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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe lendária

rabiscado pela Gaffe, em 18.11.16

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Gosto de lendas. Não sei muitas, mas há uma que me agrada particularmente.

Em casa dos meus avós há um reservatório de água que parece um espelho.
Mete medo! Profundo, gigantesco e circular, guardado por árvores que agora sei serem teixos, muito velhos, muito altos e muito altivos. Não encontramos facilmente esse lugar. Está literalmente escondido, encerrado como se guardasse mil segredos. Chegamos até ele por um caminho estreito e só sabemos que nos encontramos perto pela imensa frescura e pelo silêncio que faz lá dentro.
O reservatório é alimentado por um fio de água que vai tombando devagar sem fazer o mais ínfimo ruído.
É quase mágico e quase assustador de tão pacífico.
Reza a lenda que quando o fio de água que desliza se apagar, o último senhor será realmente amado e por amor morrerá sozinho.

O fio corre ainda, mas amedronta-me a palavra último.

 

Mas esta é uma lenda tão velha como estas árvores. Não conheço uma menos perdida no tempo e mais urbana.


Inventemos uma!

 

Escolhemos um mês. Pode ser Novembro. Um dia da semana. A escolha não será difícil, porque há poucos. Sexta-feira, por exemplo.
Agora façamos chover. É sempre bom existir chuva numa lenda.
Falta o mais difícil. Personagens.
Façamos assim: desenhemos uma apenas. Um homem sozinho. Jovem? Não. Vamos envelhecê-lo prematuramente, dar-lhe os contornos da tristeza e do desterro.
Ninguém suspeita que ele passa pelas ruas friorentas. É invisível entre a chuva. Usa sobretudo e botas esgotadas e traz luvas de couro demasiado grandes que lhe escondem os dedos.
Vem pela chuva, indiferente e frio.
Vamos colocá-lo agora num Café qualquer, de manhã cedo.
Veio de longe e espera. Uma vez por ano, vem e espera. Sentado numa cadeira qualquer, num Café, numa Sexta-feira de Novembro.
Olha para o relógio. Espera e não gosta de esperar. Tem medo que não venham.


Ninguém vem. Nunca ninguém veio.
Uma vez por ano, século após século, ninguém chega para o vir buscar.
O homem desiste e lentamente deixa que a chuva o apague.
Numa Sexta-feira de Novembro.

 

Há fios de água em todos os tempos que se enredam em todos os homens que morrem de amor.  

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1 rabisco

Sem imagem de perfil

De Rapunzel a 20.11.2016 às 07:20

A imagem e a descrição inicial transportaram-me para tão longe...
Na casa da minha avó paterna havia um poço, antigo, enorme de pedra. Estava rodeado de árvores magestosas e frescas e era um lugar proibido a crianças. Lembro-me de pensar, sim, eu sei que o poço é perigoso, eu prometo não me aproximar mas gostava tanto de lá brincar... O chão era coberto de folhas, parecia sempre Outono. Sempre fui uma criança obediente, nunca transgredi os limites impostos mas, ia muitas vezes sentar-me na fronteira apenas a olhar. Algo me dizia que era ali que começava a magia... Os contos de fadas.
Fiquei com saudades da casa da minha avó, do cheiro maravilhoso da cozinha, das divisões fechadas que prometiam secretárias com múltiplos segredos, do mobiliário Arte Nova, das escadas geladas em pedra, da capela que era bela, velha mas onde era muito raro eu entrar... Cresci durante as férias naquela casa sem a maturidade para apreciar o belo e o peculiar que me rodeavam... Lembro-me de pedir à minha avó as camisas de dormir mais bonitas, lembro-me do cheiro dos maravilhosos lençóis e, da enorme excitação que era dormir na mesma cama com a minha prima... Lembro-me de ir para o sotão e passarmos a tarde toda a experimentar chapéus...
Obrigada pela viagem ao passado. Foi muito doce. Obrigada por me lembrar que me devo obrigar a cultivar pequenos hábitos simples e belos na rotina do meu filho, para no futuro se tornarem ainda mais bonitas memórias. Afinal, é tão fácil vê-lo feliz a beber um chá de limão para acompanhar o lanche da mãe, à lareira. Vou passar a usar as toalhas de bainhas abertas. Todos os pormenores são depois importantes numa memória.
E o meu filho adora lendas...

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