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Ler não é, ou não deve ser, um exercício e um prazer controlado?
A leitura deve fluir no som dos ventos ou obedecer a regras implícitas na vontade de se crescer dentro das bibliotecas, construindo livro a livro a nossa própria estante?
Lembro-me do meu querido amigo, assustadoramente inteligente, que pela noite de Paris procurou a Biblioteca que lhe esclareceria a dúvida que o impedia de dormir. Em Paris, os livros, as brutais multidões de livros, estão sempre ao dispor a qualquer hora.
É certo que a noite tinha vodka a perturbar-lhe o negrume e a sobriedade, mas o impacto, o confronto bestial com os milhares de títulos em silêncio escuro, provocou-lhe o desabar de todas as certezas. Desatou a chorar compulsivamente, porque percebeu naquele instante que jamais conseguiria ler tudo o que ali em ordem o olhava.
Esta estupenda homenagem ao livro, foi também o início de um agudizar quase obsessivo do rigor na selecção das obras que o acompanhariam posteriormente.
De acordo com este homem, ler é também um processo penoso, difícil, muitas vezes angustiante, tantas vezes doloroso e tantas vezes traumatizante. Também por isso deve ser humilde.
O leitor - falo do grande leitor - é um atleta de alta competição, mas não vai sequer vislumbrar a linha da meta se não tiver aprendido o modo como deve colocar o pé na linha de partida e não tiver percebido que cada movimento que faz é o impulso para a concretização do seguinte.
Da mesma forma, torna-se mais provável, por exemplo, não compreender Lobo Antunes se desconhecermos Faulkner.
Este reconhecer da necessidade de contínuo na leitura, de perceber que a obra que temos na mão é também um palimpsesto e que nele somos capazes de ouvir outras vozes, outros sons, outros cheiros e sabores, outras épocas e outros universos, só é possível se o passado for eterno. Transformamos uma obra numa ilha solitária e perdida se não tivermos o mapa do arquipélago e desconhecermos o oceano onde poisou.
É impossível lermos tudo. A humildade de partirmos do princípio, devagar e conscientes que não temos tempo para abarcar a Biblioteca toda, fornece a coragem de escolhermos os "velhos" para podermos depois saber escolher e saber ler os "novos" sem atribuirmos grande importância ao cânone literário que será sempre uma membrana permeável e falível.
Ler é um trabalho árduo de oficina. Se começarmos muito novos, se aprendermos com os velhos mestres o modo de manobrar as ferramentas, se tivermos a modéstia de aceitar que nunca sabemos do ofício o que o ofício tem para nos dar, é muito provável que encontremos a vontade de continuarmos a ser felizes a aprender.