Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe imperiosa

rabiscado pela Gaffe, em 27.02.18

Nefertiti.jpg

 

Todas as mulheres possuem um desenvolvidíssimo espírito científico, pese embora apenas algumas o usem para tentar dissecar a alma alheia. Por norma os instrumentos usados não incluem a inteligência, posto que para a operação fica aquém do esperado e, no máximo, o que se obtém é a pele do observado, que fica sempre bem no soalho de madeira.

 

Há no entanto casos em que é possível tentar chegar a resultados interessantes, se o analisado for um conceito.

As mulheres são peritas em elaborar pareceres, a formular noções e a construir máximas que os homens gostam de usar depois. São Piçarras e Tonys das nossas melodias e chegam aos festivais já vencedores. Deixamos, porque não importa o resultado do júri. O que nos dá gozo é a certeza do engano dos jurados que se revelam ainda mais tontos do que na realidade são.

 

Os conceitos que nós, mulheres, fazemos florir são como papoilas. Surgem às centenas, em campos magníficos e dão ramalhetes perfeitos, porque efémeros. É lógico que cada uma de nós escolhe a papoila que mais condiz com o seu tom de pele, com a cor do blush, com a cor do dia do decote, ou com a forma que lhe parece próxima da perfeição sonhada.

 

Malgré tout, é sempre uma papoila que é escolhida.

 

Esta inteligentíssima, - apesar de modesta que sou, devo assumir -,  introdução, chega a propósito dos conceitos de elegância feminina que provocaram um olhar bucólico sobre este campo plano e tão singelo onde pulula, aqui e ali, o escarlate das florinhas.

Há que pegar no bisturi.

 

A elegância - a Elegância -, pode ser analisada com objectividade científica. É possível arrancá-la do somatório dos distintos conceitos que são construídos por cada uma de nós e tornados de certo modo distintos uns dos outros. Há a elegância da mulher magra e alta, esguia como a haste de um lírio. Há a elegância da que veste sem ser vestida por Valentino. Há a elegância construída pela fleuma gélida perante incêndios de barracão. Há a elegância da maturidade que constrói castelos de reserva e discrição e há outras que não se dizem por exaustão.

Por norma, alia-se, mesmo inconscientemente, a elegância de uma mulher à sua biografia. No entanto, a Elegância pode ser isolada, pode ser objectivada, pode ser detectada sem as interferências usuais e sem as premissas que habitualmente nos levam a resultados viciados.

Uma mulher pode ser Elegante independentemente do mundo que a olha, para além de si, para além da sua história ou da sua voz. Neste pressuposto, pode ser Elegante uma psicopata, uma assassina, uma inócua dona de casa, uma apaixonada pelo funk, uma vendedora do Bolhão - estas são quase todas, quando calmas! -, ou uma candidata a Prémio Nobel da Paz.

 

A Elegância é um palimpsesto. Talvez exista uma facilidade relativa em separar camadas, desagregar substratos, definindo-os como eleitos na subjectivização do conceito, mas no final - e afinal -, o somatório torna-se indistinto, quase invisível, quase mistério, porque, diz o aviador, o que realmente importa não se vê.

 

A Elegância não é portanto uma projecção do olhar do Outro. É o reconhecimento do Outro da existência imperiosa e única de alguém.

 

Sentimos a Elegância, somos Elegantes, porque somos, nós também, palimpsestos, mas nesse aglomerar, nesse sedimentar de histórias que são nossas - apenas nossas e sem domínio algum sobre o olhar dos outros - existe um elemento essencial que atravessa cada substrato, solidificando o todo.

 

A inteligência.

