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Ilustração - Fernando Vicente


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Queridíssimo António,

Permita que o trate desta forma. Sei que não se ofenderá, ou sequer ficará melindrado, considerando o seu carinho por um allure francês - que arrasto numa costela - que sempre foi bem-vindo em Santo António da Barra.

Autorize que o congratule. O menino vai fazendo caminho, caminhando quase impercetível pelas brisas marítimas deste seu país tão pequenino.

É amoroso observar o seu Portugal a florir agora, com a lentidão exigida, no exacto canteiro onde o deixou um dia e o seu povo, o seu humilde povo, a regressar devagar e sem atrito àquele pedaço de terra que ia morrendo consigo à cabeceira.

Ouso pedir-lhe, meu querido António, que - pese embora o mal que lhe fizeram conspurcando-lhe a memória e a bonomia com que sempre olha o estado da Nação, sobretudo agora sentado lá no alto, na cadeira de Pedro, em princípio a mais segura -, tome consciência dos erros que em vida pia cometeu.

 

O menino, meu dulcíssimo António, entendeu mal o seu povo, ou seja, entendeu mal os pobres. É evidente que uma pessoa de bem por muito que queira colaborar com a Jonet, não pode saber de que se alimenta o populacho, mas o seu cargo exigia - peço-lhe perdão, mas tenho de o dizer -, que entendesse a inutilidade da repressão que alegam ter exercido sobre os supostamente esfomeados.

 

O menino deixou escapar por completo esta democracia!

 

O meu querido, imperdoavelmente, não percebeu que a polícia política, o aljube, a beatice, a tortura, a censura, a perseguição, o exílio, o assassínio, o peculato, a extorsão, o nepotismo e todas essas tontices desagradáveis que maldosamente afirmam ter permitido, apoiado e mesmo praticado no aconchego do lar, não são coisas que se façam ao abrigo de um pretenso poder sem escrutínio popular.

Dá sempre para o torto.

É evidente que é sempre feio andar a matar pessoas ou até a algemar e encarcerar contos e ditos ou a torturar gente que não sabe estar, mas, meu querido António, as restantes podem perfeitamente coexistir com outros modos de se governar que não o pesadíssimo ditatorial.

 

O menino devia ter viajado mais.

 

O menino devia, de modo muito mais saudável e sem quedas aparatosas, ter transitado para um regime democrático como aquele que alastrar agora na sua tão amada Nação.

Desempoeirava a mente, desopilava, descontraía, pulava nos comícios, dançava ao som dos bombos, não tinha de se preocupar com niquices caseiras - como descobrir mais um buraco na cave onde enfiar a oposição -, espairecia, ficava mais seguro da perenidade da sua obra e garantia o museu.

 

Não sei como foi capaz de perder a noção das vantagens de uma democracia portuguesa posta ao seu serviço, pese embora a sua tão certa preocupação com o acerto de contas e com as contas certas.   

 

Não percebo como foi capaz de ignorar que se pode legalmente blindar os seus e os nossos privilégios, permitindo, ao mesmo tempo, que os pobres se manifestem numa gritaria desalmada de ruela impotente. Não é de todo necessária a polícia de choque! Basta andar às voltas de gabinete atarefado, com um je ne sais quoi preocupado, indignado, solidário e decidido a alterar a legislação na próxima legislatura. Depois se verá como se esquece, depois se verá como o povo se esquece.

 

Não faz sentido que não tenha dado conta que se podem vedar os tribunais aos cretinos que ousam - por dá cá aquele imposto ou roubalheira sem monta e sem montra -, exigir ver com olhos de ver aquela miragem tola com olhos vendados e balança nas patas que se vai entretendo com os nossos recursos usando os recursos do povo que, dada a quantidade e a qualidade, se esgotam depressa, não provocando quezílias de grande montante.

 

Não me compadeço com o facto de não ter compreendido que basta um há que clarificar tudo doa a quem doer e até ao fim, para que se esqueçam as ajudas de custo e desta forma não nos custe nada a reconstrução das casas de férias.

