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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe leiloada

rabiscado pela Gaffe, em 29.07.15

G..jpgÉ constrangedor o modo como algumas raparigas espertas conseguem unir a desfaçatez com que nos tentam impingir uma quantidade imensa de produtos que lhes oferecem umas amostras ou lhes pagam uns trocados ao facto de acreditarem que somos todas parvas e crédulas até à imbecilidade ou à idiotice catatónica.

 

A Gaffe não é de todo contra as artimanhas que ajudam uma pequena a safar o orçamento à custa da papalvos que estão convictos que a honestidade e o desinteresse são notas vivas nas pautas dos seus blogs e, embora suspeite que é crime leiloar a descendência, não lhe parece mal emprestar os miúdos amados até ao infinito a uma cadeia de supermercados ou a uma boutique trendy em troca de um babygrow. Uma rapariga tem de fazer pela vida e os miúdos podem contribuir para o sustento da casa, da ADIDAS e do made in Indonésia. A cavalo dado não se olha o dente, que normalmente nos putos leiloados ainda não eclodiu.

 

O que a intriga, para além do facto de suspeitar que estas moçoilas estão convencidas que mais do que meia dúzia de tolas, existe uma multidão imensa que ainda não percebeu o esquema montado e que se vai enrolando na pureza e na inocência das suas tão simpáticas intenções, é a completa devassa da intimidade a que se predispõem.

 

Vai tudo a eito. Nada escapa desde que traga uns trocaditos. Colocam-se bebés nas montras, etiquetados e identificados; colam-se fotografias de WC com o marido dentro, sentado na sanita, muito contente porque o papel higiénico tem macaquinhos desenhados e veio às resmas; come-se na varanda, decorada com tralha oferecida pelo IKEA, o frango dado pelo restaurante da Baixa na caçarola que chegou da CASA AO LADO, decorado com as folhas de ervas aromáticas com sabor a plástico enviadas pela ERVANÁRIA do MONTE ou remodela-se o quarto do casal com paspalhos coloridos fornecidos pelo ERNESTO&FILHOS - móveis e iluminação -, enquanto ao espelho há o espalhar em lingerie recebida na véspera do bronzeador que a Perfumaria ESTRELA D’ALVA pagou para que se fizesse de conta que se está a usar. Tudo é exposto, comentado e publicitado e a Gaffe até nem se importa de visitar a mostra de quando em vez.

Há milhares de olhos estranhos que conhecem de cor a cor da pele das crianças e a dos tarecos que se apregoam através daquilo a que Miguel Esteves Cardoso chamou lambecusice interesseira e é intrigante perceber como estas raparigas felizes despejam na rua sem qualquer pudor e se lhes pagarem o que se deveria manter privado a todo o custo.

 

A diluição de fronteiras entre o que deve ser nosso e o que pode ser de todos, nunca deu resultados animadores. A promiscuidade entre o público e o privado foi uma das responsáveis pelo trambolhão de Impérios e contribuiu grandemente para a derrocada da Idade Média. Convenhamos que é exagerada e possivelmente descabida a alusão histórica, mas o certo é que os nossos impérios mais íntimos carecem de muralhas intransponíveis e, em média, já temos idade para perceber que quanto mais nos curvamos para apanhar as moedas ou polir os metais à clientela, mais o cu mostramos e que acabamos por ficar com ele sempre ao dispor.  

 photo man_zps989a72a6.png


14 rabiscos

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De J.S.M.suave e nas tintas a 01.08.2015 às 03:57

Sim, é verdade. Sobretudo, um que está como peixe na agua, tanto dentro, como fora do aquário ! Tenho a impressão que o acaso, como valor filosófico ( algures na fronteira entre a razão e a prestidigitação.), leva sempre a melhor; o diabo do trabalho é sinonimo de compensação!
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De Gaffe a 01.08.2015 às 15:40

Creio que o acaso, filosófico ou não, tem importância residual neste processo. Acredito muito mais na "deriva das placas".
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De J.S.M.suave e nas tintas a 01.08.2015 às 19:09

Muito bem! Mais ou menos figura de estilo, creio que estamos a dizer a mesma coisa. o acaso é a razão cuja razão ainda está por descobrir; é a génese e o devir da razão, que se replica, e perpetua a vida. É uma perspectiva muito historicista - bem sei -, mas creio que é neste ponto em que niilismo e historicismo concordam: uma vez que o homem se apoderou da razão, é preciso desconfiar muito dela!
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De Gaffe a 01.08.2015 às 19:17

O homem apodera-se tantas vezes do acaso! Há que desconfiar dele também por isso.

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