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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe explosiva

rabiscado pela Gaffe, em 08.10.16

 

jang Yong Oh.jpgA senhora de meia-idade é irrepreensível.

De tailleur aprumado, laço na blusinha e passarinho ao peito, unhas pintadas de verde para recordar a diferença entre nails e mails, dedinho rechonchudos de anelar estrangulado por um fiozinho de ouro com brilhante encastrado, sapatito de meio tacão, de polido couro, permanente riça de caracóis rígidos e tingidos, batom de discreta pincelada e traço no olho feito pelo Zorro.

Um mimo de gente.                                   

 Reservada. Conservadora. Discreta.             

 Perto dela, os cães minúsculos arrastam a cauda para trás dos móveis e a água sai turva dos canos que tremem.

 

Um pilar da sociedade.

 

Encontro-a no compartimento do wc logo a seguir ao meu, onde entro sorrateira para não perturbar.

 

Subitamente, no meio do que é habitual fazer-se nos WC, a cabine do lado oscila ameaçando derrubar paredes.

A senhora faz ribombar a fanfarra das Forças Armadas, o bando de bombos do Alto Minho a tocar ao desafio.

Trovadas e sismos.

Em pânico receio ser esmagada pelo desabar dos muros ou projectada  com a deslocação do ar para longe do meu humilde xixizito. Temo que tenham sem aviso prévio ordenado a implosão do edifício. Receio que haja um estourar de aneurisma, um AVC, uma ruptura intestinal, uma explosão de entranhas e que no tremendo tremor eu não sobreviva, soterrada.

 

Que faço eu?

Tusso!

 

Tusso com a discrição das imbecis apanhadas pela borrasca e procuro despachar com a maior brevidade que me é possível o que foi humilhado pela grandiosidade eloquente do que rebentou ao lado.

 

Saímos ao mesmo tempo para delicadamente molharmos as mãos e espargirmos gotículas suaves de água  no azulejo imaculado.

Sorrimos diplomatas e afastamo-nos.

 

Desanimada reconheço o lamentável que é verificar de forma tão sonora que até mesmo os pilares da sociedade estão minados até aos alicerces.

 

Ilustração - Jang Yong Oh

 

 

 photo man_zps989a72a6.png


9 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 08.10.2016 às 11:03

:))))))))

Tudo o que relataste só comprova uma teoria que tenho desde há muito : no WC e no hospital não há finess nem pedigree que te valham !
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De Gaffe a 08.10.2016 às 11:46

No hospital acredita que não me envergonho. No wc ... sou discretíssima.
:)))
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De Pequeno caso sério a 08.10.2016 às 12:08

Quando referi hospital queria dizer enquanto utente .
Quando estás mesmo mal e (infelizmente ) precisas de recorrer a um hospital não há cá pedigree.
Ninguém vomita com finess nem se dá entrada numa urgência contorcendo - se com dores cheia de salamaleques.
A única coisa que queres é que a dor acabe .De preferência, depressa.
Nessas situações ,tal como no WC em caso de necessidade , não há subtilezas e somos todos iguais. Desde a mulher que tem um avental já gasto na zona da barriga até à senhora pilar da sociedade.
; )
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De Gaffe a 08.10.2016 às 12:51

Eu tinha percebido.
;)
É curioso como alguns passam a vida a gritar tragicamente que somos todos "iguais na morte" quando o somos em situações bem mais prosaicas e simples.
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De Pequeno caso sério a 08.10.2016 às 13:50

Apesar de muitos se envergonharem disso , é na VIDA que somos todos iguais .

; )
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De Gaffe a 08.10.2016 às 14:06

Nao sei se estou completamente de acordo contigo. Somos iguais sob uma perspectiva física, mas na Vida há alguns mais iguais do que outros.
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De M.J. a 08.10.2016 às 17:06

somos nada todos iguais na vida.
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De Gaffe a 08.10.2016 às 18:51

Não somos, eu sei.
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De Maria Araújo a 09.10.2016 às 13:00


Eu também tusso, em muitas destas situações.

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