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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe longínqua

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.19

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Talvez os lugares não mudem. Talvez mude apenas a forma como os esquecemos. 

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Sei que me alterei.

Já não é Saudade o que Paris me entrega. É outro som parecido. Uma outra voz que chega das ruas e vielas, das pontes, das esquinas e das casas, dos muros, dos cantos e ruelas, das arcadas.

Uma outra voz a percorrer-me a alma a dizer que me alterei, que não sou mais a rapariguinha que noutra voz ouvia a alma toda de Paris e que a desfez de encontro à luz que vinha nas tardes em que o som era só seu.
Paris já não terá a voz que vinha e eu não terei a mesma luz que ouvia.

 

Olho agora Paris como a mulher que descobre que o lugar imenso nos olhos da criança não passa de uma pequena esfera de poeira.

 

A memória é agora um lamento prolongado e manso, um suave entardecer inócuo, a manta na cadeira do café, uma tristeza que passa como se tivesse um corpo esmaecido e atravessasse a rua devagar, para o outro lado.

Paris, a que perdi, guardada no meu peito, esmoreceu na perda. Não distingo os traços dessa dor, já não a reconheço e trago um alfinete a picotar-me a alma por ter abandonado o espanto que foi sentir-me longe.

 

Sei que Paris é mais pequena agora do que dantes e que eu cresci no espaço desta míngua.

E no entanto, Paris paciente espera por mim, para me mostrar, mal chegada, a melancólica procissão de outra saudade composta só por mim, porque é de mim que a tenho, que a dor maior não se partilha e o andor que levo não tem peso ou tem o peso que os meus ombros dizem.

Sou menina despida que passa nua pelas avenidas sem ter o rapazinho que anuncia a ausência das capas de veludo.

 

Paris? Paris envelheceu à espera das vadias.

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30 rabiscos

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De Sarin a 05.08.2019 às 21:52

Sim, as etiquetas são nossas.

Não nos encontrarão por aí, claro; passaremos incógnitas à vista de todos :)))
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De Gaffe a 05.08.2019 às 23:08

Poderosíssimas, portanto.
:)
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De Sarin a 05.08.2019 às 23:17

De que outra forma pode uma mulher estar ao abordar o Tempo e a Vida?
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De Gaffe a 06.08.2019 às 00:37

Ah!
Há tantas outras formas!
Provavelmente fazem com que se deixe de ser mulher, mas acabam bastante populares. São facilmente escolhidas e tornam-se respeitáveis.
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De Sarin a 06.08.2019 às 00:45

Por isso mesmo cada mulher ter de se sentir poderosíssima para enfrentar tais situações, ou estará condenada pela História. A sua e a geral.
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De Gaffe a 06.08.2019 às 09:03

Sobretudo a sua.
A geral não é "acessível" a todas.
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De Sarin a 06.08.2019 às 09:22

Por História refiro-me não aos manuais mas às circunstâncias que propiciam os factos que preenchem os manuais.
A história de cada um é pessoal mas é também um pedaço da história comum - Gavrilo Princip assassinou Franz Ferdinand e estalou a Primeira Guerra Mundial. Ninguém sabe nada da mulher que Gavrilo amou e que o desprezou por o sentir perigoso, deixando-o prenhe de energia e paixão que acabou por dedicar à causa. Não sei se foi assim, podia ter sido... :)
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De Gaffe a 06.08.2019 às 11:06

Seria interessante se conseguíssemos averiguar!
A história é feita também destas minúsculas "intrigas" domésticas e de pequeninos episódios que de tão banas nos parecem desprezíveis.
Sempre, sempre, dei enorme importância aos detalhes.
:)

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