Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe exposta

rabiscado pela Gaffe, em 21.10.14

Celia Calle.jpgÉ curiosa a forma como sem contarmos um blog generalista, fútil e vagamente tonto se vai tornando um modo de expormos sem pudor pequenos episódios que se deveriam manter fora das avenidas.

À medida que vamos andando e rindo por um blog adentro, o cantarolar que tínhamos controlado e que não ultrapassava os limites do bom senso que deve reger a nossa privacidade, pode tornar-se uma cantilena esganiçada onde as notas que se querem atingir deixam de ser privadas, passando em consequência a ser inscritas nas pautas alheias às nossas melodias.

 

Acontece que, por muito que se recuse, acabamos inevitavelmente por nos aproximarmos daqueles que com mais assiduidade nos acarinham, visitando-nos ou participando nos nossos desabafos. Sabemos que na realidade não os conhecemos, mas temos a noção que é do domínio da raridade e muitas vezes do milagre conhecer seja quem for. A impunidade com que ilustres desconhecidos vão apanhando as nossas bagatelas com o mesmo cuidado com que nós apanhamos as migalhas deles, acaba por nos dar a sensação de santuário, de inocuidade, de distanciamento que não encontramos quando somos rodeados por aqueles que acompanham a nossa vida não virtual. Tornamo-nos mais confiantes, talvez mais seguros, ou então reconhecemos que, como diz um amigo, o local ideal para dizermos a verdade é a internet, um blog por inerência, porque aqui ninguém nos acredita verdadeiramente. Podemos ser tão reais como inventados. Para o público que nos lê, é indiferente. O conceito de verdade é relativizado ou exige reformulação.

A Gaffe tem vindo a expor-se em demasia. O objectivo primordial inscrito no editorial destas Avenidas foi adulterado. Choraminga por aqui instantes privados com a certeza da ignorância de quem os vive com ela. Partilha-os sem pudor e sem noção do risco que é perceber que desnuda momentos que pertencem também a outros que talvez os queiram secretos.

É uma maldade que deve ser corrigida.                                      

 

Este será portanto a última exposição pública desta rapariga esperta. Uma exposição bastante subtil, como é bom de ver. A partir daqui, contamos apenas com barbaridades mundanas, fúteis e superficiais, tal qual se promete no resumo dos dias e nos dias que se resumem apenas a um sopro.

Ilustração - Celia Calle

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


9 rabiscos

Imagem de perfil

De Xana Ribeiro a 21.10.2014 às 08:04

As tuas Palavras Gaffe tem tanto de verdadeiras como de reais.
Por vezes nem temos noção do quanto nos estamos a expor (e para quem realmente).
Ser Prudente e cuidadosa nunca fez mal a ninguém.
Beijinho
Imagem de perfil

De Gaffe a 21.10.2014 às 09:23

Depois surge o problema de sabermos que quem referimos está completamente "a leste" do que é dito.
Acaba por ser desonesto e abusivo.
:)
Imagem de perfil

De M.J. a 21.10.2014 às 09:43

não concordo.
torna-se até contraditório com o que dizes acima. eu por exemplo não sei, nem tenho como saber, nem quero saber aliás, se as pessoas de quem falas e descreves com palavras de ternura são verdadeiras, se existem enquanto gente de carne e osso.
sei delas o que escreves delas e têm o encanto de uma personagem de um livro, que moldamos na nossa mente. imagino-as como imagino um circulo de palavras, todo junto. ponho-as ao lado de carlos da maia, da sofia e da emmanuèlle.

nunca vou saber dos pequenos gestos mundanos, das rotinas, das faces, dos dias que transformam estas pessoas de palavras em pessoas reais.
mesmo que partilhe com elas, em mera coincidência, um café numa esplanada num dia de verão.
Imagem de perfil

De Gaffe a 21.10.2014 às 10:00

Também tens razão. É impossível não admitir que a tua perspectiva é também correcta, sobretudo quando sublinhas que:
"Nunca vou saber dos pequenos gestos mundanos, das rotinas, das faces, dos dias que transformam estas pessoas de palavras em pessoas reais."

Contudo tem de existir um equilíbrio entre o privado e o público.
As pessoas que descrevo são vistas pelas minhas palavras, mas se por acaso encontrassem estas avenidas, creio que se sentiriam retratadas. Reconhecer-se-iam. Não sei se tenho o direito de as "mostrar" sem elas saberem que o faço.

E aposto que as reconhecerias se as visses sentadas numa das esplanadas da tua vida. São fáceis de olhar.
:)
Imagem de perfil

De M.J. a 21.10.2014 às 10:39

dúvido. eu conheço-as através do teu olhar. não através do meu.

(quanto a elas se reconhecerem aqui... bem, nessa perspectiva tens razão, suponho.)

mas tenho pena.
é sempre triste quando sabemos que vamos deixar de "estar" com alguém que nos habituamos a conversar. cada um com as suas palavras, claro está.
Imagem de perfil

De M.J. a 21.10.2014 às 10:40

e duvido que ali pus não tem acento, desculpa.
Imagem de perfil

De Gaffe a 21.10.2014 às 11:06

Vou apenas dosear estes desabafos e tentar encontrar um equilíbrio entre o público e o privado.
Agora que te apresentei estas criaturas não vou conseguir deixar por completo de as contar.
:)
Imagem de perfil

De bloga-mos a 21.10.2014 às 12:57

Exijo o contacto do provedor dos leitores desta magnífica residência para me queixar sobre a mudança de rumo editorial...

Comentar post





  Pesquisar no Blog

Gui