemouvidos a 16.09.2019 às 15:44

Viu? Por acaso, não é gentileza, é espanto genuíno. E, vejo que a Sarin já disse o que mais havia para dizer.

Beijos e Boa Semana!
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 15:57

:)
Obrigada.
Beijo e uma semana delirante de alegria.
Imagem de perfil

De Luísa de Sousa a 16.09.2019 às 15:24

Palmas para este excelente post de Sua Excelência Gaffe!

Adorei lê-lo!!!
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 15:34

Obrigada, minha querida Luísa!
É sempre bom saber que gosta do que escrevo.
Imagem de perfil

De MJP a 16.09.2019 às 18:18

Muitos Parabéns pelo brilhante texto, Menina Gaffe! ;)
Adorei! :)
Beijinho*
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 19:07

Obrigada.
Não é brilhante, mas é indignado.
:)
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 16.09.2019 às 19:15

Sobretudo, gostei da democracia entregue a canalhas.
Isto não muda.
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 20:31

Não sei. Talvez seja como nos diz a Sarin. 40 anos de estagnação acabaram por nos viciar, por nos convencer que só pode ser assim, por nos habituar a desistir.
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 16.09.2019 às 19:34

E depois não queres que diga publicamente o quanto te admiro e gosto de ti...
Não tenho como. Lamento. (piu!)

; )



P.s- Esse António (o do tombo) fez um excelente trabalho no domínio da ignorância.
O António de agora (o dos saltos), não teve de se esforçar muito para lhe perpetuar o legado:

" Ler, escrever e contar mas NUNCA interpretar!"
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.09.2019 às 20:27

Mas repara que não responsabilizo apenas o Costa dos saltinhos.
É um crescendo de assaltos à dignidade de um povo. Acredito piamente que no início todas as intenções e todos os objectivos estivessem focados no desenvolvimento de um povo. Depois chegaram as hostes da mediocridade e as suas teses e as suas oportunidades e as suas regras e as suas convicções e as suas teorias. Depois veio o "vivemos para alem das nossas possibilidades", "somos todos uns piegas", ... ...
Depois veio o medo de sermos um povo. Depois veio o medo de nos arrancarem o emprego.
Depois abdicamos.
Bastou isso.
Tomaram democraticamente o poder e usam-no como as leis que fazem mandam.
A corrupção é julgada por corruptos. A mediocridade é de tal forma salazarenta que faz com que o medo que algures já não tivemos, volte envolto em panos democráticos.
Sentimos a impotência dos pobres perante o desmando descarado dos que recolheram o poder que lhes entregamos.
A indiferença perante o julgamento do povo é dado adquirido. Aprenderam todas as lições.
Não sei como mudar. Não sabemos como alterar a força da armadilha.
Imagem de perfil

De Rui Pereira a 17.09.2019 às 00:40

Caríssima,
Isso é que foi escrever!
Imagem de perfil

De Gaffe a 17.09.2019 às 09:18

Eu sei.
Às vezes sou uma exagerada.
:)
Imagem de perfil

De anacb a 17.09.2019 às 10:05

Bravo!!!
Imagem de perfil

De Gaffe a 17.09.2019 às 10:42

:)

"Bravo" como o velho esfregão de palha de aço.

Obrigada.

Comentar post