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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe feminilizada

rabiscado pela Gaffe, em 11.04.18

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Não imaginaria que, por ter aqui sobrevoado o assunto, fosse levada à letra por imensos criadores de significativo calibre e nome a respeitar que em 2018 passam a usurpar todas as minúcias, manigâncias e particularidades femininas e a doar esse acervo aos seus desfiles masculinos, fazendo rodopiar os seus fabulosos rapagões em trajos que facilmente os ridicularizariam, não fosse a testosterona espalhada pelas bainhas.

 

Não se trata de androginia, esse fenómeno que quando perfeito nos consegue cegar de fascínio, rendidas à sedução implícita na hesitação, com indubitável travo sexual, e no mistério da insinuação ambivalente – pois que se de grosseira imperfeição, desemboca nas matrafonas -, mas sim de fazer assumir uma quantidade inesgotável de peças claramente femininas por corpos de homens.

 

São desta forma impressionantes as colecções masculinas que em 2018 foram apresentadas em Paris, Londres, Milão, Tóquio, NY ou Madrid e embora nem todos os nomes dos criadores se ajustem aos que a nossa memória conserva ano após ano, acaba-se por perceber que são as recentes estrelas as que mais burburinho conseguiram fazer estalar.

 

Não sendo uma fashion blogger, não tenho qualquer intenção de comentar cores, texturas, linhas, geometrias, silhuetas e tretas. É-me indiferente que se refira o que se vê como futura e literal paisagem urbana. Não me aflige que se acredite que na próxima estação o nosso menino vai usar o vestidinho de alças que levamos ao casamento da prima, ou que use os tacões agulha que soçobrarão passados instantes com o peso da musculatura que os encima. Não me incomoda que se leia de forma literal o que é proposto, sem que se tenha o discernimento de separar imagens caracterizadoras de cada criador, da posterior produção evidentemente mais cúmplice da realidade.

 

O que é me desperta a curiosidade é a possibilidade de se colocar a hipótese de estarmos a assistir a reacções próximas das que foram observadas quando, por exemplo, Dietrich surge na tela absolutamente fatal, de smoking desafiador, a beijar na boca uma pateta que assiste a uma interpretação rouca, arrastada, masculina, soberba e superior, de uma canção vagamente perversa. Como choveu saliva envenenada nessa altura!

 

É maravilhoso ler as cómicas crónicas de comentadores de serviço que se servem do apresentado - e visto de modo absolutamente restrito ao que conseguem absorver -, para tentar dar largas a uma patética ironia, a uma mesquinha e medíocre forma de entendimento dos signos e dos símbolos que estão implícitos naquilo que não é mais do que uma apropriação, consciente - ou não -, de um universo transgressor e de um outro até aqui proibido, o feminino, com a vantagem de se perceber que sempre coincidiram.  

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Creio que está longe de ser ridícula a opção patente nestes estranhos desfiles masculinos. Pode ser controversa, pode ser desagradável, pode ainda ser eventualmente inestética, pode ser demasiado agressiva e muitíssimo pouco macho, mas é também a assumpção do risco, a ousadia da infracção, da desobediência, da quase irresponsabilidade e sobretudo a ruptura com o que de simbólico pertencia a espaços diferenciados com um rigor desmesurado.

 

Pese embora o facto de considerar ligeiramente parvo o que foi visto - porque sou parva e projecto-me no que vejo -, não posso negar que o biquíni de brilhantes de Fátima Lopes - mesmo se executado em pedraria falsa e usado por um peito verdadeiro - é muitíssimo mais agradável a brilhar num corpo masculino.

 

 

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Gavetas:


8 rabiscos

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De Gaffe a 11.04.2018 às 21:09

Claro que sim!
Não sendo o meu "mais que tudo", é bastante ... saudável.

O que é realmente importante é o artigo que lhe está apenso e que complementa o que digo.

Interessante é observar como é que o homem vai lidando com a questão.
Obrigada.
:)

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