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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe jamaicana

rabiscado pela Gaffe, em 24.01.19

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A Gaffe está irritadíssima com os acontecimentos no Bairro da Jamaica que foram ousadamente classificados como ocorrências de índole racista.

 

A Gaffe já passou férias nesse país encantador e embora não tivesse visitado o bairro, pois que o Hotel distava horrores desse lugar e não se encontraram guias com bom aspecto, está em condições de confirmar que os jamaicanos são uma gentinha amorosa e absolutamente nada dada a dar prova dessa doença.

 

A Gaffe ficou estarrecida quando viu aqueles jamaicanos portugueses acusar a bosta da bófia de violência gratuita com laivos de racismo. Não sabendo muito bem o que é a bófia - embora reconheça a primeira componente da expressão como matéria-prima das televisões -, supõe tratar-se daqueles homenzarrões lindíssimos, musculados e fardados e armados, que a Mortágua condena veementemente, com só ela consegue veementemente condenar.

Meninos, não se bate naquela gente.

 

A Gaffe está decidida.

 

Vai imediatamente convidar uma das manas Mortágua - uma qualquer, porque tanto faz que são iguais e ninguém nota a diferença - e a Cristas a equilibrar, para, ladeada por estes extremos extremosos - para além de evitar levar uma bordoada lateral, vai parecer harmoniosa - visitar o Bairro da polémica.

 

Já enverga - para fazer pendant com a deputada - o seu black outfit e já calçou galochas - para fazer pendant com a grande líder.

As três, unidas como Abril mandou, provaremos que Portugal não é racista e que aqueles pobres jamaicanos pretos também não.

Foi tudo bordoada merecida.

 

É um sacrifício que nos fica bem.

 

É evidente que esta rapariga não é o Marcelo. Não vai desatar a beijocar as nódoas negras daquela gente, nem vai tirar selfies, porque o cenário não tem uma luz em condições de figurar no Instagram - não havendo filtros, fica tudo imenso escuro -, mas vai valer a pena ser escoltada por aqueles mauzões gigantescos e repletos de escudos de acrílico que intervêm para apoiar as pessoas de boas famílias na caminhada a favor da diferença.

 

A Gaffe tem de provar que este país não é racista.

 

Já o declarou no facebook e já escolheu também por isso uma fotografia de um mocito com quem não se importava nada de estabelecer diálogo esclarecedor, mas reconhece que ao vivo, bem vestida, com o cabelo bem tratado, acompanhada por fotógrafos e com algum carinho no rosto, a natureza desta mensagem renovadora, apaziguante e cristã, se torna poderosa e faz mesmo com que se distingam de vez em quando os jamaicanos uns dos outros.  

 

A Gaffe admite a existência de um pormenor que exalta as pessoas pouco instruídas e que as leva a desatar aos gritos desagradáveis, acusando um país inteiro de conter raízes racistas.

 

A igualdade.

 

São todos iguais!

 

As pessoas brancas não conseguem distinguir um chinês de outro chinês, mesmo que estes dois piquenos estejam lado a lado.

As pessoas brancas não conseguem pronunciar os nomes dos pretos que - diga-se em abono da verdade -, também não se diferenciam uns dos outros. É impossível chamar pelo Matambukalé Tanrambureré sem termos de nos socorrer depois de um terapeuta da fala. Como pronunciar Pi-Chin ou Pi-Cho-Ti, ou mesmo Pi-La, sem pensar que vamos ser violadas? Como encontrar modo de articular Lakshmi Mahara Surya sem pensar que nos vão despejar açafrão no cabelo, nos vão tatuar uma porcaria em hena nas mãos - desidrata imenso -, ou nos vão tentar impingir uma rosa de plástico quando formos ao Saldanha?!

 

A Gaffe tem conversado imenso com a  senhora Årud Haakonssonhagebak, uma senhora norueguesa lá de casa - sem ser, c’est évident, a colaboradora doméstica, uma romena que nos maça horrores ao tentar fazer com que a percebamos -, que sempre diz que o racismo português é uma fake new, pois que não é viável acusar um povo tecido de heróis camonianos, que nunca levantou um dedo contra a senhora D. Isabel dos Santos e que no passado ofereceu novos mundos a um mundo de gentalha que nem sequer soube agradecer e que agora está convencida que temos obrigação de os acolher nos nossos lares e privacidades, de ser um povo pouco dado à diversidade.

 

Somos um povo que marca a diferença.

É tudo.

Então vá. 

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19 rabiscos

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De Miss Lollipop a 24.01.2019 às 12:28

O que já me ri com este texto magnifíco ! Parabéns.
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De Gaffe a 24.01.2019 às 13:16

Merci!
É tudo tão divertido com esta gente!
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De Cecília a 24.01.2019 às 12:50

e onde fica o Saldanha no meio disto tudo?



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De Gaffe a 24.01.2019 às 13:16

Mesmo ali ao lado da Avillez.
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De Maria Araújo a 24.01.2019 às 13:46

Excelente!
Já me ri com este post.
E a imagem, hummm, tentador.
Sabe que adoro lê-la?
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De Gaffe a 24.01.2019 às 14:08

Oh! Obrigada.

Espero sinceramente que mantenha essa preferência.
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De Luísa de Sousa a 24.01.2019 às 13:54

Adoreiiiiiiiiiiiiiiii este testo, cheio de sentido de humor mas que "destralha" verdades! Parabéns. Amei!
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De Gaffe a 24.01.2019 às 14:07

Obrigada!
Comigo, já sabe, não há "panelinhas".
*
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De Rui Pereira a 24.01.2019 às 15:39

Minha cara,

Gostei da toada mais leve e divertida. ;)

(Ou se calhar sempre foi assim e eu é que estava distraído…)
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De Gaffe a 24.01.2019 às 15:47

O menino sempre distraído!
:)
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De naomedeemouvidos a 24.01.2019 às 15:44

Diz-me uma amiga que concorda com tudo o que aqui escreveu a Gaffe, parece-lhe muitíssimo bem, inclusive, o mocito Benetton lá de cima, da fotografia, chiquérrimo, nem branco nem preto, que ela, a minha amiga, diz que é como a Agatha Ruiz de la Prada e o preto cansa-a imenso...
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De Gaffe a 24.01.2019 às 15:48

Mas a sua amiga tem de concordar que o preto nunca compromete.
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De naomedeemouvidos a 24.01.2019 às 21:43

Nunca! Mas, às vezes é “jamais”, en français, como diria outro senhor.
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De Gaffe a 24.01.2019 às 22:56

O outro senhor não foi preso?
Ah, foi o outro. Oh, também não. Afinal foi aquele.
Não, não foi nenhum.
Foi, sim. Só para experimentar.
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De naomedeemouvidos a 24.01.2019 às 22:58

Desconfio que nenhum desses senhores sabe francês...
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De Gaffe a 24.01.2019 às 23:54

Sabe, pelo menos, uma senhora...
Depois das finanças francesas "ligeiramente" lesadas, um Fundo para presidir.
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De Pedro Vorph a 24.01.2019 às 21:58

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De Anónimo a 24.01.2019 às 23:50

Prosa deliciosa, daquela que dá gosto ler, cheia de argúcia, humor refinado, análise assertiva e fina.
“Que nunca a boca lhe doa” : vox populi, os dedos, digo eu.

Leanor
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De Gaffe a 24.01.2019 às 23:55

Obrigada.
Fico orgulhosa por ter gostado.
Volte, mesmo que seja pela verdura.
:)*

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