 

Não consigo aceitar que não tenha visto que é facílimo não pintar a coisa com lápis azul! Basta lançar mais nenúfares na água estagnada desta imprensa livre de forma a que se saltite de um lado para o outro, de lá para cá, de cá para lá, sem ressecar os números das audiências e sem sequer estar implícito o clarificar tudo doa a quem doer, porque tudo ficou bastante bem tratado e resolvido com o penso rápido colado com a saliva dos sentados nos estúdios dos comentários e nas fitas dos comendadores. O menino não fazia compras nos hipermercados, pois não? Se as tivesse feito, saberia que tantos rótulos juntos, distraem imenso e fazem esquecer que os iogurtes têm prazo. O povo, quando tudo se mistura, compra sempre o que está à mão, sem ler as cores e sem compostura.

 

Não me resigno com a sua indiferença perante o facto de bastar apagar - apagar, mas apenas informaticamente, não se precipite! -, uma quantidade substancial de pobres das listas de espera seja do que for que os trate, que enfuscam os hospitais, para que sopre ar puro e sem porcarias doentias nos gabinetes ministeriais permitindo descansar e acamar em metáforas o populacho que, quando nos transporta aos hospitais de iniciativa privada, não se consegue aturar, com queixas saloias de hemodiálises por fazer. Se os rins não funcionam que comam brioches que absorvem o vinho.

       

Não consigo entender como não foi mais assíduo nos constantes solavancos pedagógicos das Escolas, no abarrotar de burocracia digital ora tão moderna, tão em voga, que se não mata, embrutece, fomentando também desta forma arrevesada e atolada em linhas programáticas que vão bailando ao sabor dos lectivos burocratas, fornadas de pobres incapazes de pensar, ou então prolongando a magnífica diáspora portuguesa que sempre forneceu mundos ao mundo e ao mesmo tempo promovendo a alegria na velhice, na satisfação no trabalho na terceira idade, dos que incumbidos de educar os pobres, de lhes entregar novas oportunidades, cursos de formação de formadores, estágios profissionais não remunerados e contratos de emprego-inserção - baixam imenso o número de desempregados e fazem um brilharete na Europa! -, exalam alegria unindo o Portugal ao Brasil e ao Ultramar através da maravilhosa uniformização da língua de Camões - que finalmente já tem marcada a consulta de oftalmologia, no SNS que o homem nunca teve posses.

A glória da Nação Portuguesa no mundo passa, meu querido, por convencer com subtileza as pessoas cultíssimas a desandar daqui para fora, nunca a ir para fora cá dentro onde já não há, de todo, transportes que as levem. Há que provar no estrangeiro que continuamos a ter imenso valor e enorme capacidade de exportação. Nós fazemos. Nós exportamos. Uma economia em ascensão, e em assunção, tal como a Nossa Senhora que o Presidente da nossa e da sua República vai beijar, ajoelhado ao lado do novo Cardeal num 05 de Outubro de português laico e sem o glamour das saias vaticanas.

 

Não entendo, meu queridíssimo António, imensas outras coisas que ignorou sem atender ao quanto lhe seriam úteis, mas admito que vai longo este meu rabisco e não o quero maçar mais, sobretudo agora que, em nome do fascismo nunca mais, não o deixam ter museu.

 

Permita apenas que lamente mais uma vez que não tenha percebido o quão inúteis foram as esconsas e sombrias ruelas de opressão, de repressão, de tortura, de traição, de tráfico de influências, de extorsão, de censura, de morte, de exílio, de prisões e de tantas outras pequenas maldades que foi cometendo no escuro, quando para castrar um povo, torná-lo impotente, espoliado, incapaz, inculto, desdentado, roubado, sem esperança, miserável, subserviente, acomodado, iludido e sem justiça, bastava, mesmo em pleno dia, uma democracia entregue a canalhas.  

 

Fotografia - Henrik Spranz  

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2 rabiscos

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De anacb a 17.09.2019 às 10:05

Bravo!!!
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De Gaffe a 17.09.2019 às 10:42

:)

"Bravo" como o velho esfregão de palha de aço.

Obrigada.

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