 

Nenhuma mulher é Elegante se não for inteligente e logicamente madura (aos dezoito anos escolhemos sempre o perfume errado).  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


17 rabiscos

Imagem de perfil

De Maria Araújo a 27.02.2018 às 12:34

Nem tenho nada a dizer.
Imagem de perfil

De Quarentona a 27.02.2018 às 12:41

Precisamente, Gaffe, precisamente! Muito embora, eu tenha alturas em que me sinto tão deselegante...
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.02.2018 às 13:23

Oh! Mas temos todas.
o importante é que os danos sejam minorados.
Imagem de perfil

De Corvo a 27.02.2018 às 12:56

Concordo. São indissociáveis, e se educada a classe emerge.
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.02.2018 às 13:25

É exactamente por isso que me revolto - enfim, fico irritada - quando um deputado português (europeu) declara que a educação não é, nem pode ser, prioridade.
Imagem de perfil

De Corvo a 27.02.2018 às 13:49

Vai ver que é outro carneirinho verde de cérebro lavadinho pelo Miguel Azevedo, cuja leitura educacional cinge-se ao jornal do Sporting
Não ligue, vai passar.
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.02.2018 às 14:31

Não sei quem é o Miguel Azevedo e suspeito que não quero saber.
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 27.02.2018 às 18:10

Bravo, minha amiga, bravo!

Agora sim. Camada após camada, como se de uma cebola se tratasse, chegaste (e trouxeste - nos) ao âmago da questão.
Fiquei esclarecida e muito satisfeita por saber que já sou semi - elegante.
O que falta, virá com a idade.
Quanto ao... perfume, sempre fiz boas escolhas (mesmo antes de ter completado a maioridade).
;)*
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.02.2018 às 18:17

Tinhas de resumir tudo tão bem e desmontar a tenda que me levou um "ror" de tempo a erguer!!!
:)

O meu perfume foi descoberto aos 25. Nunca mais mudei. O problema é que já mal o sinto em mim e despejo quase o frasco todo em cima. Já receio ser acusada de usar armas químicas.
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 27.02.2018 às 18:31

Tenho aprendido com as melhores e tu és uma delas.
Aguças o melhor de mim...e nunca te vou conseguir agradecer o suficiente por isso.


Quanto ao perfume vou mudando...mas sempre dentro do mesmo criador : Thierry Mugler. Não há como errar.
Ultimamente ando viciada no "Angel Muse" . Experimenta e saberás(quase ) ao que cheiro.
; )
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.02.2018 às 19:00

Em relação ao primeiro parágrafo:
Oh!

Em relação ao segundo:
Vou cheirar, mas não acredito que altere a minha escolha. Quem me tira Narciso Rodriguez (o frasquinho rosa) deixa-me desolada. Sou uma rapariga muito fiel.
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 27.02.2018 às 19:11

Nem era minha intenção que alterasses a tua escolha. Tu já viste como é que o Demo nos ia distinguir? !

Só te dei a conhecer o aroma para me... reconheceres.

; )
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.02.2018 às 19:21

Eu sei!
Fiz o mesmo com a mesma intenção.
:)*
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 01.03.2018 às 14:51

Querida Gaffe,
Narciso Rodriguez do frasquinho rosa é também o meu perfume de eleição e, comigo acontece o mesmo, uso-o há tanto tempo que já não o sinto e por isso tenho tendência a ser pouco parcimoniosa na sua aplicação.
No entanto, não correremos o risco de nos confudirem: a Gaffe é ruiva, eu sou loura ;))
A elegância, tal como a inteligência, é uma qualidade que é inata mas que uma rapariga esperta consegue aperfeiçoar com o passar dos anos. Aos 18 anos nenhuma mulher consegue ser verdadeiramente elegante. É demasiado imatura...
Imagem de perfil

De Gaffe a 01.03.2018 às 15:14

:)
Concordamos em tudo.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 01.03.2018 às 16:56

;)
Já constatei que partilhamos muitas opiniões, embora me pareça que eu lhe levo alguns (muitos) anos de avanço neste percurso de rapariga esperta.
Na realidade adoro muito do que escreve, e mesmo quando discordo em relação ao conteúdo não deixo de admirar a forma :)).
Grace

P.S. Não leve a mal, mas só irei identificar-me assim, uma vez que não tenho facebook, nem blogue, nem nada desses registos digitais tão em voga.
Imagem de perfil

De Gaffe a 01.03.2018 às 20:28

Discordar é uma forma de abrir caminhos em labirintos, embora, é claro, exista discordância que beco sem saída.

"Grace" é bonito.
Obrigada.
:)*

(Só tenho isto. Não gostei do facebook e não encontro motivo para me "inscrever nas outras redes sociais)

Comentar post



foto do autor