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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe golfista

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.17

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O desvio que se fiz no regresso a casa, depois de ter deixado o carro na oficina, foi já feito no popó do meu irmão.

- Levas o meu que eu fico por aqui. Vou depois com o pai.

                 

Há um passadiço de madeira cinzenta ao longo do areal. Faz ruídos quando o pisamos e a madeira parece estalar debaixo dos nossos passos.
Passaram por mim rapazes embrulhados em blusões de Verão e moçoilas de lenço na cabeça. Olharam e sorriram e convidaram.


Encontrei perdida uma bola de golf, branca com o símbolo da Nike sujo de verde.
Guardei-a na carteira depois de inutilmente a esfregar para lhe retirar a mancha.


Andei demasiado.

 

Havia muito vento e o mar espirrava. O meu vestido parecia uma vela de barco enlouquecido.
Passaram outra vez por mim os rapazes e as raparigas com todos os convites que eu quisesse no corpo a estremecer. Fazem sentir que estancamos o mundo inteiro quando queremos, que o nosso umbigo é centro do Universo, quando afinal não somos mais que uma bola de golf  manchada e perdida num bolso qualquer.

 

Miramar é a minha saudade mais pequena. Uma das outras, maiores, encontrei-a parada no areal a quebra o tempo vivido longe.

É colorista. Vive e trabalha em Londres desde há muito tempo. Regiamente respeitada e escravizada pela nostalgia do mar do seu país.

Há quanto tempo a não via e que saudades, meu Deus!

 

As nossas memórias, as nossas memórias comuns, misturaram-se com o vento e percebemos que as temos de modo diferente, que olhamos o acontecido outrora através de pequenas grades transparentes que alteram significativamente o que se recorda. As nossas infâncias foram vizinhas, rodeadas pelas mesmas circunstâncias, partilharam momentos, experimentaram situações idênticas, vivenciaram condições iguais, mas a memória de cada uma das duas triturou o ocorrido de maneira diversa, como se nos tivéssemos banhado no mesmos mar, pela mesma onda, esquecendo que os nossos braços tocaram a água com agilidades desiguais.  

 

Horas perdidas a colar memórias. Arrancando pequenas farpas da saudade. Tentando embeber o que era de uma no que à outra pertencia, espantando-nos ao perceber que a luz que vinha do que era recordado tinha laivos distintos e iluminava o que era agora visto pertença do passado com as cores dissemelhantes, porque mais íntimas, privadas, com que se recorta cada coração.

                                         

Duas horas infindas até ao fim da tarde. Horas doidas, divertidas e desfraldadas pela alegria.

 

- Se vais para o Porto, dou-te boleia. Continuamos este massacre das saudades!

 

Estava sem carro. Sim. Claro que sim!

Deu-me boleia.

Ao chegar, depois das despedidas, percebi tragicamente que o carro do mano tinha ficado parado perto do mar, lá longe.

 

Quando matamos as saudades convém não esquecer que as armas usadas devem pesar sempre mais que uma bola de golf guardada na carteira.  

 

Foto - Jacques-Henri Lartigue

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Gavetas:


4 rabiscos

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De Kalila a 28.06.2017 às 22:00

Ahahah, final hilariante, amiga!
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De Gaffe a 28.06.2017 às 23:17

Oh!
Não achei nada...

:(
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De Kalila a 28.06.2017 às 23:32

Não quis tirar valor ao texto, que é excelente!
A Gaffe é uma inspirada nata, a sua escrita encanta e leva-nos aos sete céus. Normalmente ficamos a pensar no tema, no cenário ou na argúcia. Aqui não, ficamos a pensar como é que alguém se esquece de um carro! Tem imensa piada! :)))
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De Gaffe a 29.06.2017 às 00:23

Oh! Obrigada.
:)
A verdade é que nunca conduzo carros emprestados. Se juntarmos a isso o entusiasmo por ter encontrado uma velha amiga, acabamos por perceber a patetice.
Creio que nem chegou a ser esquecimento. Nem sequer pensei no carro. Tinha aquela porcaria na oficina, logo não tinha carro. Uma boleia divertida era um achado!

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