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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe lendária

rabiscado pela Gaffe, em 10.12.16

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Quando começa o Inverno, na hora parda que alastra a cor acidulada reflectida nos espelhos da água da cisterna mais pequena, na face Norte da casa, no lugar mais frio, há uma brisa que sentimos quase verde.

Desce as escadas de pedra e percorre todo o labirinto esguedelhado do jardim, entra pelas portas e janelas, corre corredores, afaga os móveis e as louças, sacode a poeira breve dos tapetes, confunde a ordem dos ponteiros dos relógios, despenteia jarras, inclina quadros na parede, desfaz a simetria das cortinas, obriga as mulheres a compor os lenços que usam traçados no peito, desarranja todos os recantos e canteiros, para depois voltar ao lugar onde nasceu, no lado Norte da casa, perto da cisterna mais pequena, e desaparecer por entre a imperceptível ondulação da água.

 

Dizem os homens que não é brisa sorrateira e branda a nascer ali, que não é o vento a estender um braço de sono e a recolhê-lo depois de o espreguiçar.

 

Dizem as mulheres que todos os Invernos vem do fim da água um anjo condenado por se atrever a amar aquela que guardava e que em brando desespero procura o que, por tanto desejar, deixou desamparada.

 

Ao fim da tarde, depois, volta a morrer, porque se perde constantemente a vida quando sabemos que o nosso amor, de tanto, desnuda e aniquila os que desmesuradamente nós amamos.

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Gavetas:


12 rabiscos

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De Rapunzel a 10.12.2016 às 17:44

Este texto é tão bonito que dói...
É assim que vejo o amor.

Hoje, estou cinzenta por uma série de razões, que se for a analisar não são problema nenhum concreto, mas que tornam a minha alma pesada e angustiada...
E sou grata pela minha vida, mas não posso deixar de sentir, que às vezes, preferia mil vezes ser acéfala e ignorante para não ter sempre a pairar em cima de mim o fantasma da eterna insatisfação... Parece que estou uma vida inteira a trabalhar e à espera de algo que nunca vou conseguir alcançar. Mas nem eu sei o quê...

E tenho lidado, ultimamente, com uma pessoa normal, simples, mediana, banal que me tem feito invejar a simplicidade com que vê, sente e vive a vida. E eu que sempre tive orgulho de não ser invejosa, de nada nem de ninguém, porque o que sempre possui me bastou.
Tudo é mais fácil quando vivemos uma vida para pagar a casa, o carro e as férias anuais no Algarve. Quando o ponto alto do fim de semana é ir tomar café ao sábado e almoçar fora ao domingo. E porque não, ir ver as decorações de Natal nas ruas. E não quero parecer má, ingrata, invejosa ou classista, porque não sou. Sou apenas muito complicada, muito difícil e muito complexa.

Depois leio este texto e sorrio, sincera e profundamente, pela primeira vez no dia, e compreendo, que nunca conseguiria ser diferente...
Acho que acabei de fazer as pazes comigo própria, porque como já disse, mais que uma vez, não há nada que mais me cative ou a que seja mais sensível, do que a beleza.
Obrigada e um beijinho grande para si.

Estou muito, mas muito mais leve. Quase feliz e etérea.

P.S.- Espero, sinceramente, não ser ciclotímica...
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De Gaffe a 10.12.2016 às 22:37

A árvore da sabedoria não é a árvore da felicidade, dizia o velho filósofo.
Só a banalidade entrega tranquilidade e ser-se banal às vezes nao é mais do que abdicar e misturarmo-nos com a multidão.
Se não podemos ser o que somos, valerá a pena sermos outra coisa?
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De Rapunzel a 10.12.2016 às 18:19

Era uma pena... Uma rapariga tão eclética acabar a lítio...
Há sempre aquela pequena percentagem que não responde aos fármacos de última geração, com pouquíssimos efeitos secundários, e que só responde ao velho e fiel amigo lítio... O da estreita margem terapêutica...
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De Gaffe a 10.12.2016 às 22:39

O lítio sempre me fez lembrar o absinto dos poetas da tristeza!
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De Rapunzel a 10.12.2016 às 23:36

É mesmo. Nunca tinha pensado nisso. Apesar de saber que algumas vezes, é na fase maníaca, que algumas pessoas são extremamente criativas.
A genialidade sempre associei, de alguma forma, à depressão e a algumas perturbações de ansiedade. É invariavelmente assim com todos os que conheço. Pessoas altamente inteligentes, qualificadas e diferenciadas, brilhantes até, que exibem sempre um lado profundamente triste ou uma fobia completamente disparatada e inesperada. E claro, estão sempre muito longe do banal...
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De Gaffe a 11.12.2016 às 09:48

O génio associa-me tantas vezes ao inesperado e ao desconhecido para nós, que nos envaidecemos sendo comuns e exemplares cidadãos.
:)
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De Rapunzel a 10.12.2016 às 23:44

Um momento muito Sylvia Plath...
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De Gaffe a 11.12.2016 às 09:49

São as redomas de vidro.
:)
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De Fleuma a 11.12.2016 às 00:19

Quando chegarem a primeiras brisas e luzes da odiosa primavera e se eu ainda estiver por estes lados, vou lamentar o adormecer destes pulsares cinzentos e melancólicos. Sinceramente.
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De Gaffe a 11.12.2016 às 09:51

Provavelmente lamentaremos os dois.
No entanto, há lugares em que entramos e se entranham na memória sem qualquer Primavera.
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De Maria Araújo a 12.12.2016 às 13:08

Belo, triste, saudosista, é como interpreto.
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De Gaffe a 12.12.2016 às 13:12

A saudade é um adereço neste lugares. Há sempre saudade pelo Douro. Às vezes nem sequer sabemos de quê.

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