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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe já sabe ler

rabiscado pela Gaffe, em 16.10.19

 

Para a Tia! Tia! !Tia!

A petiza já sabe ler.

Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafada, mas feliz.

Esta felicidade estende-se aos adultos que, para além de considerarem ter encontrado na família um prodígio inesperado, ficam libertos da maçadoria que se vinha tornando ler ou inventar histórias todas as noites à beira sono e ao canto da exaustão, quando a criança reivindicava o direito de ouvir a construção da fantasia pelas vozes que lhe desvendavam, que lhe decifravam, os signos e os mistérios contidos num livro.

 

No início, repetir as mesmas histórias era uma bênção que nos parecia maldição até batermos contra a vontade infantil de ouvir Sherazades improvisadas e inábeis.

Éramos três. O livro, a criança e a pobre criatura cansada que noite após noite servia de intermediária entre a fantasia e a avidez de sonho da ouvinte.

- Hoje é a tua vez. Ontem contei duas seguidas!

Agora que já sabe ler, é um alívio. É autónoma. Já permite que os deixemos, a ela e ao livro, entregues um ao outro.

 

Agora que já sabe ler, odeia ler.

 

Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafada e perdida por completo no labirinto que foi descobrindo, mas onde ainda não encontrou saída. A frase vai-se erguendo sem sentido. Lida, mas não entendida, como se cada palavra conquistada se perdesse no tempo que leva a conquista e que impede que a união das parcelas não tenha resultado.

 

Ao parar de ouvir o contador de histórias, porque se tornou capaz de as procurar e decifrar sozinha, ao ser entregue sem apoio ao livro, deu início a uma luta que perde noite após noite, à beira do sono já despovoado. 

 

Cultivar o prazer de ler numa criança é continuar a ler-lhe, mesmo quando sabemos que ela já vai tocando as frases com tranquilidade. É permanecer três, mesmo pensando que dois já bastavam.


Creio que descobrimos isso apenas quando a criança nos avisa que saltamos uma frase, quando nos aponta, com o dedo a passear nas palavras certas, lendo, palavra por palavra, o erro que cometemos descrevendo em tons de verde a capa do príncipe, quando é lilás para condizer com os olhos da princesa e nos retira, maternalmente, o livro da mão.

 

Creio que descobrimos isso apenas quando ouvimos, numa noite qualquer à beira do cansaço, a criança declarar com convicção que não lemos como deve ser, desatando-nos o livro que abrimos cautelosos e soltando, como deve ser, a história que nos vai adormecer.

A partir desse momento, todas as palavras deixam de ser nossas, que somos tias tontas que não sabem ler, para se transformarem no ninho dos sonhos que fazem leitores.  

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7 rabiscos

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De Sarin a 16.10.2019 às 13:15

És uma doçura!
Sim, as tias ganham a leitura dos sonhos nos olhos das sobrinhas acordadas. Mas nunca seremos tontas, apenas entontecidas espantadas apaixonadas no elas já saberem ler, no elas lerem connosco :))
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De Gaffe a 16.10.2019 às 14:18

Entontecemos só ao olhar para elas. Enchem-nos de orgulho.
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De Sarin a 16.10.2019 às 14:19

E amor.
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De Maria Araújo a 16.10.2019 às 13:46

Excelente, como sempre.
Fez-me voltar atrás no tempo, quando lia as histórias à minha sobrinha e afilhada, Sofia, agora com 21 anos, e ela corrigia-me porque não estava a ler correctamente.
A sobrinha já sabe ler.
Está crescida.
Parabéns, Gaffe.
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De Gaffe a 16.10.2019 às 14:17

Sim. Está uma menina muiiiiiiito graaaaaaannnnnde.
:)
Obrigada.*
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De Pequeno caso sério a 17.10.2019 às 00:35

Não sou tia (ainda) mas posso garantir-te que com as filhas se passa exatamente igual ao que descreveste.
Uma noite, devia ter ela aí uns 3/4 anos, eu estoirada, lá fui ao "castigo". Quando acabei a história diz-me ela:
" Ó mãe, tu não leste a história lá muito bem..."
E eu : "Não li?! Li pois. Tenho sono mas li a história todinha!"
E ela: " Ó mãe...'tás a mentir...o livro estava ao contrário!"
:))))))))))

Valeu a pena cada segundo.
Vê-la devorar "O diário de Anne Frank" por iniciativa própria aos 11 anos ficou gravado na minha memória.
Hoje, aos 17, escreve muito bem e de forma fluída. Como se fosse uma extensão dela própria. E com um sarcasmo que chega a ser assustador.
E porque é que isto é digno de ser mencionado? Porque infelizmente é cada vez mais raro na geração dos "Youtubes" e dos "Instacoises" desta vida.








P.S- Não poderás NUNCA imaginar o quanto gostei deste texto.
Um dia, quando formos velhinhas, conto-te.
; )
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De Gaffe a 17.10.2019 às 10:13

Tens de contar o mais depressa que conseguires.
Vamos ser "velhinhas" só daqui a uns séculos.

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