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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe macaca

rabiscado pela Gaffe, em 02.09.19

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Tanto enchi o peito de paisagens que receio ter rasgado o macacão, no rabo.

 

Não sou de todo uma acérrima fã das maravilhas que fazem com que fiquemos embasbacados durante imenso tempo, mirando a queda de água, o precipício, as vaquinhas pastando idílicos verdes, os castelos apodrecidos de cinzentos fantasmas e todas as outras maravilhas com que abastecemos os olhos da alma de sossego e retificamos o stock de deslumbre.

Consigo, com algum esforço, pasmar durante cinco minutos, mas exigir a uma rapariga hiperactiva um maior período zen, um mais alargado tempo de recolhimento paisagístico, é tarefa inglória que apenas provoca irritações desnecessárias e uma visão menos calma do horizonte.

 

Depois, na Irlanda, a paisagem rural, o muito longe possível das grandes metrópoles - o que penei para ter a possibilidade de escrever grandes metrópoles, dava todo um romance de viagens! -, está repleta de cocó dos bichos. Caminhamos rumo ao horizonte verdejante e chegamos a um pub qualquer a meio do caminho, a cheirar a podre e com os sapatos forrados a estrume.

 

Em consequência, quietinha observo as pessoas.

 

Os irlandeses são casmurros e muito ciosos da sua identidade. É gente que edificou em redor da sua mundovisão uma fortaleza intransponível que abrange, por exemplo, o modo como encara a suspensão da Democracia decretada por Boris Johnson - inspirado em Manuela Ferreira Leite -, ou o aparente reacender, nos seus territórios, de velhos conflitos armados, pouco tempo após o referendo que deu o sim ao Brexit. Não é assunto nosso. Dir-se-ia não ser também assunto europeu. Indignam-se, insurgem-se e insultam  Boris Johnson - que não é de todo comparável a Trump, pois que reconhece a diferença entre Reino Unido e Inglaterra -, mas não permitem que o nosso narizito se introduza nestes solavancos inesperados e, secretamente, vão mitigando a dor de ter de reconhecer Sua Majestade como um jarrão periclitante e inútil no centro do jardim, que se sustenta e enche por hábito, admitindo em segredo que seria mais bonito Sua Alteza ter virado costas e anunciado que se encontrava de diarreia, fechado no real WC de férias, evitando ter de proclamar o tradicional I agree ao que, pelo menos em teoria, poderia ter sido negado.

 

Até mesmo a empatada May teria torcido melhor o nariz a esta badana cretina.

   

Este antes quebrar que mostrar rachado, está contido, contudo, num invólucro que sempre me agradou, pecaminosamente.

Os irlandeses que escaparam à uniformização das grandes cidades - que os deslavam, esbranquiçam e amolecem -, são homens absolutamente poderosos.

São gigantescos!

 

Lembro-me de ter ido a um multibanco perdido no espaço. Atravessei a rua de macacão de linho largo e imbecil, de alcinhas parvas e bolsinho de chapa no peitilho, com um rasgão no rabo e chinelinhos tenebrosos que tinha encontrado Deus saberá onde.

Ai, que não faz mal que ninguém vai ver.   

Descurei de forma macaca uma das mais sábias recomendações da minha avó - nunca venha como está. Chegue melhor -, e paguei este descuido quando, na minha frente, apanho com os ombros de embondeiro de um irlandês de rabiosque escultural que se virou para mim a sorrir. Um sorriso dentro de uma barba loira que lhe emoldurava a boca carnuda que desafiava os olhos azulados a desenhar um sorriso idêntico.

Corei, com a consciência aguda do esfiapado torpe no rabo do overall - estamos muito ambientadas - e dos malditos chinelos com uma estúpida tira solta e a dar-a-dar e tentei a manobra dar de frosques quanto o homem voltava a sua atenção para a maquineta. Viro-me e enfio o nariz nos peitorais de outro irlandês barbudo e de se morrer logo ali de tão lindo, que sorria da mesma forma devastadora, suspeito que para a memória do rasgão no rabo do macacão que tinha estado sob o seu escrutínio.

 

Não é fácil ou banal uma rapariga ficar presa no meio de dois potentados lidíssimos num tão curto espaço e num tão diminuto tempo! Não acontece com frequência - a não ser se formos óptimas taradas muito curiosas, mas nesse caso, cada um é como é e ninguém tem nada com isso, benzam-nos a todos os deuses irlandeses.    

 

Este percalço - que acabou comigo numa corrida humilhante com uma mão no rabo – provou que a minha aversão à famigerada treta do Se eu não gostar de mim, quem gostará? é sem sombra de dúvida acertada e a manter asséptica e acesa. Há que a substituir com urgência por Se eu não gostar de mim, haja quem goste.

Evitaremos desta forma simples muitas necroses.  

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4 rabiscos

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De Maria Araújo a 03.09.2019 às 21:42

Sortuda ter dado de frente com dois irlandeses que a olharam pela sua beleza, e felizes por tão abençoado rasgão.
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De Gaffe a 03.09.2019 às 23:38

Eram realmente muito bonitos.
Os homens mais bonitos que encontro estão sempre perdidos no degredo, longe das grandes cidades. Paris é uma excepção, porque alberga os sorrisos masculinos mais espantosos do mundo.
:)
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De Maria Araújo a 03.09.2019 às 23:57

Paris é especial para si, pelo que sabe onde encontrar esses sorrisos espantosos.
Eu não reparei em nenhum desses, talvez porque o meu olhar estivesse noutros cantos.
A beleza da Gaffe , e eu tenho a certeza que é uma jovem mulher linda e elegante, atrai os sorrisos mais espantosos do mundo.
Boa noite.
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De Gaffe a 04.09.2019 às 14:38

Paris é a minha cidade!
:)
Mas tenho apanhado com imensos sorrisos amarelos...
Nem tudo são rosas.
É gentiliza sua pensar que sim.
Obrigada.

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