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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ilusionista

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.18

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Há tempos que já lá vão, recebi um recado de uma mulher banal que, numa entrada de mamute, se reportava à alegada homossexualidade do meu irmão. Nada de importante, quer para ele, quer para quem o rodeia, mesmo que a alusão espelhasse uma verdade, o que não é o caso.

 

A mulher era, fazia crer com insistência e bandeiras desfraldadas, uma inflamada defensora dos direitos de tudo o que se mexe - incluindo o sistema neurológico das plantas -, uma abnegada e inabalável paladina das diferenças, uma quixotesca matrona imbecil de utopias parolas, uma cuetisa de pechisbeque capaz de urdir trivialidades usando as rimas que encontrava em saldo.

 

O facto de me ter considerado uma infeliz que até tem um irmão gay, é extraordinário.

 

Habituamo-nos a espreitar pelo buraco das fechaduras precárias das redes sociais. Viciamo-nos nesse nauseabundo encharcar de pretensa vida alheia, acreditamos que detemos o poder medíocre - como todo o poder que é ilusório -, facultado pelo falseado conhecimento do que ao outro pertence, indignamo-nos quando nos falha a mesquinhice filtrada por likes, por twitters, ou por instagrams, e ficamos esfaimados, salivamos e esfregamos o rabo com as patas de trás, quando suspeitamos que de tudo sabemos, posto que é tudo o que ali está. Somos patéticos consumidores de ilusionismos. Somos, em simultâneo, artistas de um circo onde a arena é o vácuo e o próprio piso onde periclitamos. De tal me convenci, muito recentemente. Estou ainda em processo de adaptação.  

 

O desejado insulto da lamentável e iludida mulherzinha, que alia infelicidade a uma eventual ligação familiar com um homossexual, revela não só a sua incapacidade de discernir o que consubstancia as mais evidentes e as mais lógicas premissas que originam as mais simples e as mais comuns das felicidades, mas também nos dá como provado que se tentamos espreitar o que não se pode ver - valha-nos Saint-Exupéry -, acreditando que o intuído no circo é atestado de certezas e portanto passível de ser arremessado como uma pedra, denunciamos demasiadas vezes pedaços alarves da nossa verdadeira índole, deixando que os visados pela nossa torpe espreitadela olhem a descoberto o que queremos a todo o custo filtrar com cor-de-rosa.

 

Nas redes sociais, por mais estranho que possa parecer, revelamo-nos naquilo em que acreditamos, somos o que espreitamos sem ninguém saber e somos sobretudo os ossitos que arremessamos à vida dos outros e que judiciamos ter recolhido durante as incursões que fazemos ao nada que vemos. 

 

Somos como o emplastro. Espreitamo-nos, mas não nos vemos. Espreitamos e somos vistos. 

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14 rabiscos

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De Cecília a 10.05.2018 às 12:29

matrona imbecil

(...)

c'est tout!
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De Gaffe a 10.05.2018 às 13:12

:)
Era pelo menos o que fazia passar.
Provavelmente estou apenas a reflectir o que penso ter visto quando a mulher se mostrou.
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De Fleuma a 10.05.2018 às 17:25

Nada, mas nada neste nosso querido mundo me deixa mais excitado do que o virtuosismo moralista de certos postigos humanos.

Principalmente, relembro certos apetrechos e sistematicamente permaneço na mesma ideia. Infelizmente.


Saúde
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De Gaffe a 11.05.2018 às 09:56

Alguns desses postigos servem apenas como alavanca para destinos diferentes.
Acabam por ser utilizáveis.

Beijo
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De Pequeno caso sério a 11.05.2018 às 00:28

(O novo livro do Rodrigo Guedes de Carvalho, "Jogos de raiva" , aborda esse tema. )

Provavelmente a senhora (?) que deu esse rótulo ao teu irmão não viu este sketch dos Gato Fedorento.Mas devia.

https://youtu.be/QHqxT4w-lYQ

; )
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De Gaffe a 11.05.2018 às 09:56

Provavelmente tem os mesmos dentes.
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De Anónimo a 11.05.2018 às 12:18

Penso não ser necessário voltar a mencionar o peso dos signos nas atitudes do comum mortal, muito em particular naquele que representa o expoente máximo do termo "comum"..:P

Lembro-me perfeitamente desse episódio, assim como de tantos outros desferidos a outros bloggers, nesse tom execrável de julgamentos a terceiros, com base no que a criatura depreende do que lê, e que, sendo verdade ou não, acaba por utilizar contra si,ainda que sendo, naturalmente, a intenção o contrário. E também das mil justificações tão imbecis enquanto a própria, como aliás comprovei nas duas missivas que me endereçou em modo privado.
Fico absolutamente doida com o argumento Família usado com o intuíto de ofender, ou mencionado, sequer, por parte de quem nem a si se respeita, em virtude de não entender, o ignóbil, dizer essa postura mais de si, que de a quem pretende tocar, ou até exclusivamente de si.
Nutro por aquilo um misto de pena e desdém.
Não gosto de nenhum destes sentimentos,mas simplesmente não consigo deixar de os sentir perante aquela figura, especialmente quando se veste de rosa.

Penso que somos o que dizemos em momentos de raiva, independente de ser legítima ou não, quando a emoção toma conta de nós, o descontrole se instala. É como nos mostramos nessas alturas que revela a nossa verdadeira essência. O resto são pinceladas que se querem, naturalmente, em tons suaves ou, no caso, acordes de um Vivaldi plagiado - e mal - repetitivo, riscado. Um insulto às boas intenções.
Um tédio.

Abraço em ti, querida Gaffe.

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De Gaffe a 11.05.2018 às 13:28

Não há hipótese de estar mais de acordo.

Mas deixou-me em paz, o que acaba por ser um progresso. Era uma criatura execrável e representava tudo aquilo que desprezo. Por estranho que pareça, e tendo em conta o dito, sentia sempre uma indiferença total pelo que dizia, escrevia ou tentava usar como pauzinho.

Nunca tive pena dela, embora saiba que seria a única coisita aceitável que se poderia sentir.

Um beijo.
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De Anónimo a 11.05.2018 às 12:22

.... E muitos parabéns, hiper atrasados, mas que, espero que saibas, hiper sentidos.

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De Isa a 11.05.2018 às 15:52

Aqueles dois "anónimos" dos comentários anteriores, sou eu, Isa, caramba! Bolas! Esqueço-me da coisa de preencher os dados.

("Anónimo".. belhéque...)
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De Gaffe a 11.05.2018 às 16:00

Eu sei.
Reconheci imediatamente a tua escrita. És inconfundível.
MARAVILHOSA e única.
:)
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De Maria Araújo a 14.05.2018 às 18:50

Gente esquisita, sem valor.
O último parágrafo é uma grande verdade que nem todos querem ver.
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De Gaffe a 14.05.2018 às 20:57

Ou nem todos gostam de ver.
Às vezes fazemos de conta que não existe gente assim.

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